20 de março 2018

Um novo feminino sob a tecnologia

ada.vc
20 março 2018

Um novo feminino sob a tecnologia

Como descobri que minha condição de mulher poderia ser um diferencial de mercado
Texto por: Emily Nunes

Me descobri míope com 9 anos, quando era bonito usar óculos e aparelho ao mesmo tempo. Nunca usei aparelho, mas passei anos brigando com os óculos. Nunca gostei e muito cedo migrei para as lentes de contato, com as quais fiz barbaridades durante anos.

Aos 30, consegui operar a miopia e minha forma de olhar o mundo mudou. Meu grau era alto e por isso viver sem óculos ou lentes de contato era impossível. Ao acordar, eu não podia dizer se a pessoa do meu lado estava dormindo ou acordada, porque só via os contornos de seu rosto. No dia em que acordei depois da operação, quase chorei de emoção de estar vendo a expressão de quem por anos dormiu ao meu lado. Quando você adota um novo olhar, ele não precisa ser consequência de uma cirurgia corretiva como nesse exemplo, mas ele nunca mais volta a ser o mesmo, ainda que digam que depois dos 40 a miopia volte a dar alguns sinais.

É assim que vejo também o olhar feminista. E aqui vamos para outro caso verídico. Em 2017, estive em Nova York, nos Estados Unidos, para cobrir o lançamento do Galaxy S8 à convite da Samsung. Escrevia para um blog pequeno porém honrado de tecnologia -- o Manual do Usuário -- que tem também um podcast -- o Guia Prático, do qual ainda faço parte.

Resolvi aproveitar a oportunidade e encontrar uma amiga que mora na cidade. Meu plano era não apenas matar a saudade, mas convidá-la para trazer o seu blog de tecnologia -- o Ada.vc -- para perto do blog que eu então assinava. Conversa vai, conversa vem, ela largou a frase que viria a mudar o meu olhar e também minha vida. Numa provocação Pelé ou Maradona, ela disse: "mas quem é maior, o Manual ou Ada?" Aquilo ficou martelando na minha cabeça. Tanto que poucos meses depois, quando ela esteve em São Paulo, me convidei para ser sócia dela e de outra amiga no Ada.vc.

Mas por que o Ada.vc? E aqui vão outros fatos que importam para essa história. Eu cubro a área de tecnologia há dez anos. Comecei em Porto Alegre (RS), no Terra, e continuei em São Paulo (SP), onde as coisas nesse setor realmente acontecem. Durante anos, fui uma das únicas jornalistas mulher a cobrir a área -- dá para contar nos dedos das mãos as colegas --, mas nunca tinha me dado conta dessa peculiaridade, menos ainda que era reflexo da ausência das mulheres na área. E, mais do que isso, que a cobertura de tecnologia também era muito masculina, com textos falando de especificações como se todos nós fossemos especialistas e com pouco, ou nenhum, olhar humano sob o uso que fazemos da tecnologia.

E foi com esse novo olhar que eu não apenas me convidei para ser parte do Ada.vc, como lançamos novamente o site com essa premissa de ter um olhar feminino sobre tecnologia, internet e cultura digital, agora ainda mais convictas de que esse olhar feminino faz falta e, mais do que isso, eu, Natasha Madov e Diana Assennato podemos contribuir para que a igualdade de gênero chegue também no entendimento de alguns assuntos que as pessoas dizem que é mais de homem do que de mulher, mas que não acredito que seja verdade. É uma questão de olhar.