26 de dezembro 2017

Sopros de vida

Fofuuu-games
26 dezembro 2017

Sopros de vida

Startup usa games para ajudar crianças com distúrbios de fala e quer reinventar todo o aprendizado infantil.
Texto por: Pedro Katchborian

Engajada, uma criança fica com os olhos vidrados no tablet. Ela joga um game e rapidamente está entretida. Passa da primeira fase. Passa da segunda fase. A terceira era questão de tempo. A quarta também. O roteiro poderia ser de um dia ordinário na vida de um pequeno, mas, na verdade, a criança é uma entre as dezenas que estão no ambulatório da Unifesp, em São Paulo. O game que ela joga é o Fofuuu, uma plataforma de aprendizado direcionada a crianças com problemas de fonoaudiologia.

Criado por Bruno Tachinardi, o game ainda está na fase de desenvolvimento. A previsão do lançamento oficial é em março de 2018, mas essa história começa muito antes: Tricia Araújo, namorada de Bruno que também é sócia da empresa, nasceu com lábio leporino, uma anomalia congênita. Foram mais de 15 cirurgias e sete anos de tratamento. Repetitivos, os exercícios feitos por Trícia décadas atrás são os mesmos de atualmente. Ao perceber que o método utilizado para tratar distúrbios de fala não havia acompanhado outras áreas da medicina, Bruno e Trícia resolveram criar algo diferente. O Fofuuu nasceu no começo de 2015 e, desde então, foram quase três anos de erros e acertos para chegar no cenário de hoje, a alguns meses do produto chegar de vez ao mercado.

Os quase três anos sem um lançamento oficial podem ser explicados pelas dificuldades em dar tração para um produto que depende de tanta validação médica. Afinal, empreender na área de saúde significa tomar o cuidado necessário para que aquele projeto ajude de fato o consumidor. "Temos de ter um produto testado e validado na área médica. Precisa ajudar o tratamento e não atrapalhar. Precisamos de comprovação científica", explica Bruno.

Durante esse período, o casal acumulou prêmios na prateleira. Com Bruno por trás da parte técnica – é formado em design de games – e Trícia na criação, os dois conseguiram conquistas como o 1º lugar no Big Festival (de jogo educacional em desenvolvimento) e talvez o mais importante deles, a conquista do Empreenda Saúde, organizado pelo hospital Sírio-Libanês. A jornada tem sido parecida com a de qualquer startup: muito aperto no começo, meses de mentoria, aceleração e a conquista do tão sonhado investimento.

Em uma dessas mentorias, Bruno e Trícia ganharam a companhia de Lígia Cardoso, que atualmente é sócia e diretora-executiva da empresa e lida com toda a parte administrativa. A história de Lígia e Trícia se conectam, de alguma forma. Lígia sofre de dislexia e, assim como Trícia, não encontrou uma escola que a acolhesse da maneira correta na infância.

Vinda do mercado financeiro, Lígia conta que viajou o mundo e só então pode ver como ela consegue aprender por experiências e não da maneira convencional que se ensina nos colégios. "Ler um livro é muito mais difícil pra mim", explica. Para ela, o Fofuuu dá a chance de reinventar o aprendizado para as crianças com distúrbios de fala. "Queremos promover um aprendizado e um tratamento divertido e acessível para todas as crianças que têm problema de fala", diz.

Atualmente, a startup trabalha com três tipos diferentes de público: fonoaudiólogos, pais e mães ou responsáveis e crianças. "Tem que funcionar e integrar todos eles", diz Bruno. "Tem que ser intuitivo", completa. Já em fase de pré-lançamento, o game vai funcionar com o modelo de assinatura mensal. Ele pode ser utilizado em um tablet e as crianças poderão jogar vários games, todos com o aval e a comprovação científica de profissionais que lidam com distúrbios da fala. Por exemplo, em um game as crianças precisam assoprar para que um barquinho ande. Há várias fases e personagens, tudo para que a criança fique engajada com o game e possa realizar o tratamento integral.

Bruno, Trícia e Lígia fizeram estudos e descobriram que o acompanhamento do tratamento convencional é complicado. “As crianças fazem 20, 30 ou até mesmo 100 vezes o mesmo movimento”, diz Lígia. “É chato”, afirma. Além disso, as fonoaudiólogas não conseguem saber de maneira efetiva até que ponto as crianças fizeram os exercícios em seus lares. “Cerca de 85% do tratamento é feito em casa. A fonoaudióloga não consegue saber se a estratégia funciona ou não. É muito difícil monitorar remotamente o que está acontecendo", explica.

Com a plataforma criada pela Fofuuu, os profissionais de saúde poderão acompanhar o tratamento e saber quais foram os exercícios feitos e em qual ponto a criança chegou. "Cobrimos todo o ciclo do tratamento – do diagnóstico até a alta. Esse é o nosso diferencial", completa Lígia. A fase de testes envolveu o contato com muitos pais e crianças. Segundo a diretora-executiva, o resultado tem sido impressionante. "O engajamento é incrível, com crianças com ou sem patologia", completa. "Quando a criança voltar ao consultório, vai ter um relatório do que ela fez. O médico vai saber se ela teve dificuldade em algum exercício ou se não fez as atividades", complementa Bruno.

Vontade de ajudar mais pessoas

Como todo empreendimento social, Lígia conta que a vontade de trabalhar e fazer a diferença é muito grande."Quando você é um empreendedor social, toca o coração das pessoas. Nosso contato parece mais íntimo com os clientes porque toca em uma dor em comum. É energizante", diz. Mais do que isso, o engajamento de quem usa é mais forte ainda. "Você fala algo que faz sentido e as pessoas compartilham com outras. A mãe que conhecer a solução, ela vai compartilhar", afirma.

Apesar de não ter sido lançado oficialmente, o Fofuuu já tem algumas parcerias com fonoaudiólogas, que puderam testar o produto em seus pacientes. O resultado positivo e ver que o produto tem feito diferença na vida das crianças é a "melhor parte" do trabalho, segundo Bruno. "Quando você é desenvolvedor, é muito fácil você perder o contato com as pessoas que realmente utilizam o produto final. A gente teve uma resposta muito positiva e vimos que a Fofuuu vai mudar a vida das pessoas e o quanto a ferramenta ajuda nesse processo", afirma.

Além da parcerias como fonoaudiólogas, outros negócios foram fechados com a Unifesp, em que crianças são tratadas no ambulatório da universidade, e com a prefeitura de São Bernardo do Campo, em que foram comprados tablets que irão ajudar mais de 250 crianças em tratamento.

O lançamento do produto em 2018 promete trazer um ano de validação para a Fofuuu. Já há metas para o ano que vem: o lançamento deve ocorrer em março e a ideia é que até o final de 2018 sejam mais de 1 mil fonoaudiólogos com o produto e mais de 3 mil famílias utilizando. "Isso de pagantes, mas de pessoas utilizando a ideia é que o número seja bem maior", completa. Lígia já adianta alguns dos futuros planos para a empresa. A ideia é tratar outras condições da mesma maneira lúdica apresentada com os games para quem tem distúrbio de fala. Linguagem, autismo e dislexia são alguns dos próximos alvos da empresa, que quer antes se consolidar como plataforma específica para os problemas de fonoaudiologia.