21 de julho 2017

Sexismo em jogo

educacao fisica (1)
21 julho 2017

Sexismo em jogo

Os esportes praticados na escola também servem para questionar estereótipos de gênero na infância
Texto por: Camila Luz

Se você foi criança no Brasil, deve se lembrar bem das aulas de educação física no colégio. Não havia muita discussão: meninos jogavam futebol e lutavam judô, enquanto as meninas praticavam vôlei ou dançavam balé. Os estereótipos de gênero estão presentes nas atividades físicas desde a infância e se refletem em comportamentos no futuro.

As atividades corporais fazem parte da cultura, ajudam a criar conceitos e devem ser trabalhadas de forma crítica. Por exemplo, determinar que meninos joguem futebol e lutem judô ajuda a reforçar características atribuídas ao masculino, como força e competitividade. Ao mesmo tempo, indicar que meninas são melhores em dança e gostam de brincar só de boneca enfatiza a ideia de que nasceram para ser donas de casa graciosas e sedutoras.

O sexismo na escolha das atividades é tão enraizado que mesmo crianças bem novas já têm ideia formada de como devem ser as aulas de educação física, por exemplo.

“Se eu chegar no primeiro dia e perguntar como se organiza uma aula de educação física, eles vão dizer: meia quadra, meninos jogam futebol e meninas vôlei. Nunca é misturado”, conta Aline Nascimento, professora de educação física do ensino fundamental na rede pública de São Paulo (SP).

Para Aline, as questões de gênero são fortes na maioria das atividades que ocorrem na escola. No dia do brinquedo, por exemplo, as meninas brincam de boneca e ficam quietinhas, menos ativas. Já os meninos tiram a camisa, jogam bola, lutam, pulam e correm.

“Esportes e práticas corporais nada mais são do que manifestações culturais. Por isso, é importante trabalhá-las de forma crítica para que certos grupos não sejam estigmatizados, como as meninas”, alerta Marcos Neira, membro do Grupo de Pesquisas em Educação Física Escolar da USP (Universidade de São Paulo).

Educação física cultural

Uma das formas de introduzir as crianças no patrimônio cultural de um povo é com o uso de todas as práticas corporais. Isso inclui brincadeiras, lutas, danças, esportes e ginásticas. Marcos avalia que a geração atual cultiva o videogame e a ginástica de academia. Já as gerações de pessoas com mais de 40 anos não eram tão próximas dos jogos virtuais e foi muito seduzida pelos esportes, como o futebol.

“Se você vai a uma escola hoje, percebe que os professores também trabalham com dança e luta. O esporte não existiu desde sempre. É uma prática cultural do século 20, que ganhou muita visibilidade e foi espetacularizada”, afirma.

Se a escola é um lugar que ajuda as pessoas a compreender o mundo onde vivem, brincadeiras, lutas e outras práticas precisam ser transformadas em objeto de estudo. “É tão importante trabalhar o futebol quanto o skate. Tanto a bolinha de gude, quanto a capoeira e a ginástica de academia”, diz o pesquisador. “Tudo isso faz parte da sociedade e é patrimônio de determinados grupos. Queremos estabelecer diálogos para entender seus significados”, completa Marcos.

Como trabalhar o currículo escolar

Há diversas formas de trabalhar o currículo escolar, que compreende os conteúdos a serem ensinados e as experiências de aprendizagem vividas pelos estudantes, de acordo com Alessandra Dias, coordenadora de educação física na Secretaria de Educação de Jandira (SP).

“Dependendo da forma como você trabalha o currículo, ele vai discriminando ou tornando a escola um pouco mais democrática”, diz. “Acredito no currículo cultural porque ele olha para o todo e traz uma leitura crítica. No caso do futebol, por exemplo, as crianças entendem que não há apenas o futebol de campo, conduzido por jogadores famosos como o Neymar. Há outras formas de jogar, outros exemplos de jogadores”, explica.

O primeiro passo é não segregar. Marcos Neira, da USP, afirma que há escolas que desenvolvem projetos corporais inovadores, enquanto há colégios que ainda ditam quais atividades serão praticadas por cada um dos gêneros.

De todo modo, o papel do educador ainda é usar a sala de aula (ou a quadra) para desconstruir algumas referências que as crianças trazem de fora. Os estereótipos de publicidades, filmes, desenhos e da família precisam ser discutidos em classe.

“O educador tem a função de problematizar e fazer com que as crianças saibam que aquilo é uma construção social, que pode ser desfeita. É muito importante que o professor saiba disso na hora de escolher o tema e desenvolver a aula. Se ele junta meninos e meninas e só trabalha vôlei e handebol, isso continua acontecendo”, afirma. “Mas se trabalha ginástica rítmica, elástico ou dança, ele tematiza práticas corporais que historicamente são vistas como femininas”, completa.

