09 de outubro 2017

Transformação de masculinidades

Transformacao de masculinidades
09 outubro 2017

Transformação de masculinidades

Conheça a ONG Promundo, que faz pesquisas e projetos para trabalhar questões de gênero com crianças e jovens pelo fim da violência
Texto por: Camila Luz

Desde 1997, o Promundo acredita que a transformação de masculinidades é uma forma de promover a igualdade de gênero e prevenir a violência. Presente em mais de 50 países, a organização faz uma série de pesquisas e projetos com homens e mulheres para questionar padrões de comportamento e tornar a sociedade mais justa.
A história do Promundo começa com uma pesquisa sobre crianças órfãs de pais que tinham HIV. Segundo a coordenadora de projetos da instituição, Linda Cerdeira, esse levantamento deu origem às primeiras informações sobre padrões de comportamento associados a determinados papéis de gênero. Em 2002, a ONG criou sua primeira metodologia, o Programa H.
“A metodologia foi desenvolvida para trabalhar com homens jovens (de 15 a 24 anos), questionando papéis de gênero tradicionais, assim como a violência associada a eles. Sugeria-se uma nova abordagem das masculinidades”, explica.
Hoje, o Programa H está adaptado para mais de 20 países, incluindo o Brasil, e é reconhecido por instituições como o Banco Mundial e a Organização das Nações Unidas. O manual do projeto compreende mais de 70 atividades que podem ser aplicadas de acordo com a necessidade da comunidade.
Dentro do Promundo, existem duas áreas que se complementam: pesquisa e programas. Primeiro, a instituição desenvolve uma pesquisa para colher informações e entender o contexto de cada lugar. Depois, cria um programa piloto para atender as necessidades identificadas. Ao mesmo tempo, a pesquisa acompanha a implementação do projeto para avaliar o impacto e adaptar o que for necessário.
Em escolas no Rio de Janeiro (RJ) e no Congo, por exemplo, o Promundo está aplicando o projeto “Jovens pelo fim da violência”. A organização fez uma parceria com a Secretaria Municipal da Educação do Rio para promover atividades de educação em grupo, além de terapia individual e coletiva com meninos e meninas para estimular mudanças de atitude.

Violência contra a mulher

Infelizmente, a violência contra a mulher é um comportamento que está enraizado na sociedade. Segundo Linda, meninos que presenciam o pai agredir ou violentar a mãe têm propensão a fazer o mesmo com outras mulheres na vida adulta.
“Isso é um fato. As pesquisas do Promundo e de outras instituições estão sendo bem claras nesse ponto. Ensinar o respeito pela mulher e pelas meninas desde cedo é fundamental”, afirma. “Infelizmente, certos comportamentos vão se naturalizando no nosso cotidiano. Precisamos mostrar que isso não é normal e que há outros caminhos possíveis. A gente tenta questionar muito essa transmissão intergeracional”, completa.
Para a coordenadora, há uma série de fatores históricos relacionados à violência de gênero. O homem sempre foi considerado forte e dominador, enquanto a mulher foi considerada a parte fraca da relação.
“Eu acho que a natureza feminina e o poder da mulher assustam e sempre intimidamos homens. Então, as sociedades foram se desenvolvendo por um caminho muito machista. Claro que há comunidades que são exceções, mas a maioria das contemporâneas colocam a mulher em um canto de inferioridade, castrando suas possibilidades”, afirma.
Para criar uma sociedade igualitária, é preciso começar cedo, ensinando meninos a respeitar o sexo feminino e a assumir tarefas domésticas. A questão do cuidado é muito importante para o Promundo. A organização acredita que os homens precisam aprender a cuidar melhor de si e a zelar pelo próximo.
O Programa P é outro projeto desenvolvido pela organização a favor da equidade de gênero e do fim da violência. O “P” vem da palavra “Pai”. O objetivo é construir uma nova forma de paternidade e cuidados, para que o homem esteja presente em todos os momentos: gestação, parto e durante toda a vida do filho.
“Isso tem uma relação direta com a redução dos níveis de violência”, revela Linda. “A gente sabe, por experiência, que a mobilização dos homens é difícil. É complicado conseguir que eles se sentem em grupo para conversar sobre suas emoções e dificuldades. Mas, quando a gente consegue, eles próprios reconhecem o quão transformador isso pode ser. Eles se tornam melhores pais, profissionais e parceiros. Isso tem sido uma constante em nossos projetos”, declara.

Particularidades do Brasil

Segundo Linda, o Brasil tem duas particularidades observadas pelo Promundo que merecem atenção especial. A primeira é a violência urbana, presente principalmente em cidades como o Rio de Janeiro. Ela envolve sobretudo meninos pobres que participam de redes de tráfico. “A forma como eles são levados para isso está relacionado a suas oportunidades de vida”, diz. “Basta olhar para os dados de homicídios e violência praticada pela polícia. Toda essa situação está diretamente relacionada com papéis de gênero e com a perspectiva de oportunidades”, diz.
Por fim, Linda conta que o Promundo também está olhando para outro problema crônico no Brasil: o casamento infantil. Ele acontece principalmente no interior dos estados, mas também é uma realidade dos centros urbanos. As principais vítimas são as meninas, mas o problema é ignorado pela sociedade e pelo governo.