26 de dezembro 2017

Reflexo no espelho: deficiência e autoestima

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26 dezembro 2017

Reflexo no espelho: deficiência e autoestima

Como comentários preconceituosos e olhares indiscretos podem minar a autoconfiança das mulheres
Texto por: Debora Stevaux

Quantas vezes você já se olhou no espelho e viu algo que não gostou? Podem ser marcas pequenas, cicatrizes, espinhas, lábios finos ou muito grossos, pelos, seios muito fartos ou pequenos, pernas finas ou grossas, gordurinhas aqui e acolá, cabelos lisos demais ou muito encaracolados?

Relatório global divulgado em 2016 sobre autoconfiança feminina pela Dove, que reuniu mais de 10 mil mulheres e garotas de 13 países de todo o mundo, revelou que a confiança que temos sobre a nossa própria aparência não vai bem: 9 em cada 10 mulheres desistem de compromissos importantes por se sentirem inseguras; 71% das entrevistadas brasileiras confessaram se sentir pressionadas a nunca demonstrarem fraquezas ou cometerem erros.

Agora imagine se essa pesquisa considerasse apenas as mulheres que têm deficiência – segundo o último censo, existem 45 milhões de brasileiros com deficiência, o que representa 24% de todo o contingente populacional.  

Para iniciar uma discussão que está longe de se limitar somente a percepções individuais ou a uma resposta exata, reunimos histórias de três mulheres deficientes que em determinado momento da vida precisaram se reinventar para enxergar a própria beleza.

“Quando percebi que tinha perdido o braço direito, minha primeira reação foi beijar a mão esquerda”

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Kareemi, 37 anos, sofreu um acidente de carro na virada de 2011 para 2012, que a deixou uma semana em coma. Além de perder o braço direito, a batida fez com que a então jornalista também sofresse politraumatismo no tórax, tivesse o pulmão perfurado e um escalpelamento — quando o couro cabeludo se desprende do crânio. Kareemi também precisou colocar pinos de titânio na sexta e na sétima vértebras da coluna.

“Quando consegui ficar de pé na frente do espelho, ainda no hospital, tomei um susto, porque estava muito magra e careca. Foi então que me vi sem braço. A primeira coisa que pensei foi: ‘Nossa, como estou esquisita’. Mas não foi um drama, não foi um peso."

Ela lembra, sorridente, que uma das coisas que mais a assustou foi o tamanho dos fios da sua sobrancelha. “Minha primeira reação foi ligar para a minha prima perguntando se ela poderia trazer uma pinça e tirar o excesso de pelos, mesmo no hospital”, brinca.

Após 11 dias em observação — o tempo previsto era um mês — a paciente teve alta. “Uma das primeiras coisas que fiz foram as unhas da mão que tinha ficado. Tinha uma consciência de que estava estranha e que iria me acostumar, porque a vida continua, as cicatrizes do rosto melhoram. Foquei em continuar a viver com leveza e não me apegar às questões do passado", lembra.

A autoaceitação rápida de Kareemi tem uma explicação: ela conviveu boa parte da sua vida com a prima Dariene Rodrigues, uma fisioterapeuta ativista que sempre levava pessoas com deficiência para fazer o tratamento em sua casa. Dariene também criou o jornal Inclusão Brasil, que conforme o próprio nome sugere, é uma publicação de alcance nacional que se dedica a abordar o tema de forma contundente e realista. “Convivi com muitos paraplégicos, tetraplégicos, pessoas amputadas na minha casa. Inclusive, quando era jornalista, tinha uma coluna nesse jornal sobre desenvolvimento humano. Então, desde sempre, eu sabia que nós somos capazes de viver de outras formas e não necessariamente como nós nascemos."

Cinco anos após o acidente, a jovem de Sorocaba reconhece que sua jornada inspira outras mulheres que passaram por situações semelhantes. Hoje palestrante motivacional, Kareemi tem uma filhinha fruto de seu relacionamento com Emilio Acuña, Gaia, que nasceu em 2015 após um parto humanizado. Ela apoia sua metodologia em “três a’s”, a autoestima, autoconfiança e o amor próprio. Com a mão esquerda, faz absolutamente tudo, inclusive escreve um livro sobre autoestima que será lançado em 2018. Cozinha, cuida da bebê e leva a vida com muita leveza. Sobre o preconceito, dispara: “Nunca sofri porque a minha autoaceitação é muito gritante. Chamo atenção das pessoas por não ter um braço, mas isso não abre espaço para que as pessoas tenham algum preconceito ou até pena de mim.”

https://www.youtube.com/watch?time_continue=5&v=v8Md6aJbMLc

“Sempre sonhei em usar salto”
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A frase é de Veri Helfstein, 23 anos, estagiária de relações públicas na Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED) e criadora do blog Casal Adaptado, que se dedica a registrar o dia a dia da paulistana e de seu noivo, o empresário Felipe Gallo, 28 anos.

