22 de dezembro 2017

"Sonhar vem antes de realizar"

dani
22 dezembro 2017

"Sonhar vem antes de realizar"

Conheça o trabalho do empreendedor social Daniel Faria no Jardim São Luís, na periferia da capital paulista
Texto por: Debora Stevaux

“Para cada jovem que matarem aqui na comunidade, levantaremos dez sonhadores.” Esta é a máxima que move o empreendedor social Daniel Faria, 36. Ele nasceu no Jardim São Luís, na periferia de São Paulo (SP). Dani, como é carinhosamente chamado carinhosamente pelos membros de sua comunidade, fundou há 13 anos a ONG ORPAS - Obras Recreativas, Profissionais, Artísticas e Sociais.

Casado com Juliana Faria e pai de Keila, de 21 anos — sua filha adotiva —,  do Kairu, 4, e da Kamili, 2, o paulistano via as vidas e o potencial dos jovens que se perdiam no tráfico de drogas e na criminalidade pela falta de oportunidade. “Percebi que os jovens queriam aprender a tocar violão, então procurei por um professor que ensinasse e comecei a montar as turmas em um quartinho que a minha mãe usava para passar roupa”, relembra Dani. A partir daquela situação, foi vendo que os pequenos desejavam tocar outros instrumentos e que poderia fazer muito mais do que oferecer aulas de música para eles.

Hoje, a ORPAS atende mais de cem crianças com idades entre 4 a 16 anos, de segunda a sexta-feira no curso "Cultura, Cidadania e Construção de Valores". São ministradas diariamente atividades de tecnologia, música, dança e teatro, seguindo a pedagogia da Escola da Ponte, criada em 1976 em Portugal. A didática busca fazer com que as crianças aprendam com a autonomia de escolher qual é o tema que desejam estudar. “No espaço que temos hoje também são ministrados cursos de gestão e inovação para projetos de impacto social, corte e costura, assentamento de azulejo, manicure, além de oficinas pontuais de teatro e dança”, explica.

Formado em administração pela PUC-SP, com um MBA em gestão de pessoas pela Universidade Mackenzie e pós-graduado em Ética pela Universidade de São Paulo,  o fundador da ORPAS viu sua ideia ser semeada em outros lugares do mundo. Em uma de suas idas para a cidade de Córdoba, na Argentina, criou uma sede a partir de um telefone de uma assistente social e de um adolescente. “Ficamos lá por três anos e depois a própria comunidade adaptou os ensinamentos que trocamos e criaram o Yo Quiero Ser, uma ONG no mesmo estilo da ORPAS.”

Daniel também visitou três comunidades diferentes na Romênia e desenvolveu um trabalho com a população carente da Espanha. O empreendedor social contabiliza mais de 50 viagens para países da Europa e da América Latina, sempre desenvolvendo trabalhos sociais sobre temas de empreendedorismo e questões étnico-raciais.

A internet e a cultura de resistência

Resistência é uma palavra recorrente no vocabulário de Dani - em uma conversa de uma hora, repetiu o termo cinco vezes. O substantivo feminino é usado para designar o ato ou efeito de resistir e também é definido como a propriedade de um corpo que reage contra a ação de outro corpo.

Nesse contexto, o paulistano também mantém o SoNego Points, um espaço considerado uma extensão do ORPAS. O local abriga eventos culturais e vários programas em formato de esquete que são gravados e transmitidos na página da associação no Facebook. O Programa das Minas é feito por mulheres da comunidade que abordam diversos  assuntos; o PokaZideia tem a participação de Edson Leitte, criador da gastronomia periférica e o Terapia de Boteco é apresentado pelo Daniel, que entrevista nomes de peso que estão transformando a realidade em seu entorno.

“É um negócio de impacto social, um lugar onde fazemos as gravações para disseminar a cultura de resistência. O SoNego é um espaço de evento da ORPAS”, explica.

Dani também está à frente do LiteraRua, uma editora que busca fomentar e fortalecer a produção literária periférica. Um dos títulos lançados pelo selo é a biografia do rapper Sabotage, assassinado no dia 24 de janeiro de 2003. A editora possui publicações de 25 autores marginais - uma delas tem 50 mil obras vendidas pela editora e leva o nome de “Sabotage - Um Bom Lugar”.

Para Daniel, a trajetória está só começando. Reuniu-se recentemente com empreendedores sociais de vários lugares do mundo na Hungria, para um encontro organizado pelo programa Cooperactive sobre direitos humanos e educação não-formal. “Fomos apresentar como a ORPAS tem impactado positivamente a comunidade através da capacitação não-formal. Trocamos experiências com educadores de todo o mundo, foi muito enriquecedor”, conta. Em uma das fotos publicadas em sua conta do Facebook, o homem alto, negro, de barba e boné, dispara na legenda: “Sonhar vem antes de realizar.”

A ORPAS também lançou, em agosto deste ano, o cartão de crédito Cartão Jardim, em parceria com a empresa mineira Mais Fácil Administradoras de Cartão de Crédito, com o objetivo de fomentar o comércio local de moradores e frequentadores do bairro. A primeira tiragem do cartão contou com cem unidades que serão distribuídas aos moradores que fizeram cadastro através do aplicativo que leva o mesmo nome do cartão.

“Hoje, praticamente todos os brasileiros têm acesso a sistemas de crédito, mas sem nenhum tipo de educação financeira, o que justifica o perfil devedor do brasileiro. Por isso, o limite será disponibilizado de acordo com o que cada um pode gastar e uma parcela será revertida para que a ORPAS continue desempenhando suas atividades em parceria com outras organizações e coletivos do bairro”, explica Dani, que completa: “Estamos engatinhando, pode parecer algo pequeno, mas é muito importante que as pessoas tenham um sentimento de pertencimento do lugar onde vivem, e que possam movimentar a economia local.”