26 de dezembro 2017

“Uma mulher negra feliz é um ato revolucionário”

djamila
26 dezembro 2017

“Uma mulher negra feliz é um ato revolucionário”

Filósofa e ativista pelos direitos das mulheres negras, Djamila Ribeiro conta como o racismo é visto hoje no Brasil e como as mulheres negras vêm ganhando espaço nas discussões
Texto por: Debora Stevaux

O nome de Djamila Ribeiro, 37, foi buscado mais de 3.500 vezes no Google nos últimos 12 meses. E não à toa: filósofa e ativista representa uma das principais vozes pelos direitos das mulheres e da população negra no Brasil. Mestre em Filosofia Política pela renomada Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), faz parte dos 12,8% de jovens negros ou pardos que frequentaram uma faculdade, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2015.

Sua trajetória de luta começou ainda pequena: o pai era militante, um dos fundadores do Partido Comunista de Santos, e embora não fosse letrado, possuía uma biblioteca em casa. Culto, a batizou com um nome de origem africana. As tranças que a acompanham hoje começaram a surgir em seus cabelos quando ainda não sabia o significado de palavras como negritude e empoderamento.

Em maio de 2016, foi nomeada pelo prefeito Fernando Haddad secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania do município de São Paulo. É dela o prefácio da obra "Mulheres, Raça e Classe", escrito por Angela Davis, professora, filósofa norte-americana e membro do partido Panteras Negras, na década de 1970. Em novembro deste ano, lançou o livro "O que é Lugar de Fala?".

Djamila conta por que escolheu o termo "lugar de fala" para abordar em seu livro, sobre a necessidade da desconstrução de masculinidades tóxicas, racismo institucionalizado, o papel das pessoas brancas em situações de discriminação e por que ser mulher, negra e feliz é revolucionário.

Por que é importante que haja uma obra dedicada a estudar o “lugar de fala” do ponto de vista dos negros?
Eu acho que é possível a gente pensar o “lugar de fala” como um movimento, porque a gente está falando de como existe um regime de autorização discursiva que invisibiliza certas vozes, certas posições. Basta a gente estar em uma universidade e ver que a imensa bibliografia apresentada nos cursos é masculina, branca e europeia, o que o filósofo Jacques de Ridan chama de falologocentrismo. Então, o fato de nós não estarmos de maneira justa nas universidades, nos espaços de decisão, nos espaços de poder, por conta do racismo estrutural, faz com que as nossas produções também não estejam de maneira igual dentro desses espaços. Pensar o lugar de fala é pensar o lugar social, pensar que quem tem privilégio social acaba tendo privilégio epistêmico. E como é importante romper com essa norma, que caracteriza somente como legítima a presença dos homens brancos nessa sociedade. Romper com isso e com esse regime de autorização discursiva é importantíssimo para que, de fato, a gente consiga ter uma multiplicidade de vozes em vez de ter somente uma voz única - essa voz dominante, essa voz considerada legítima.


O que apontam as teóricas negras?
Eu parto das teóricas negras para realizar esse estudo, porque são mulheres que estão há muitos anos discutindo isso, sobre o quanto as nossas produções acabam sendo invisibilizadas, o quanto existem classificações sobre aquilo que nós, mulheres negras, produzimos, de maneira estereotipada, hierarquizada. Falo da importância de a gente falar a partir dos lugares onde está, sem medo de buscar outras definições para além desta colonizadora, para transcender o discurso colonizador, inclusive na hora de definir quem nós somos e na hora de definir os nossos discursos como discursos potentes, importantes, e não meramente um contra-discurso ou um discurso contra-hegemônico. As filósofas, pesquisadoras e sociólogas negras vêm produzindo um trabalho muito importante nesse sentido, de questionar quem pode falar numa sociedade tão desigual como a nossa, qual voz  é considerada legítima.

Você acredita que estamos vivendo hoje um levante dos movimentos sociais e, mais especificamente, no âmbito do feminismo?
Para mim é importante não perder a perspectiva histórica nunca. O nosso país teve mais de três séculos de escravidão, foi o último país do Hemisfério Ocidental a acabar com a escravidão, teve mais de 20 anos de ditadura militar, historicamente, a gente passou por muitos momentos sombrios. Eu acho que existem movimentos, os movimentos são históricos, as lutas são históricas, a gente é consequência de uma luta que começou há muito tempo. Acho importante não perder essa perspectiva de que, se hoje a gente consegue levantar mais as nossas vozes, é por conta de um caminho que já foi sedimentado. Como diz a Lélia Gonzalez, uma feminista negra intelectual brasileira, a gente não partilha só histórias de dores impostas pelo racismo, a gente também compartilha histórias de luta, compartilha um legado de luta também. E só é possível a gente estar aqui hoje por causa desse legado de luta.


A internet tem importância nisso?
Conseguimos fazer mais barulho por conta desse caminho que já foi sedimentado e acredito que também por conta das redes sociais. Nós entendemos que a internet, com todos os limites, porque nem todo mundo tem acesso à internet no Brasil, é um espaço em que podemos existir e que poderíamos fazer uma disputa de narrativa também. Entendendo que o ser feminista, que lutar pelo direito das mulheres e da população negra é um debate da democracia. A gente não pode falar que vive numa democracia quando a maior parte da população está apartada e segregada dos espaços de dignidade e de cidadania. Fazer essa luta é um debate para ampliar o conceito de humanidade, é um debate sobre o ser democrático.

