22 de dezembro 2017

Várias ideias e uma câmera na mão

Tv Capao
22 dezembro 2017

Várias ideias e uma câmera na mão

Canal de mídia independente muda a vida de moradores do Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo
Texto por: Debora Stevaux

"Como fazer duas vezes melhor se você está pelo menos cem vezes atrasado?", é a legenda de uma das fotos compartilhadas pelo estudante André Luiz, de 21 anos. O verso pertence a uma das músicas do grupo Racionais MC's. A resposta é difícil, mas André tira de letra.

Assim como Mano Brown, André também é morador do distrito de Capão Redondo, considerado o bairro mais violento da capital paulista pela Secretaria de Estado de Segurança Pública. Mesmo ainda sem ter dado início à graduação de jornalismo — começará o curso no ano que vem — o jovem tem experiência de dar inveja a qualquer repórter profissional.

Antes mesmo de completar a maioridade, André escondeu uma câmera no banheiro do Palácio do Planalto, em Brasília, e conseguiu filmar o momento em que encontrou a presidente Dilma Rousseff, em 2014. O rapaz, que na época ainda cursava o segundo ano do ensino médio, interrompeu o encontro de jovens empreendedores, que reunia 25 pessoas, uma de cada canto do país. "Eu gostaria de me levantar", anunciou enquanto caminhava em direção a Dilma. Apresentou-se: “Eu sou André Luiz da TV Doc Capão, a TV da inclusão.” Dilma prometeu visitar o distrito localizado na Zona Sul de São Paulo quando fosse reeleita, o que não aconteceu.

Uma câmera é uma arma

Foi em 2012 que André conseguiu materializar dois projetos vinculados a um canal de mídia independente, a TV DOC Capão. "Os jovens buscam espaço de expressão, e nós estamos aqui para fazer com que esse espaço desenvolva de uma maneira diferente, de uma forma igualitária", explica.

Um dos projetos é a TV DOC, um canal que divulga a produção de coletivos que desenvolvem um trabalho social e cultural no Capão Redondo. Esses jovens são capacitados pelo DOC Inclui, que já formou mil pessoas e ocorria como oficina itinerante, mas neste ano, tomou forma de um curso semestral. André também concentra seus esforços na PRODOC, o segundo projeto. É uma produtora criada com o objetivo de fornecer serviços audiovisuais acessíveis para a comunidade. "A câmera é uma arma, que tem o poder de destruir desigualdade, sofrimento e estereótipos que todas as periferias carregam", responde André quando questionado sobre o poder da informação.  

Com o apoio da organização não governamental Oxfam Brasil e da Liga Solidária, projeto da Prefeitura de São Paulo, três turmas de 15 jovens com idades entre 12 e 19 anos assistem aulas semanais sobre produção de conteúdo audiovisual, ministradas por André e por Rogério Gonzaga, 40, coordenador de projetos e professor de fotografia. Os jovens manuseiam câmeras, microfones, equipamentos de iluminação, tripés e computadores em dois espaços físicos: o Núcleo Assistencial de Desenvolvimento Integral (NADI), em Paraisópolis, e a Fábrica de Criatividade, localizada no distrito do Capão.

Os jovens que participaram da oficina de seis meses recebem um certificado, mas é praticamente impossível materializar a experiência de fazer parte do DOC INCLUI. "Nós, pretos, pobres e periféricos, temos que ocupar esses espaços, mas é algo mais profundo. A informação não é só a base da riqueza financeira, mas também a da riqueza intelectual”, explica André.

Para ele, a informação é capaz de tirar as pessoas da miséria financeira e intelectual. "O que me move é a vontade de chegar aonde ninguém chegou, ajudar quem nunca foi ajudado, construir o que ninguém construiu. Quero ser lembrado não pelo que fiz, mas sim pelo que ainda vou fazer."