13 de novembro 2017

Sem medo da terceira idade

sem medo da terceira idade (1)
13 novembro 2017

Sem medo da terceira idade

A aumento da expectativa de vida dos brasileiros nos força a enxergar o envelhecimento com outros olhos
Texto por: Debora Stevaux

A população brasileira envelheceu. De acordo com dados levantados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2005 a 2015, o número de indivíduos com idade superior a 60 anos passou de 9,8% para 14,3% — uma média superior à mundial e muito semelhante à de países desenvolvidos. Nós também estamos vivendo mais: ainda de acordo com o mesmo levantamento, a expectativa de vida de um brasileiro que nasceu no ano de 2015 é de 75,5 anos — exatamente 30 anos a mais do que em 1940. Mas será que a nossa forma de enxergar e, principalmente, de enfrentar a velhice, também mudou?

O medo de envelhecer é extremamente frequente, mesmo que seja negado pela maioria das pessoas e uma das razões é que a sociedade do Brasil e da maioria dos outros países está estruturada para valorizar a produção.“O velho não está mais capacitado para produzir como o jovem, no ritmo do jovem. É neste momento que se instala o medo de ser reconhecido pelos outros como velho, pois se sabe que se será então desvalorizado, desconsiderado, segregado”, explica Maria Célia de Abreu, psicóloga, fundadora do Instituto para o Desenvolvimento Educacional, Artístico e Científico da Terceira Idade (IDEAC) e autora do livro “Velhice: Uma Nova Passagem”.

As rugas e a ditadura da beleza

A Sociedade Americana de Cirurgia Plástica Estética estima que ao menos 10% das cirurgias plásticas são realizadas em pessoas com mais de 65 anos nos Estados Unidos. Não há dados no Brasil específicos dessa faixa etária, mas médicos observam o aumento da procura. Sabe-se bem que as pessoas na terceira idade se preocupam demasiadamente com a estética, porque “parecer velho” não é algo bem visto, principalmente pelas mulheres, e isso é, literalmente, sentido na pele por elas.

Para Maria Célia, as propagandas e a mídia, em geral, possuem um papel fundamental de reforçar o estereótipo de juventude como sinônimo de beleza. “Dá medo perceber que o próprio corpo está trocando as características da juventude por outras, que não são desejadas, por não serem valorizadas. Estabelece-se uma imposição, quase uma ditadura, para o velho tentar manter uma aparência jovem, mesmo que em detrimento da saúde e mesmo que se dedique a procedimentos que ultrapassam o que é indicado pelo bom senso. Neste sentido, podemos dizer que se instala o medo suplementar de não dar conta dessa tarefa de promover um disfarce, de ser desmascarado”, pontua.

Em contrapartida Paulo Camiz, geriatra do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que os riscos de saúde associados às plásticas são extremamente baixos. A princípio, não há impedimentos, mas é sempre necessário analisar analisar se os pacientes têm condições que possam servir de contraindicação para a cirurgia, como problemas cardíacos ou diabetes, que implicam diretamente no tempo e na eficácia da cicatrização. “Eu não acredito que esses dados possam ter um teor negativo, visto que as pessoas estão vivendo cada vez mais e querem se sentir melhor consigo mesmas. Não são procedimentos estritamente necessários, mas podem ser feitos sem maiores complicações”, defende.

Solidão acompanhada

Um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, concluiu que a solidão pode até causar a morte de idosos. Os estudiosos acompanharam por seis anos um grupo de 1.600 pessoas, que tinham 71 anos em média e concluíram que aqueles que se sentiam solitários apresentaram uma taxa de mortalidade maior, independente de outros fatores como os sociais, econômicos e de saúde. A pesquisa também apontou que a solidão tem papel determinante no surgimento de depressão e no aparecimento de outras condições como o declínio da cognição, doenças arteriais, elevação da pressão sanguínea, propensão a vícios como o tabagismo e comportamentos sedentários.

