22 de dezembro 2017

Uma voz contra a violência de gênero

Nana Queiroz
22 dezembro 2017

Uma voz contra a violência de gênero

Criadora da campanha #EuNãoMereçoSerEstuprada, Nana Queiroz acredita que o amor move toda militância feminista
Texto por: Debora Stevaux

Em março de 2014, uma mulher tirou a blusa em frente ao Congresso Nacional. Na imagem que rodou o país, ela está segurando os seios com o braço direito e um cartaz com o esquerdo, em que se lê a frase “Eu não mereço ser estuprada”. A campanha, criada por Nana Queiroz, 32 anos, teve mais de 40 mil adesões em um único evento criado no Facebook. A motivação? Uma pesquisa divulgada naquele ano, em que 65% dos brasileiros afirmaram concordar, total ou parcialmente, com a afirmação de que “mulheres que usam roupas que mostrem o corpo merecem ser atacadas sexualmente”.

O engajamento foi grande, quase proporcional ao tamanho do absurdo da afirmação. Famosas como a cantora Daniela Mercury postaram cliques usando a hashtag e segurando uma plaquinha com os mesmos dizeres em mãos. Em questão de minutos, as redes sociais estavam inundadas com protestos relacionados ao tema. A movimentação foi, inclusive, citada pela atual presidente na época, Dilma Rousseff, que se solidarizou com a causa em um discurso.

O episódio rendeu a Nana vários ataques virtuais e até mesmo ameaças de morte, mas isso não foi capaz de arrefecer o que a movimentava desde pequenininha: a luta pelos direitos das mulheres. Crescida em Pirituba, distrito da zona noroeste da cidade de São Paulo, a paulistana formada em jornalismo pela Universidade de São Paulo e especialista em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília acredita que o feminismo é o estado natural das coisas. “Sempre me senti igual aos meus cinco irmãos, em termos de dignidade, igual ao meu pai, igual à minha mãe, eu não sentia que havia ali uma hierarquia social, que determinadas coisas para mim eram proibidas ou permitidas. Nunca houve um momento de revelação em que eu falei: vou começar a me interessar por assuntos de gênero ou ser feminista”, conta.

Da infância feliz que teve ao lado dos cinco irmãos mais novos, Nana carregava consigo a admiração pelo pai, que segundo ela é um “”self-made-man”, que venceu na vida pelo próprio esforço. “Lembro do meu pai engraxate, quando era criancinha. Hoje ele é formado em engenharia e pós-graduado em vendas. Conseguiu aos poucos estudar. Ele tem muito orgulho de si mesmo e eu dele também”diz. A mãe é dona de casa. “Ela é formada em direito, mas precisou parar de trabalhar por causa de uma doença autoimune, parecida com a esclerose múltipla, que limita seus movimentos e provoca muita dor”, conta.

Como transformar a dor num catalisador de mudanças

Não foi dentro do lar acolhedor que Nana começou a perceber que as coisas para meninos e meninas são bem diferentes, desiguais, injustas. Conforme crescia, percebia que o mundo não encarava o ser mulher com tanta naturalidade quanto ela. “As meninas enfrentavam problemas diferentes que os meninos nem sequer pensavam, aí sim isso virou uma causa e uma luta”, explica.

A paulistana também se recorda de um abuso que sofreu na infância e de como o processo de identificá-lo e, mais precisamente, nomeá-lo foi fundamental para transformar toda a dor da violação em um fomento para a luta feminista. “Eu não queria admitir que uma pessoa que eu amava, que era querida, do meu círculo próximo, queria ter feito mal a mim”, justifica. “Então, eu fui feminista mesmo antes de entender esse ato como violência, só fui entender depois de muito tempo de estudo de feminismo. Quando você sobrevive a essas violências, você se sente mais forte e se sente motivada para que as pessoas não passem por essas mesmas dores que você passou”, pontua.

