30 de outubro 2017

Turismo de empatia

Turismo de empatia (1)
30 outubro 2017

Turismo de empatia

Jornalista conta em livro como planejar uma viagem para conhecer a fundo quem vive em uma realidade diferente
Texto por: Camila Luz

Quem viaja para outro país geralmente está interessado em conhecer os pontos turísticos, comer em bons restaurantes e fazer passeios diferentes dos habituais. Mas há mais uma forma de desfrutar de outra cultura: o turismo de empatia, que se preocupa com os habitantes, e não com o destino em si.

Segundo a jornalista Talita Ribeiro, autora do livro “Refugiados no Oriente Médio”, turismo de empatia é “viajar para conhecer o mundo pelos olhos de outra pessoa”. O viajante escuta mais do que fala, com o objetivo de conhecer a realidade das pessoas que vivem no local, seus sonhos, medos e histórias.

Em 2015, Talita viajou pela Jordânia, Iraque e Turquia durante um mês. Seu principal interesse foi ouvir histórias de mulheres que vivem em uma cultura tão diferente da nossa, mesclada com experiências de guerra. No dia 5 de novembro, a jornalista embarcou para Doha, capital do Catar. Em seguida, passou por Amã (Jordânia), Istambul (Turquia) e Arbil (Iraque).

Talita passou por países onde os habitantes falam árabe, turco e curdo (idioma falado pelo povo que habita a região geocultural do Curdistão, alocada em países como Irã, Iraque, Síria e Turquia). Mas conta que se virou bem no inglês e nos sorrisos. Praticar o turismo de empatia não significa fazer uma série de entrevistas com os moradores locais, e sim ter humildade suficiente para viver a cultura e se colocar no lugar do outro. Isso significa se hospedar em suas casas, provar a comida caseira e ouvir com atenção o que têm a dizer.

Em “Refugiados no Oriente Médio”, Talita conta suas experiências, ilustradas por fotos e artes gráficas que representam suas impressões. A autora também elaborou um pequeno manual para quem deseja praticar o turismo de empatia. Veja as principais orientações.

1. Descubra sua motivação

Para fazer uma viagem como essa, você precisa ter curiosidade sobre algo e levantar um questionamento. Pergunte a si mesmo:

  • O que o move?
  • O que o tira da sua zona de conforto?
  • O que o faz querer ser um bom ouvinte?

2. Busque informações

Primeiro, busque informações em todas as fontes possíveis. Não importa se você quer saber mais sobre refugiados no Oriente Médio, tribos africanas ou esquimós no Alasca: pesquise em blogs, leia notícias, veja depoimentos de quem já viajou e também procure por livros mais aprofundados sobre o assunto.

Em seguida, identifique as pessoas que podem te guiar na sua jornada. Procure por diferentes instituições, especialistas e grupos sociais que podem ajudar a entender melhor o tema no qual deseja se aprofundar.

Conversar com pessoas que já viveram no local é muito importante – principalmente se você for viajar sozinho. Elas poderão lhe dar uma visão mais clara de como as coisas funcionam por ali. Antes de viajar para uma região que adota outra cultura, é preciso conhecer detalhes como língua, costumes, leis etc.. No Qatar, por exemplo, Talita precisava se lembrar de nunca encarar os homens diretamente nos olhos e de pegar tudo sempre com a mão direita ou com as duas mãos.

3. Defina detalhes práticos da viagem

Ter um roteiro bem definido ajuda a se preparar e a lidar melhor com imprevistos, principalmente se você vai para um lugar muito diferente e perigoso. Não é preciso ter uma programação diária, mas o ideal é definir os meios de transporte, quantos dias vai ficar em cada lugar e onde vai se hospedar.

Faça um planejamento financeiro antes de comprar as passagens de avião. Primeiro, descubra o preço do seu sonho. Se for possível, trace um plano seguro para juntar todo o dinheiro em tempo suficiente. Se estiver fora do seu alcance, procure por opções mais baratas de hospedagem ou transporte ou reduza o tempo de viagem. Há sites que ajudam nessa tarefa, como o Quanto Custa Viajar e o Voopter, ótimo para encontrar passagens baratas.

Além disso, veja a previsão do tempo. Na Ásia, por exemplo, o período de monções pode ser menos indicado, pois o calor é intenso e chove muito. Na Escandinávia, o inverno é rigoroso e os dias duram muito pouco, quase sem luz diária.

4. Converse com seus familiares e amigos

Não é todo mundo que entende e aprova o turismo de empatia. Amigos e familiares poderão ficar preocupados e desencorajar sua viagem. Esteja aberto para ouvir sugestões e críticas, o que é uma ótima forma de aprender a ouvir e treinar sua empatia. Explique seus motivos e peça apoio.

Em viagens de risco, é importante que seus familiares e amigos mais próximos estejam por dentro do seu roteiro e tenham um canal de comunicação com você. Tem internet móvel no local que você vai visitar? O serviço de internet está disponível? É possível usar as redes sociais? Cheque tudo isso.

5. Faça turismo colaborativo

O turismo colaborativo é a melhor forma de mergulhar na cultura do outro e economizar dinheiro. Em vez de se hospedar em um hotel ou hostel, fique acomodado na casa de um dos moradores da cidade. É possível fazer isso de forma segura por meio de plataformas como Airbnb e Couchsurfing.

6. Desenvolva as habilidades necessárias

A primeira barreira que você irá enfrentar ao praticar o turismo de empatia é a da língua. O ideal é que fale inglês o suficiente para se virar, mas aprender expressões idiomáticas importantes do país também é fundamental.

Antes de definir o roteiro de sua viagem, veja se você tem habilidades para cozinhar algo básico e se está com bom condicionamento físico, caso precise fazer uma trilha, escalar uma montanha ou caminhar por horas.

Para se preparar, Talita fez um curso de intensivo de inglês e aulas de Krav Mega, a autodefesa israelense. Quanto antes você identificar o que precisa melhorar, mais tempo terá para se preparar.

7. Prepare o seu espírito

O turismo de empatia envolve uma série de riscos físicos, para os quais você deve ter planos de fuga. Se o espaço aéreo for fechado, por exemplo, quais são as rotas por terra para deixar o país? Com sorte, nada de preocupante irá acontecer. Mas quem viaja para uma região e risco – o que pode ou não ser o caso de quem pratica turismo de empatia – deve estar preparado tanto de forma prática quanto emocional.

Encare o lado obscuro das questões que deseja entender melhor e esteja pronto para expandir seus horizontes. Para Talita, os principais riscos do turismo de empatia são mais subjetivos do que imaginamos: se envolver com o outro, se importar com o outro, não ser mais a mesma pessoa, deixar seu coração em um local de difícil acesso, viver sentimentos que você não consegue controlar e querer fazer algo para mudar o mundo.

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