21 de novembro 2017

Sumô por nós

sumo por nos
21 novembro 2017

Sumô por nós

O medo da mulher de ser assediada ou de nunca chegar em casa e perceber que isso lhe traz desvantagens sociais, culturais e econômicas
Sobre o autor: Dora Ehrlich

É estudante do ensino médio e milita principalmente pela educação, pela igualdade de gênero e pela democracia. Nasceu em São Paulo, mas também é dos mares e das cachoeiras. Borda, dança, pula carnavais, escreve, viaja e luta.

Texto por: Dora Ehrlich

É estudante do ensino médio e milita principalmente pela educação, pela igualdade de gênero e pela democracia. Nasceu em São Paulo, mas também é dos mares e das cachoeiras. Borda, dança, pula carnavais, escreve, viaja e luta.

Krav maga é a do exército israelense. Kung Fu é o que uma amiga minha faz quatro vezes por semana. Taekwondo. Jiu-Jitsu. Karatê. Judô é a aula que meu primo odiava quando era mais novo. UFC é o campeonato do Anderson Silva. Sumô é aquela luta famosa porque os praticantes fazem uma dieta de engorda, segundo boatos que não lembro onde ouvi. E também é a que a Manu me disse que sabia lutar quando estávamos andando na rua escura e eu disse que sentia medo. MMA. Boxe usa aquela luva grande. Capoeira foi trazida pelos negros escravizados e é um jogo no qual se cantam ladainhas muito legais, ora profundas, ora engraçadas e, algumas vezes, os dois. Isso é tudo que sei sobre lutas, então posso concluir que não sei quase nada.

Tenho feito um exercício de observar o comportamento das pessoas que passam pela minha nova janela, que agora dá para a rua. As observações noturnas, assim como as do céu, são as mais intrigantes, mas não pelos mesmos motivos. Observar pessoas andando na rua, especialmente na madrugada, me confirma a existência do patriarcado, dos privilégios masculinos e da insegurança que as mulheres têm para fazer qualquer coisa.

Parece-me evidente, a partir de experiências próprias, que quem se sente inseguro anda de forma rígida e rápida, sempre fugindo de algo. Podemos nos sentir inseguros com aspectos da nossa própria vida e seguir nela sem olhar para o lado, pois já temos um grande problema para nos preocupar. Generalizando, as mulheres, quando inseguras, como eu quando andava com a Manu, andam rígidas e rápido, enquanto a voz do medo fala tão alto em nossas cabeças que outras mulheres conseguem ouvir, mesmo a metros do chão, apoiadas em suas janelas. O anseio de ser assediada, de nunca chegar em casa ou simplesmente o nervoso que dá ser mulher e perceber que isso nos traz desvantagens sociais, culturais e econômicas.

Esse exercício se relaciona muito com minha luta diária. Com 13 anos, descobri o feminismo na internet e até agora não tenho nem noção do tamanho do esforço necessário para alcançar o que queremos. E nem do tamanho da opressão que o patriarcado exerce sobre nós. Acho importantíssimo perceber, por mais que de maneira lenta e abstrata, o tamanho dos problemas que temos, para ter uma solução realmente efetiva. Fazer exercícios de observação como esse nos trazem indagações importantes para que a luta faça sentido.

Perceber esses pequenos problemas no patriarcado não é desnecessário nem para mulheres que, dependendo de seus privilégios, sofrem certos assédios e machismos (em todas as vezes injustos) que, por diversos fatores do cotidiano, podem nem ser notados. Quando notamos, é comum perceber que precisamos nos ajudar. Andar com outras mulheres na rua, para não precisar andar como as mulheres sozinhas que vejo nas madrugadas na janela. Saber lutar de diversas formas. Seja Krav maga, Capoeira ou Aikido, que lembrei agora. Seja estudando e debatendo Angela Davis ou Simone de Beauvoir. Seja indo pra rua e combatendo, por exemplo, a PEC 181, que nos leva para a rua nesse exato momento de reprimavera feminista, porque, afinal, somos a renovação de todos os sistemas, esquemas, artes marciais, estações do ano e opiniões.