19 de janeiro 2018

Um sonho haitiano e brasileiro

perolas-negras-foto
19 janeiro 2018

Um sonho haitiano e brasileiro

Há dois anos no Brasil, Pérolas Negras, equipe de futebol com haitianos se profissionaliza, conquista títulos e sonha em se tornar time mundial dos refugiados.
Texto por: Pedro Katchborian

Foi em um domingo de novembro que rostos acostumados a sorrir tiveram ainda mais motivos para alegria. Mais especificamente no último dia 19 de novembro de 2017, o time Pérolas Negras, constituído por refugiados haitianos, ganhou o título da série C do Campeonato Carioca. O empate sem gols com o Campos foi suficiente, já que a equipe havia batido o adversário por 3 a 0 uma semana antes. Uma conquista longe dos holofotes, é verdade, mas que coroou um projeto que vem transformando a vida de jovens desde 2004.

A iniciativa começou em Porto Príncipe, no Haiti, em 2004. Mantido pela ONG Viva Rio, o início foi amador. O projeto era somente focado no entretenimento e passou a se tornar mais sério a partir de 2008, quando o time dos Pérolas Negras foi criado com intenção de profissionalizar atletas. No meio da caminhada, uma tragédia mudou o rumo da equipe: no dia 12 de janeiro de 2010, o Haiti foi atingido por um terremoto que fez mais de 300 mil vítimas. Adiado, o projeto foi inaugurado em 2011 com a ajuda do empresário George Soros.

Os Pérolas Negras se mantiveram no Haiti até dezembro de 2015, quando os atletas vieram ao Brasil para a disputa da Copa São Paulo de Futebol Júnior, principal torneio de base do Brasil. Apesar das derrotas na competição, a equipe ganhou os holofotes, desembarcou de vez por aqui e não saiu mais. Dois anos depois, o saldo é positivo. Além de acolher refugiados haitianos através do esporte, o projeto foca na educação dos atletas.

Paula Mello é a educadora e responsável por pensar no planejamento dos atletas além das quatro linhas. "Nosso conceito de sucesso é o sucesso como cidadão. Queremos que eles deem retorno para a sociedade. Ultrapassa a questão do sucesso no futebol", afirma.

Todos os atletas estudam em Paty do Alferes, no Rio de Janeiro, onde foi construído um Centro de Treinamento. "Trabalhamos com um leque de opções e horizontes diferentes, considerando o sucesso ou não do atleta como profissional", explica Paula. São dois treinos diários e quatro horas de aula. O currículo é a grade regular de ensino, mas também existem optativas. "A educação é a o pilar fundamental. Trabalhamos primeiro a formação básica obrigatória e depois várias opções profissionalizantes", completa. Paula destaca que todos os atletas, tanto os haitianos quanto os brasileiros, foram aprovados na escola formal em 2017.

"Existe uma necessidade de aumentar o espaço de aprendizado na área do desenvolvimento de outras competências", diz. O exemplo foi uma oficina de produção e tratamento de imagem digital realizada neste ano. "Temos 2 ou 3 atletas brasileiros e haitianos que estão se aprimorando na área. Estão buscando uma nova forma de se divulgar e se enxergar", afirma. Além disso, em parceria com a Universidade Veiga de Almeida, ampliou-se a possibilidade dos cursos de extensão.

2017: títulos e equipe mundial dos refugiados

Este ano foi importante para os Pérolas Negras pela formalização da equipe na federação carioca (FERJ), que logo veio com a conquista da taça da série C do campeonato estadual. Nesse período, os atletas haitianos ganharam a companhia de vários brasileiros. "Só o fato de termos uma quantidade grande de brasileiros, já que promovemos uma interação entre os atletas", explica.

Atualmente, há duas frentes de trabalho: no Brasil e no Haiti. Por aqui, a iniciativa é mais profissionalizante, enquanto no país caribenho a iniciativa tem um cunho mais social. Garotos que se destacam jogando no Haiti podem ser trazidos ao Brasil.

Com vários objetivos alcançados tanto no campo da educação quanto do esporte, os Pérolas Negras querem alçar voos mais altos. Em dezembro de 2017, foi recebido o primeiro refugiado de outro país - Juan, um venezuelano que será integrado à equipe. A chegada de Juan representa o início da concretização dos Pérolas Negras como time mundial dos refugiados.

A ideia é que o trabalho feito com os atletas haitianos aconteça com mais atletas e em outros países -- o foco agora é na Jordânia. “Estamos ampliando o projeto para a Jordânia em moldes semelhantes ao Haiti. Com escolinha, esporte e educação em campos de refugiados”, conta Paula. “Em todos os lugares é levado em conta o contexto socioeconômico e o talento específico do atleta a ser integrado ao Pérolas Negras no Brasil para inserção no mercado de futebol”, conta.

Constantemente descrito pela educadora como “alegres”, os haitianos se assemelham aos brasileiros quando o assunto é integração -- o que é essencial para a inclusão de outros refugiados. "Eles entendem e consideram que a entrada de qualquer outra cultura é muito positiva. Todos os participantes do projeto, brasileiros ou haitianos, entendem que a junção é benéfica para todo mundo", completa.