Equilibrar as práticas corporais é uma forma de permitir que as questões de gênero apareçam e sejam discutidas. Muitas vezes, o ensino atua de forma a ocultá-las. Mostrar um vídeo de um homem dançando balé, por exemplo, pode ajudar a quebrar estereótipos, assim como montar grupos de break em que meninas também participam.

Meninas de costas

Os estereótipos de gênero criados desde a infância se perpetuam até a vida adulta. É comum que homens se reúnam para jogar uma pelada com os amigos durante a semana. Entre as mulheres, a prática não é tão frequente.

“Como sou uma mulher que joga, vejo que existem vários grupos de meninas que se reúnem para jogar bola e depois beber. Mas só as que não têm filhos conseguem estar presentes toda terça-feira. Quem é casada costuma faltar pois não rola uma negociação com o pai. O pai, por sua vez, nunca perde o futebol”, opina Aline. “A posição de mulher é de resistência a todo momento. Se você nasceu mulher, já está resistindo”, diz.

O mesmo vale para as escolinhas de futebol infantil, mais focadas nos times masculinos. A ausência de meninas em várias práticas esportivas é tão grande que o tema foi objeto de estudo do mestrado de Alessandra. “Minha pesquisa foi relacionada ao currículo do estado de São Paulo, sobre como as meninas estavam de costas, não participavam” explica.

Hoje, meninas e mulheres estão conquistando mais espaço em práticas esportivas consideradas masculinas, como o futebol e as lutas. Ainda assim, é preciso problematizar: lutas como muay thai e boxe são vendidas para o sexo feminino pelo seu grande potencial de emagrecimento e ganho de massa magra.

Inclusive, associar práticas esportivas femininas à estética é bastante comum. Basta olhar para as milagrosas aulas de zumba, que prometem queimar calorias e são sucesso entre o público feminino.

“Você pode olhar para os parques e quadras e ver a proporção de meninos e meninas. Em escolas de dança você encontra mais meninas, e isso tem a ver com o que é ensinado na escola”, argumenta Alessandra. “A proporção de atividades para o homem é bem maior do que para a mulher. É preciso trazer essa discussão para a educação. Só juntar todo mundo para jogar na mesma quadra não é suficiente”, finaliza.

Elas jogam futebol

Formadas em educação física,  Alessandra Dias e Aline Nascimento sempre se interessaram por todos os esportes e viveram na pele como é ser uma menina que gosta de atividades físicas “masculinas”.

Alessandra gostava de jogar bola e de brincadeiras como pipa e carrinho de rolemã, mesmo ouvindo da mãe que era errado.

Já Aline tinha muitos exemplos na família. Seu pai e seu avô foram jogadores de futebol e seu sonho de infância era seguir os mesmos passos. Ela e o irmão gêmeo jogavam quando pequenos, mas só Aline foi selecionada para o time juvenil do Juventus na adolescência.

“Me chamavam de sapatão, maria macho, diziam que eu queria ser igual ao meu pai. Rolavam uns trocadilhos”, relembra. “Como eu e meu irmão éramos gêmeos e ele não ingressou no time, eu era a sapatão e ele o veadinho. Como se a gente tivesse trocados papéis”, completa.

Os estereótipos de gênero vão além da quadra de educação física e atingem questões sexuais, estéticas, profissionais e muitas outras. Já adulta, Aline começou a reparar que também há diferenças no vestuário esportivo para homens e mulheres.

Um exemplo são os uniformes dos times de vôlei Os homens usam shorts e camisetas confortáveis, largas. Já as mulheres usam roupas mais apertadas. Além disso, o posicionamento das câmeras em jogos televisionados também é diferente: nos femininos, há uma atenção especial para os corpos das jogadoras. “Você consegue ver todas as dobrinhas das jogadoras e os comentaristas ainda apontam quando uma delas está acima do peso”, opina Aline.

Não é só na posição de atleta que homens e mulheres recebem tratamentos diferentes. Aline é uma das quatro árbitras de futsal em São Paulo, atuando na Federação Paulista e na Confederação Brasileira de Futebol.

“É bem difícil ser uma árbitra em jogo masculino. A mulher que está dentro da prática do futebol tem que ser muito boa várias vezes. Tem que conhecer as regras melhor do que os homens, tem que estar melhor fisicamente”, conta. “Na resistência e na questão física eu perco, meço 1,55 m, sou bem pequena. Tenho que ser mais inteligente do que o pessoal que está jogando”, completa.

Para compensar o tamanho, Aline usa alguns atalhos durante o jogo. Antes de se posicionar, analisa a jogada e corre para onde a bola vai, para não ter que se desgastar demais. A árbitra também afirma que precisa mostrar muito do que sabe para não ser desacreditada pelos jogadores.

“Tem gente que diz que mulher tem que lavar roupa, mulher não sabe apitar. Mesmo quando marco um lateral correto, dizem que marquei errado. Há uma pressão por ser mulher”, revela.