16 de outubro 2017

Uma preta rara

Pretarara
16 outubro 2017

Uma preta rara

Como a rapper e ativista transforma suas rimas e depoimentos em ferramentas para trazer visibilidade à mulher negra
Texto por: Camila Luz

A infância de Joyce Fernandes foi parecida com a de qualquer outra menina negra da periferia. Mas tem uma vida adulta um pouco diferente. Munida pelo poder das rimas, a ativista  dá  voz às mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades que ela. Hoje a cantora de rap atende pelo nome de Preta-Rara e milita contra o racismo, o machismo e a gordofobia.

Além de cantar, Joyce é dona de uma marca de roupas, turbanista, fundadora da página Eu, Empregada Doméstica e professora de história – função que não exerce há um ano por falta de tempo. Além disso, está prestes a estrear a websérie “Nossa Voz Ecoa”. O rapper Criolo é o primeiro convidado.

“No momento, além dos shows, oficinas e palestras, estou me dedicando ao lançamento da websérie que construímos este ano. Ganhamos um edital de cultura negra do Proac e estou realizando mais um sonho com a minha equipe”, conta.

Praticamente 99% dos personagens da websérie são negros. Cada um dos episódios está relacionado aos temas que Joyce aborda em seus projetos, como o racismo nas escolas e a situação das empregadas domésticas no Brasil. “São programas de entrevistas gravados na rua, em lugares que dialogam com a história do entrevistado”, explica.

Favelas de palafita e a televisão brasileira

A própria história de Joyce é pano de fundo para “Nossa Voz Ecoa”. Filha de pai carteiro e mãe empregada doméstica, nasceu em 1986 em Santos. Foi criada em um bairro periférico e violento onde existiam favelas de palafita. Os próprios moradores de classe média, que viviam na orla da cidade, não sabiam da existência dessas habitações. A rapper não chegou a morar nesse tipo de habitação, mas sim em um conjunto habitacional.  

Como sua mãe tinha medo de deixar as três filhas brincar na rua, a única opção que restava para as crianças era assistir à TV. “Quem me criou não foram meus pais, foi a TV brasileira. A gente ficava praticamente trancada em casa. Só saía para ir à escola”, relembra.

Na escola, Joyce sofria bullying dos colegas pela cor da pele e pelo peso. Era chamada de macaca, gorda e baleia. Os programas de TV também não ajudavam. As apresentadoras eram loiras e magras, enquanto só havia espaço para a mulher negra na função de empregada doméstica ou escrava.

Para que as filhas se inspirassem em modelos positivos, a mãe de Joyce botava um disco da Alcione para tocar. A mãe dizia: “A Alcione passou por isso também. Hoje ela é cantora e vocês também podem”.

Caneta e papel

As rimas surgiram naturalmente para Joyce como forma de expressar seus sentimentos e mágoas. “Aos 12 anos tive um contato muito forte com papel e caneta. Escrevia poesias, rimas. Meu pai pegou um desses papéis e falou que aquela escrita rimada era um rap. Ele me apresentou a outro universo”, conta.

Mas antes de investir na música, precisou trabalhar como empregada doméstica. Ainda adolescente enviou mais de 80 currículos para diferentes vagas, mas não foi chamada para nenhuma entrevista. Em uma palestra, descobriu que a falta de convites era por causa de sua foto. Como era preta, sofria preconceito antes mesmo de estar cara a cara com o entrevistador.

Então decidiu enviar currículos sem foto. Passou a ser chamada para entrevistas, mas não recebeu nenhuma oferta de emprego. Joyce procurava por vagas como recepcionista ou vendedora de loja. Diante de tantas negativas, a única opção que restou foi trabalhar como empregada em casa de família.

Trabalhou na profissão durante sete anos. O sonho de estudar história só aconteceu em 2009, quando ingressou na Unisantos. No ano seguinte, conseguiu estágio como historiadora em um museu e finalmente deixou a vida de faxinas para trás. Em 2011, passou a trabalhar como professora.

Durante esse período, aos 20 anos, começou a cantar profissionalmente com o grupo Tarja Preta. Se apresentava em festas do bairro e em eventos locais. A parceria durou até 2013, quando decidiu seguir carreira solo.

“Eu, Empregada Doméstica”

Em julho de 2016, Joyce estava em casa de férias, relaxando no sofá, e começou a relembrar tudo o que já havia conquistado na vida. Junto a isso, vieram algumas memórias de quando era empregada doméstica. Resolveu compartilhar em sua página no Facebook alguns relatos da época com a hashtag #EuEmpregadaDoméstica.

Seu primeiro relato foi referente ao último emprego como doméstica, em 2009:

"Joyce, você foi contratada para cozinhar para a minha família, e não para você. Por favor, traga marmita e um par de talheres e, se possível, coma antes de nós na mesa da cozinha; não é por nada, só para a gente manter a ordem da casa."

A patroa dizia que a empregada era como uma pessoa da família. No entanto, não podia usar os talheres e nem o banheiro da casa. Quando o banheiro para as faxineiras teve um problema, Joyce precisou passar nove horas sem fazer nenhuma necessidade fisiológica.

Em menos de 24 horas, os relatos de Joyce viralizaram e outras empregadas passaram a compartilhar suas experiências. Hoje, a página no Facebook tem mais de 150 mil seguidores. “Foi um divisor de águas na minha carreira. Não foi programado. Apenas resolvi expor minha realidade, não sabiam que tantas pessoas ainda passam por isso hoje”, declara.

A página trouxe visibilidade e voz para o trabalho da rapper. Em “Eu Empregada Doméstica”, divide o espaço com outras empregadas e mulheres negras que nunca são ouvidas.

A vida da rapper não foi a única transformada pelo projeto. Ela foi convidada pelo coletivo “Como uma Deusa” para ajudar na criação do Guia de Direitos das Domésticas, lançado na Baixada Santista e em Salvador (BA). “[A página] mexeu com as estruturas. O sindicato das domésticas, que já era ativo, ficou ainda mais poderoso. Mais pessoas tomaram conhecimento dos problemas e as domésticas ganharam mais visibilidade e força para correr atrás dos seus direitos”, diz.

Existir para resistir

Preta-rara não trabalha mais como professora de história, mas ministra oficinas de rima para seus alunos. Ela utiliza os conhecimentos da universidade para discutir assuntos sociais importantes e criar uma arte de resistência.

A rapper define sua obra como “existir para resistir”. Isso significa que é preciso ocupar o lugar de fala e ganhar visibilidade para criar resistência dentro da sociedade. “A todo momento querem nos apagar. Coloco todas as minhas opiniões na minha música, na minha fala e nas redes sociais. Quando posto uma foto de calcinha mostrando que minha barriga é grande e meu braço é gordo, estou abrindo espaço para a discussão”, afirma.

Joyce diz estar em um momento feliz, pois o que era abstrato se concretizou. Suas ideias estão se espalhando e hoje pensa até em trabalhar com cinema. No futuro próximo, seu maior objetivo é estabelecer mais canais de comunicação para tirar outras mulheres da mesma situação que vivia no passado. “Quero que as mulheres negras não precisem mais provar que são capazes e não quero que ninguém fale por nós. Quero que elas tenham a mesma visibilidade que qualquer outra mulher já tem”.