20 de março 2018

Vamos olhar para as diferenças?

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20 março 2018

Vamos olhar para as diferenças?

Texto por: Camila Luz

Durante a adolescência, tive o privilégio de estudar em uma escola que valorizava a formação cultural dos alunos. No segundo ano do colegial, comecei a frequentar aulas extras de atualidades e geopolítica no período da tarde. Então tive o meu primeiro contato com jornalistas, escritoras e ativistas que falavam sobre o lugar da mulher em revoluções políticas e sociais.

A primeira escritora a entrar na minha vida foi a ruandesa Immaculée Ilibagiza. Em 1994, aos 22 anos, presenciou  o genocídio cometido pelo grupo étnico Hutu, maioria em Ruanda, contra os Tutsis, minoria no país. Ela passou três meses confinada em um banheiro minúsculo com outras sete mulheres, sem condições mínimas de alimentação, saúde ou higiene.

As condições precárias só não eram mais desesperadoras do que a tortura psicológica. A porta do banheirinho ficava escondida por um grande armário de madeira. Vez ou outra, os “revolucionários” entravam na casa do senhor que as havia abrigado. Munidos de facões, procuravam por mais vidas Tutsis para levar embora. A família de Immaculée entrou para as estatísticas e compôs as milhares de vítimas do massacre.

Em seguida, fui apresentada à jornalista Xinran, autora de “As boas mulheres da China”. Entre 1989 e 1997, colheu depoimentos de chinesas de diferentes idades e classes sociais para compreender a condição do feminino no país. Parte dessas histórias chegaram às suas mãos por cartas, enquanto apresentava o programa de rádio “Palavras na brisa noturna”.

As chinesas escreviam contando seus dramas pessoais e suas histórias de humilhação, abandono, violência, casamentos forçados, desilusões, amorosas, machismo e preconceito. As narrativas, duras e críticas, revelavam o lugar da mulher durante o regime socialista e a Revolução Cultural, liderada por Mao Tse Tung. A chinesa Hua’er, por exemplo, foi violentada em nome da “reeducação” promovida pela Revolução. Já uma catadora de lixo determinou que deveria viver no ostracismo para não envergonhar o filho, um político bem sucedido.

Mais tarde, já formada em jornalismo, conheci a história de Marjane Satrapi, autora do famoso “Persépolis”. Em quadrinhos, conta como foi sua infância no Irã durante a Revolução Islâmica. Filha de pais que valorizavam o pensamento crítico e a queda do Xá, Marjane se colocava contra as injustiças que via ao seu redor. Desafiava a autoridade das professoras e acreditava ter uma amizade com Deus. Mais tarde, já adolescente, foi enviada para viver na Áustria, onde ficaria mais segura. Sozinha em um país ocidental, enfrentou preconceito, xenofobia e o fato de estar “fora dos padrões”.

No ano passado, uma amiga me emprestou o livro “Infiel”, da ativista somali Ayaan Hirsi Ali. Na Somália, mais de 90% das meninas sofrem mutilação genital. Ayaan passou pelo procedimento doloroso quando tinha apenas cinco anos. Cresceu em uma família muçulmana e altamente conservadora, apanhava sistematicamente da mãe sempre por todos os motivos possíveis. Foi refugiada na Arábia Saudita e Quênia, agredida por um professor de religião e obrigada a se casar com um homem que não conhecia.

Enviada à Alemanha para, em seguida, partir para o Canadá junto do marido, Ayaan fugiu para a Holanda, onde foi acolhida como refugiada. Estudou ciências políticas, tornou-se deputada do parlamento holandês e, mais tarde, persona non grata entre os muçulmanos. Junto do cineasta Theo van Gogh, dirigiu o filme “Submissão”, expondo sua visão sobre a repressão que as mulheres sofrem no Islã. Theo foi assassinado em um atentado que também era dirigido à companheira. Ayaan precisou fugir para os Estados Unidos, onde continua defendendo seus ideais.

Concordando ou não com a visão política dessas mulheres, ouvir o que elas têm a dizer é importante por uma razão em especial: criar empatia. Todas nós tendemos a nos identificar com mulheres que têm vivências parecidas com as nossas. Mas se desconhecemos o que mulheres de outras origens vivenciam todos os dias em outros lugares do mundo, como vamos seguir defendendo um futuro com mais respeito e igualdade?

O feminismo interseccional é a corrente feminista que defende os recortes de etnia, classe social e orientação sexual para analisar as situações de desvantagem em que as mulheres se encontram. Afinal, as relações de poder não estão apenas na sociedade patriarcal, mas também em sistemas de opressão que envolvem cultura, cor da pele, sexualidade e origem. Conhecer o diferente é a melhor ferramenta que temos para evoluir o espírito e construir um mundo mais igualitário.