Por que é necessário que as feministas se posicionem de modo a construir uma militância concreta em várias frentes?
Eu entendo que não tem como ser feminista sem ser anti-racista. Porque, se existem mulheres negras, a pauta racial deve ser, necessariamente, uma pauta feminista. Se existem mulheres lésbicas, a pauta da orientação sexual necessariamente tem que ser uma pauta feminista. Então, eu acho que é preciso pensar que não dá mais para hierarquizar vidas e ficar escolhendo quais sujeitos devem ser representados e quais sujeitos não. O que muitas vezes, historicamente, acaba enveredando para isso: um movimento de mulheres pautando a questão da mulher branca, o movimento dos negros pautando os homens negros e, se você é mulher e é negra, você acaba ficando de fora dessa categorização. É um projeto político muito mais amplo que meramente pensar só a questão da mulher em si, as lutas identitárias não são lutas que se encerram em si mesmas. É um debate para ampliar o conceito de humanidade, é um debate, sobretudo, democrático, de quanto esses grupos estão incluídos ou não para falarmos de democracia.

Por que a desconstrução das masculinidades tóxicas é fundamental para o movimento feminista?
A desconstrução das masculinidades tóxicas é extremamente importante porque são masculinidades forjadas na violência contra a mulher, na agressividade de a mulher não ser vista como um sujeito. É uma masculinidade que não permite a alteridade de enxergar a mulher como um sujeito. Isso faz com que ele pense que a mulher é propriedade dele e que tem de estar à disposição como um objeto. Então, o fato de o homem perceber de qual lugar ele parte, do lugar social dessa masculinidade e entender a necessidade de ele se desconstruir já é um grande ganho para a luta feminista. É a partir disso que ele vai entender que a mulher é um sujeito, que assédio é assédio, que se ele for pai e não estiver com a mãe, precisa pagar pensão, que se é pai precisa contribuir na criação do filho, que isso não é uma coisa da mulher, desnaturalizar esses lugares que foram postos, tanto para homens quanto para mulheres, é importantíssimo. Eu acho que as mulheres podem ajudar, mas também tem que partir dos homens, de se responsabilizarem por uma sociedade mais justa, se não a gente sempre fica nesse lugar do cuidado, esse lugar de quem deve tomar a atitude, desresponsabilizando os homens também pela construção de novas formas de sociabilidade. Eu acho que o debate das masculinidades é necessário quando o homem entende que existe uma hierarquia posta, quando ele entende que existem violências colocadas a partir do lugar que ele ocupa, já é um grande ganho para a luta feminista como um todo, a partir do momento em que ele vai se responsabilizar por uma sociedade mais justa. Então, se ele presencia uma situação em que um colega vai assediar uma mulher, ele tem que apontar que é assédio, se ele é professor, colocar na sua bibliografia referências bibliográficas de mulheres, se ele é empregador, contratar mulheres com salários iguais, enfim, entender como que essa masculinidade foi construída e como desconstruí-la nesse sentido.

De que forma o nosso racismo institucionalizado contribui para o genocídio da população negra no Brasil? Como lutar contra isso? Qual é o papel das pessoas brancas em questões tão sensíveis como essa?
É importante que as pessoas entendam o racismo como um sistema de opressão, e não como algo individual, porque muitas vezes as pessoas acabam vendo o racismo somente quando alguém é atacado ou quando uma pessoa faz algum tipo de comentário ofensivo. Esse racismo institucionalizado, estrutural e estruturante da sociedade brasileira faz com que as pessoas negras nem sequer sejam colocadas como sujeitos, que não sejam vistas como humanas. Então, existe uma destituição de humanidade desse grupo. Eu acho que as pessoas brancas podem dar o primeiro passo, que é pensar e refletir sobre qual lugar social de onde elas partem e entender que é necessário discutir racismo pelo viés da branquitude, de entender como a estrutura colonial colocou o grupo branco no lugar do privilégio. A partir do momento que você entende isso, já desnaturaliza essas violências e esses lugares, já é um grande ganho.  Como um segundo passo, usar o exemplo que eu dei sobre a mulher. Se é empregador, empregar pessoas negras, se você faz isso no seu dia a dia, no seu ambiente de trabalho, se na redação que você dirige tem jornalistas negros, de começar a se questionar e se incomodar com essa naturalização de lugares. Porque, na maioria das vezes somos nós, as pessoas negras, que nos incomodamos com isso e as pessoas brancas nem sequer se questionam ou veem como um problema elas estarem em espaços majoritariamente brancos e nem sequer se questionam por que isso ocorre num país de maioria negra.  


O seu status no WhatsApp parafraseia uma frase da Juliana ­Borges, que “Uma mulher negra feliz é um ato revolucionário”. O que a faz feliz, hoje? E o que a move?
O que me faz feliz hoje é conseguir fazer o que eu faço, trabalhar, porque eu entendo o quanto isso, ainda mais para uma mulher negra, ainda é uma exceção. A minha luta é para que isso não seja mais exceção, mas o que me faz feliz hoje é viver do que eu trabalho, conseguir passar um discurso, ser coerente com aquilo que eu acredito, entendendo que eu também sou um ser humano, entendendo também essa minha insignificância perante o mundo.    Porque tem toda uma construção violenta em cima das mulheres negras, que elas têm que ser fortes, aguentar tudo, enquanto que isso é só mais uma forma de desumanização. Então, eu quero poder ser humana, poder ser frágil, poder pedir ajuda. E eu estou numa fase da minha vida em que eu posso fazer isso, porque por muito tempo foi muito difícil para mim, mas hoje eu consigo fazer. Então, me faz feliz eu perceber a minha fragilidade, perceber a minha finitude e a minha insignificância sem problema nenhum. Aceitar essas questões como questões próprias do humano.