Hoje Nana se debruça em vários projetos relacionados à equidade de gênero. Entre eles estão a revista sem fins lucrativos “AzMina”, criada em 2015 por ela e um grupo de comunicadoras com o intuito de usar a informação como forma de combater os diversos tipos de violência que atingem mulheres brasileiras, abrangendo as diversidades de raça, classe e orientação sexual. A paulistana trabalha atualmente como media campaigner da Avaaz, uma rede para mobilização social global. “O que me fortalece para fazer o meu trabalho é sempre uma questão de amor, muito mais do que de dor, sabe? Eu me motivo pelo amor pelas mulheres, pela ideia de que as mulheres merecem uma vida mais digna”, diz.

Nana também explica que a militância feminista não pode ser apenas catalisada pela dor, porque pode ter um caráter destrutivo: “Tanto para você, quanto para as outras mulheres. “Por isso eu acredito que a dor pode ser só o início, a primeira chama, depois você tem que ser inspirada pelo amor e pelo que você quer construir, muito mais do que pelo que você quer destruir”, completa.

A jornalista também é autora do livro “Presos que menstruam”, lançado em 2015 pela Editora Record, que versa sobre a brutal e desumana realidade das mulheres tratadas como homens dentro das prisões brasileiras. “Eu me senti muitíssimo identificada com algumas das presas, era difícil para mim ler os processos e pensar que elas tinham feito aquelas coisas, passado por tudo aquilo. Eu quis investigar. Tem um personagem anão de “Game Of Thrones”que fala que ‘tem um cantinho aquecido no coração dele para minorias e coisinhas quebradas’, e eu sinto a mesma coisa”, compara.

Nana produz no momento um livro em parceria com  a travesti Luisa Marilac, 39, que ficou famosa após virar febre na internet com um vídeo e passou a militar em causas relacionadas à invisibilidade trans. “Ainda não temos data de lançamento, mas estamos mesclando passagens da vida de Luisa com a de outras travestis”, explica. A jornalista diz tentar mudar mentes e corações pelo poder da palavra. “Esta é a minha função social, a de servir de canal para outras pessoas comunicarem”, afirma.

Mudar o mundo

Nana se tornou nacionalmente conhecida como uma das vozes femininas que engrossam o coro contra a violência de gênero, o que rendeu sua aparição nos rankings de mulheres mais destacadas do ano de 2014 idealizados pelo Uol, Brasil Post e Think Olga, além de ter sido finalista do Troféu Mulher Imprensa 2016.

Com a fama, a jornalista recebe diariamente um número incontável de mensagens de mulheres pedindo socorro. “Tem gente que escreve: ‘Fui estuprada e não sei o que fazer’, ou ‘A filhinha do meu vizinho foi estuprada, não sei o que fazer’, e até ‘Eu preciso de um aborto, estou desesperada, o pai da criança me engravidou e desapareceu’, até mesmo ‘Estou sofrendo machismo no trabalho, com quem eu falo?’”, conta.

A jornalista explica que, no início, se sentia extremamente mal porque não conseguia responder a todas as mensagens. “Muitas dessas coisas e já vivi, mas eu não consigo responder nem à metade dessas mulheres. No começo, era muito angustiante não conseguir respondê-las, então eu entrava num espiral de tentar responder todo mundo e gastava horas do meu dia respondendo mensagem. Então, eu comecei a criar umas mensagens padrão para mandar para as pessoas. Aí eu pensava, não, mensagem padrão é justamente o que eu não quero fazer”, esclarece. Nana optou, então, por responder a poucas pessoas: “As outras vão receber essas respostas no meu trabalho, pelo jeito em que eu vou mudar o mundo.” Quando questionada sobre seu maior sonho, Nana não hesitou em responder: “Vou copiar Simone de Beauvoir, que nós tenhamos a liberdade de ser quem nós quisermos, de fazer o que quisermos. Porque ser mulher, hoje, no Brasil, é muito difícil. Quem não acredita em mim, pode acreditar nas estatísticas”, diz.