02 de janeiro 2018

Trabalho Voluntário

Trabalho Voluntário
02 janeiro 2018

Trabalho Voluntário

O brasileiro faz menos trabalho voluntário do que a média mundial, mas organizações desejam mudar esse cenário.
Texto por: Camila Luz

Nos Estados Unidos e em países da Europa, uma parcela considerável dos cidadãos tem o costume de prestar trabalho voluntário desde o colégio. No Brasil, a realidade é outra.

Em uma pesquisa feita pelo Instituto Datafolha, apenas 28% dos brasileiros declararam já terem feito trabalho voluntário. Isso significa que estamos abaixo da média mundial, que é de 39%. Myanmar, Estados Unidos, Nova Zelândia, Canadá, Austrália, Reino Unido, Holanda e Irlanda estão entre os países mais generosos do mundo, de acordo com o World Giving Index.

Para Débora Pires, coordenadora de mobilização de recursos da ONG Parceiros Voluntários, a maioria dos brasileiros não faz trabalho voluntário pois não conhece as opções e não sabe por onde começar. “O slogan da Parceiros é bem emblemático: ‘Você quer ajudar? A gente sabe como’. As pessoas não sabem como se engajar em uma causa ou campanha”, opina.

A cultura do voluntariado

Nos Estados Unidos, as crianças aprendem na escola a se dedicar ao voluntariado. No Brasil, apenas alguns colégios de classe média alta das grandes cidades incentivam os alunos a acompanhar projetos voluntários, como explica a advogada Bruna Sillos: “Muitos jovens conhecem ONGs por meio dos colégios onde estudam e passam a acompanhar os trabalhos. O TETO, por exemplo, tem uma inserção grande nas escolas que adotam responsabilidade social”.

O TETO é a famosa organização presente na América Latina e no Caribe que se propõe a construir moradia de emergência para integrantes de comunidades e favelas. Bruna trabalhou por dois anos na instituição, tanto como voluntária quanto como funcionária contratada para lidar com assuntos jurídicos. Além disso, prestou voluntariado nas organizações África do Coração, que auxilia refugiados, e União de Mulheres, focada na defesa dos direitos femininos.

Durante sua experiência no TETO, Bruna reparou que muitos voluntários eram estrangeiros. “Tive a impressão de que os integrantes que vinham de fora do país tinham o hábito do voluntariado”, declara. “No Brasil, procuravam casa, escola, cursos e trabalho voluntário”, completa.

Michel Grahl, coordenador do Atados, na região de Florianópolis (SC), acredita que o trabalho voluntário já vem ganhando força por aqui. O Atados é uma plataforma social que conecta pessoas interessadas em doar seu tempo a organizações engajadas em diversas causas.

“O trabalho voluntário não chega a fazer parte da cultura brasileira. Por isso, ainda é importante que centros de voluntariado o fomentem de forma mais livre. Não devemos falar apenas da participação em ONGs, mas também na política e cidade”, afirma. “O brasileiro não tem o forte costume de se envolver em questões da sua comunidade. Em países como Alemanha, os cidadãos tendem a cuidar melhor de suas cidades e das pessoas”, completa.

No entanto, Michel aponta para uma questão importante. Nos Estados Unidos, muita gente pratica o que ele classifica como “trabalho voluntário com menor envolvimento”. Há uma mobilização grande para a participação em causas e eventos específicos – mas não necessariamente os integrantes estão envolvidos a ponto de acreditar naquela ação para que gere maior impacto. “Existe um pouco do trabalho voluntário para virar estatística. Nós queremos o voluntariado com mais envolvimento e profundidade, com o qual a pessoa esteja alinhada”, diz.  

O trabalho voluntário no Brasil

Além de conectar ONGs e pessoas, o Atados faz um trabalho com instituições para que aprimorem sua comunicação e captem mais integrantes. “Elas precisam aprender a falar a linguagem adequada. Muita gente quer ser voluntária, mas não se sente atraída pela postura de comunicação da ONG”, explica.

O TETO é um exemplo de sucesso. Quando a organização abre inscrições para participar das construções de moradia, as vagas se esgotam em pouquíssimo tempo. Causa tanto impacto na sociedade pois desenvolveu uma metodologia eficaz e explica com clareza e simplicidade qual seu objetivo.

Michel acrescenta que a maioria das pessoas se mobiliza para participar de ações feitas por ONGs que prestam auxílio direto – como é o caso do TETO. Bruna concorda: “O Teto e a maioria dos projetos mais famosos têm começo, meio e fim. Durante a construção da casa, a equipe coloca a mão na massa, conhece as famílias, elege quem vai receber a moradia. Isso traz um sentimento de realização muito grande”.

Ações pontuais – principalmente relacionadas a questões de extrema pobreza – recebem muita atenção. Por outro lado, a recorrência não é tão grande, pois muita gente se choca com a realidade do outro. Em geral, as pessoas são voluntárias no TETO por seis meses. É bastante raro que se dediquem por mais tempo.

Na opinião de Débora Pires, as causas que mais chamam atenção do brasileiro são as que envolvem crianças e idosos -- indivíduos em situação de vulnerabilidade. Quando as ações são pontuais, o envolvimento é maior ainda. Causas ambientais também estão ganhando mais atenção, assim como a questão dos refugiados, que sensibiliza cada vez mais por conta do cenário político atual.

Como fazer trabalho voluntário

Para quem não sabe por onde começar, o primeiro passo é procurar por organizações como o Atados ou a ONG Parceiros Voluntários, que listam inúmeras vagas. No Atados, por exemplo, é possível filtrar a busca por região, causa e habilidade do voluntário, como comunicação, direito e música. Também é possível buscar opções nas plataformas GoForGood, ONU Brasil e na Kindness, que deve chegar ao Brasil em breve.

Essas organizações estão presentes em inúmeras cidades brasileiras, mas não em todas. Em certos casos, é possível trabalhar a distância. Quando não houver essa possibilidade, o primeiro passo para se tornar um voluntário é conhecer a própria comunidade, entender qual causa gostaria de apoiar e pesquisar sobre o tema. 

No geral, quem se engaja em uma causa acaba apoiando várias. Michel, por exemplo, já trabalhou como voluntário em mais de 30 instituições. Bruna está envolvida com esse tipo de trabalho desde criança e Débora tem mais de 20 anos de experiência na área.

“Há pessoas que trabalham voluntariamente em quatro ou cinco organizações”, diz Débora. “Por exemplo, não sou muito ligada ao meio ambiente, mas apoio a causa animal. Quando percebo que as duas estão interligadas, começo a trabalhar em prol do meio ambiente também. Você acaba incluindo esse projeto de vida no projeto anterior e isso passa a ser sua responsabilidade”, conclui.

O trabalho voluntário transforma a vida de quem está dos dois lados. É uma troca que ensina a trabalhar em grupo e a respeitar outras realidades.  Além da sensação gratificante de ajudar o próximo, o indivíduo cria novas conexões, faz amigos, adquire competências e vê o impacto das suas ações.

“Profissionalmente você acaba aprendendo muita coisa e sua própria personalidade vai sendo formada”, afirma Bruna. “Você conhece outras realidades e se torna uma pessoa mais empática e humana. Afinal, se depara com problemas maiores do que os seus. Com o tempo, talvez deixe de se sentir um herói e perceba que não está fazendo algo a mais. Na verdade, o voluntariado deveria fazer parte do dia a dia”, defende.

Bruna afirma que o poder de mudar a realidade está nas mãos dos cidadãos. “Não acredito que as maiores mudanças venham do governo. Elas virão da sociedade civil botando a mão na massa e se unindo”, finaliza.