03 de agosto 2017

Sororidade

sororidade
03 agosto 2017

Sororidade

Por que a aliança entre mulheres é revolucionária
Texto por: Debora Stevaux

Ultimamente muito se tem dito sobre o termo sororidade, o correspondente feminino para fraternidade. Em 2016, somente entre 1º e 17 de março, a palavra foi buscada 1.600 vezes no Twitter, praticamente o dobro em comparação ao mês inteiro em 2015, segundo dados divulgados pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O termo é derivado do latim: enquanto "soror" significa irmã, "frater" é o radical latino relativo a irmão. Portanto, por analogia, se fraternidade diz respeito ao trato de parceria entre homens, sororidade corresponde ao mesmo acordo entre mulheres.  

Ambas as palavras são extremamente poderosas. Mas, quando se fala em sororidade, será que o discurso é ecoado na prática? Mesmo com a ampliação do debate sobre empoderamento feminino?

Para chegar a uma resposta, vale refletir. Quantas vezes você já viu meninas competindo entre si? Desde o colégio até a faculdade, sempre há uma rixa entre as mulheres: quem é a mais bonita? A mais inteligente? Isso sem contar as brigas entre meninas por um determinado menino. E isso, geralmente, não acontece entre os garotos: desde o início, a socialização masculina é construída de modo que os homens sempre se apoiem de forma incondicional. 

Numa roda de amigos, por exemplo, os amigos mais próximos sempre tendem a defender o garoto que faz algo de errado. São raros os momentos em que um menino repreende o outro no intuito de mostrar que o que ele está fazendo não é certo.

União em vez de competitividade

Há uma série de pesquisas realizadas sobre a competitividade feminina. Uma delas, de 2013, constatou que as mulheres manifestam uma agressão indireta às outras por uma junção de dois fatores: o primeiro é a "autopromoção", isto é, para se destacar, geralmente no âmbito atrativo; e o segundo a "detração das rivais", caracterizado como a diminuição das capacidades de outra mulher para se sobressair.  Esse estudo foi conduzido por Tracy Vaillancourt, professora e pesquisadora canadense do Centro de Saúde Mental e Prevenção da Violência da Universidade de Ottawa, no Canadá.

Existem ainda duas teorias que versam sobre o comportamento feminino competitivo. Uma delas utiliza como base a psicologia da evolução, e nada mais é do que aplicar o conceito de seleção natural para esclarecer o comportamento moderno: é necessário proteger o próprio ventre de "ameaças físicas".

Já a psicologia feminista considera que essa agressão indireta é um traço da sociedade patriarcal, isto é, do modo de organização das sociedades ocidentais para prestigiar socialmente a figura masculina do patriarca. Conforme explica o professor de psicologia da Universidade de Otterbein, em Ohio, em um artigo na revista científica norte-americana Psychology Today: "Como as mulheres hoje consideram o fato de serem apreciadas pelos homens sua fonte fundamental de força, valor, realização e identidade, são obrigadas a combater outras mulheres a fim de conquistarem o prêmio."

Não há nada mais revolucionário do que a união das mulheres, de modo a formar uma rede feminina com objetivos em comum. No ano de 2015, a jornalista gaúcha Babi Souza criou uma comunidade no Facebook chamada "Vamos Juntas?". A ideia é promover o apoio e a segurança entre mulheres desconhecidas em situações de vulnerabilidade de deslocamento e transporte nas ruas da cidade. Um dia depois, o projeto já contava 5 mil likes e hoje são mais de 450 mil.  “Numa sexta-feira, ao final do expediente, eu estava tensa, em vez de feliz. O motivo: entre dois pontos de ônibus do meu trajeto, havia um trecho escuro, que eu precisava cruzar a pé”, contou Babi em uma entrevista. Durante o percurso, percebeu que outras jovens estavam caminhando sozinhas e que o sentimento de medo era comum. “E algumas estavam indo para o mesmo ponto que eu! Pensei: Provavelmente, todas aqui sentimos mais medo de homem do que de mulher. Então, por que não vamos juntas?”

Elida Aponte Sánchez, doutora em estudos relacionados a gênero da Universidade de Zulia, na Venezuela, explicou em um artigo sobre o poder da aliança entre mulheres. "Se a fraternidade é a aliança entre os homens, pela qual os parceiros e sujeitos políticos são reconhecidos e que exclui as mulheres; sororidade é o pacto comum entre as mulheres que são reconhecidas irmãs, sendo uma política e prática contemporânea da dimensão ética feminina."