A paulistana integra o imenso contingente de 40 bebês prematuros nascidos por hora em todo o território nacional, de acordo com dados divulgados pelo Sistema de Informações Sobre Nascidos Vivos (Sinasc), do Ministério da Saúde. Veridiana nasceu de 6 meses e meio, por causas não esclarecidas, e a falta de oxigenação durante o parto lhe causou paralisia cerebral. A doença, conhecida por afetar a locomoção, comprometeu seus membros inferiores e a faz andar com dificuldade. “Percebi minha deficiência já na infância, quando não conseguia andar como as outras crianças ou praticar determinados esportes na aula de educação física."

Como a deficiência não é tão visível quando está parada – sentada ou em pé – ela acabou por criar um bloqueio. "Ficava o maior tempo possível sentada. Como me comunico bem, sempre quis que as pessoas se encantassem comigo pela minha capacidade de me relacionar, conversar, e dominar qualquer ambiente. Não queria que reparassem que eu andava diferente. Se alguém percebia, eu ficava sem graça, aquilo me ‘encolhia”, confessa.

Veridiana atribui a construção da sua autoestima ao apoio das amigas e da família. "Quando percebiam que ela estava triste ou chateada com alguma coisa relacionada à minha aparência, elas vinham para me maquiar, me arrumar, e era muito divertido."

O sonho de usar salto alto ela realizou só depois de adulta. “Sempre sonhei em usar salto, acho lindo o barulho que faz no chão. Consegui materializar esse sonho depois de adulta, quando encontrei dois sapatos de salto que consigo me locomover. Isso aumentou muito minha auto confiança como mulher”, conta.

Questionada sobre qual conselho daria para as mulheres que se sentem ou já se sentiram como ela, a paulistana é enfática: desvendem aquilo que mais gostam em si mesmas. “Se você adora seu sorriso, sorria mais, faça coisas que provoquem o seu sorriso. O mundo é cheio de padrões, e infelizmente, só iremos combatê-los à medida que encontrarmos o que nos faz única."

“Tudo o que sofri quando criança foi capaz de me tornar uma pessoa melhor”

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Beatriz Bebiano, 21 anos, estudante de gestão em saúde ambiental, diz que a paraplegia espástica familiar tipo 4 é sua melhor amiga. “Ela me acompanha desde que cheguei nesse mundão. Nós duas já enfrentamos coisas bem complicadas, das mais discretas às mais gritantes. Olhares, cochichos e comentários bem infelizes: ‘Coitada dela, né? Deve ser tão difícil’, ‘Filho, não chega perto, essa gente não merece’, ‘Nossa, você deve ser um peso morto para a sua família’”, enumera

A doença congênita rara e progressiva, diagnosticada erroneamente por anos como paralisia cerebral, também acometeu sua irmã, Helena Bebiano, 31 anos. Aos 4 anos de idade, por uma oferta de trabalho oferecida ao pai, Beatriz, a mãe, a irmã e o irmão desembarcaram no México. “Lá eu passei por muitas dificuldades. Sei que as pessoas não são naturalmente preconceituosas, mas isso entra muito facilmente na cabeça delas, principalmente das crianças. Me lembro de uma infância muito solitária, de ter sofrido muito bullying, mas tudo isso fez com que eu me tornasse uma pessoa boa, empática. Hoje tenho atitudes que queriam que tivessem tido comigo antigamente”, diz

Sorrir foi a forma que encontrou para lidar com os comentários e atitudes que minaram sua autoestima por tantos anos. “Nenhuma palavra, apenas um sorriso. Minha família, que sempre foi meu alicerce principal me ensinou a oferecer a outra face quando me ofendem. Eles também me ensinaram a entregar meus braços, ombros e até minhas pernas se alguém me pedir ajuda."

Mas a vida continua muito dura. Olhar-se no espelho e gostar do que vê ainda é uma das coisas mais difíceis no dia a dia da estudante natural de São Bernardo do Campo. “Tenho histórico de compulsão alimentar, anorexia e bulimia para comprovar que não medimos esforço para alcançar o padrão de beleza imposto socialmente."

Beatriz caminha com a ajuda de um andador e opta pela cadeira de rodas quando está em lugares muito grandes, como shoppings. Para as meninas que, assim como ela, enfrentam a deficiência, ela aconselha: “Você não tem obrigação nenhuma de ser totalmente feliz sozinha, mas precisa estar próxima disso para que, quando aquela pessoa especial aparecer, os melhores sentimentos e sensações transbordem do seu corpo. Amor, respeito, companheirismo, tesão, desejo e um montão de outras coisas deliciosas espalhadas por onde você desfila, seja em cima de um par de pés, próteses, órteses ou roda”, finaliza.