Para Joyce Duarte Caseiro, médica e sócia-proprietária da rede de residenciais sênior Terça da Serra, é possível identificar que o idoso está se sentindo mais solitário ou ficando mais depressivo com alguns sinais: “Se ele deixa de fazer as coisas que gostava ou opta por não sair mais com a família. Isso acontece, porque ele sente uma dificuldade muito grande com os fatores externos que lhes são apresentados ao sair de casa, como falta de rampas e acessibilidade. Como o idoso é consciente, para evitar transtornos com os parentes, muitas vezes eles decidem afastar a convivência familiar por conta desses obstáculos e percalços encontrados em passeios fora de casa”, explica.

Os transtornos de humor são os problemas psiquiátricos mais frequentes em pacientes com mais de 60 anos. Desses, a depressão é uma das mais recorrentes. Uma das formas mais efetivas para evitar o seu aparecimento é por meio do estímulo e do cuidado relacionados às interações sociais. “O convívio familiar e entre pessoas da mesma idade fortalecem os vínculos e contribuem para um melhor enfrentamento de situações adversas na vida do idoso. Para a terceira idade é essencial receber visitas, conversar assuntos diversos e realizar atividades diferentes daquelas que eles estão acostumados. O ideal é que o idoso saia de casa pelo menos uma vez na semana, a fim de manter as ligações neuronais funcionando em perfeito estado, além de todo o resto do corpo”, recomenda Joyce.

A médica ainda explica que o sentimento de “fardo” para familiares e amigos próximos é criado pela invisibilidade que os idosos têm perante a sociedade, que acaba por gerar um sentimento de exclusão e de não pertencimento. “Dessa forma, o apoio dos parentes e da sociedade são essenciais não só para a preservação da saúde física e mental, mas também para momentos de estresse, doenças crônicas e até mesmo para superação de acontecimentos”, diz Joyce. O estímulo e incentivo da família, nesse aspecto, são fundamentais para que as pessoas da terceira idade se sintam incluídas no grupo social. Além desse apoio, é importante estar atento para evitar expressões ou insatisfações das condições físicas e mentais do idoso. “Isso pode se transformar em uma mensagem negativa para ele”, alerta a médica.

É fundamental para o idoso sentir que faz parte de algo, que pode ser um projeto de inclusão específico para a terceira idade ou até mesmo um time de algum esporte ou oficinas de trabalhos manuais. “Com os filhos cada vez mais ocupados com a rotina pessoal e profissional, o abandono é recorrente. Dentro desse cenário, é indispensável um trabalho psicoterapêutico e de terapia ocupacional, a fim de entender as atividades que o idoso gostava de fazer e trazer isso para a vida dele.”

O medo da morte

Quando um idoso é questionado sobre a morte, é extremamente comum ouvir que o receio não está no falecimento, mas sim no processo de decadência que pode se estabelecer no final da vida e suas consequências imprevisíveis, como o alto custo, as dores físicas e a falta de consciência. São medos legítimos e reais, que devem ser encarados. Deve-se refletir sobre medidas que possam suavizar essas condições futuras possíveis e colocar em prática tais medidas. "Por exemplo, pode-se deixar por escrito o chamado testamento biológico, ou testamento vital, dando as diretrizes do que a pessoa quer que façam com ela quando ainda estiver viva”, diz Maria Célia.

A sensação de fim da linha, de saber que não haverá mais nenhum outro ciclo ou fase da vida pode ser assustadora. “A finitude permanece como um grande, insondável e indesejável mistério e o desconhecido naturalmente gera ansiedade, preocupação e muito medo no ser humano. Para lidar melhor com esse medo, precisamos buscar a aceitação do próprio percurso nesta terra, revendo-o, ressignificando-o, compreendendo”, pondera Maria Célia.

Facilita também procurar sentir-se parte de um todo maior, integrando um conjunto amplo, buscando um sentido para estar vivo, desenvolvendo a dimensão da espiritualidade e cultivando bons relacionamentos, para entender que parte de si, das ideias e dos ensinamentos continua em outras pessoas.