27 de julho 2017

Sagrado masculino

Gustavo Tanaka (2) (1)
27 julho 2017

Sagrado masculino

O administrador Gustavo Tanaka deixou a vida corporativa para se tornar escritor e se dedicar ao estudo dos valores dos homens
Texto por: Camila Luz

Aos 18 anos, Gustavo Tanaka trilhava um dos tradicionais caminhos do homem brasileiro: estudava administração e era estagiário em uma multinacional. Seis anos depois, incomodado com o mundo corporativo, decidiu empreender. Oito anos e três negócios mais tarde, percebeu que o problema estava no que fazia da vida. Decidiu se tornar escritor para discutir valores como acolhimento, colaboração e o sagrado masculino.

Foi em 2015 que Gustavo percebeu que estava vivendo uma vida que não era dele. No fundo, sempre soube que deveria escrever, mas acreditava que só poderia fazer isso quando se tornasse um profissional de sucesso e ganhasse muito dinheiro. Felizmente, ouviu o chamado interior e decidiu mudar de rumo.

Hoje, é autor de dois livros: “11 dias de despertar” e “Depois do despertar”. Ministra cursos e workshops e é dono de um blog onde escreve reflexões sobre a vida. Para ele, há algo de grandioso acontecendo no mundo e novos valores estão sendo cultivados para mudar nossas vidas para melhor.


Você ficou famoso na internet por causa do artigo “Há algo de grandioso no mundo”. Por que você acha que esse artigo se tornou tão popular e foi tão replicado?
Até hoje é uma incógnita e não tenho muita clareza. Ainda recebo mensagens do mundo inteiro, dizendo que o texto foi traduzido para outros idiomas. Acho que consegui traduzir, de alguma forma, o que muita gente sentia, mas não conseguia explicar. Listei vários movimentos no texto, como alimentação saudável, orgânicos, queda no consumo e economia colaborativa, que servem o mesmo propósito e caminham na mesma direção. Juntei vários movimentos dentro de um único texto e as pessoas conseguiram se identificar.


Em sua opinião, quais são os valores femininos que se perderam com o tempo e devem ser cultivados hoje?
Primeiro, acho que a vulnerabilidade. Para as mulheres, tudo bem ser vulnerável. Mas para os homens, não. Ele não pode se mostrar vulnerável, pois será considerado fraco ou vai ser sacaneado. O ambiente masculino é muito hostil. O homem quer sempre se mostrar forte e isso é uma mentira, pois ninguém é forte o tempo inteiro. A gente oscila, tem vontade de chorar, tem traumas de infância. E é a partir da vulnerabilidade que a gente consegue superar. Se falo das minhas dores, você sente empatia, que é outro valor feminino cultivado a partir da vulnerabilidade. Também penso no cuidado, em entender que precisamos criar um mundo mais amoroso, onde a gente consiga cuidar uns dos outros. E deixar de lado o mundo da competição. Essa é uma coisa que as mulheres sabem fazer melhor. O cuidado, acolhimento, dar colo para o outro, apoiar.


Você acredita que os valores femininos estão sendo mais valorizados?
Acho que sim. Na verdade, acredito que quando falamos dos valores femininos, sinergia, vulnerabilidade, acolhimento, não são todas as mulheres que têm isso. Algumas mulheres têm uma energia mais masculina, e alguns homens têm energia mais feminina. Não é questão de gênero. Mas o mundo está mudando porque estamos dando mais espaço para a vulnerabilidade, entendendo melhor como lidar com as emoções, aceitando o olhar cuidadoso. Estamos percebendo que a competição, o “cada um por si”, não faz mais sentido. Estamos rompendo barreiras.


Como você enxerga o sagrado masculino e qual a diferença para o sagrado feminino?
Primeiro devemos entender que todos nós, homens e mulheres, temos dentro de nós a energia masculina e a energia feminina. Uma hora você ativa mais a sua energia feminina, e outra hora a masculina. A energia feminina é do cuidado, acolhimento, empatia, sensibilidade, intuição. E a energia masculina é da ação, proatividade, materialização, força. Têm momentos em que eu sou um cara mais intuitivo e sensível, estou acessando minhas emoções e querendo cuidar das pessoas. Têm momentos em que estou mais ativo, querendo materializar, criar. Estou o tempo inteiro trabalhando com essas duas energias. O que acontece é que a gente não recebeu nenhum tipo de iniciação para lidar com essas energias. A gente aprendeu a viver na base do “vai, se vira e sobrevive aí”. É muito comum você encontrar pessoas que cresceram sem uma figura masculina, pois o pai saiu de casa cedo, ou trabalhava o dia todo fora, ou os pais se separaram e o filho foi criado por apenas um deles. A gente não tem essas figuras equilibradas. E mesmo que a gente tenha essas referências, não existia a manipulação dessas energias. Qual a força da energia masculina e da energia feminina? Não aprendemos isso.


Você está dando cursos sobre o sagrado masculino?
Sim, a gente começou um grupo em São Paulo. Fazemos encontros com rodas de conversa para ressignificar o que é ser homem. É um espaço onde os homens podem compartilhar e falar. Temos desenvolvido outras atividades também. Fazemos imersões do sagrado masculino na natureza para que aprendam a se conectar de outra forma. É um novo caminho que está se abrindo para mim.


As mulheres podem participar das rodas de discussão?
Não, nesse grupo são só homens, para criar o espaço de confiança para que possam se expressar. Esse espaço não existe, os homens não têm espaço para falar. Nos grupos de WhatsApp é só pornografia bebida, balada, futebol... não tem espaço para vulnerabilidade.Queremos ressignificar essas questões e entender qual é nosso papel aqui. O preconceito contra homossexuais e mulheres só existe por causa do masculino distorcido. Às vezes, a raiva que o homem sente da mulher vem do seu próprio feminino. Quando o homem entende seu lado feminino, ele dá espaço para a mulher. Quando o feminino está querendo se manifestar e ele não sabe lidar com isso, suprime e mascara sua energia, projeta isso na mulher e sente raiva dela. Acredito que muitas vezes as mulheres têm dificuldade para encontrar seu espaço no mercado de trabalho porque o homem não está sabendo lidar com sua própria energia feminina.


Em um dos seus textos, você conta que teve depressão e que, para superá-la, precisou aceitar suas emoções, se permitir chorar e mudar alguns hábitos. O que mudou na sua vida depois desse processo?
Esse processo todo me fez compreender o ser humano de outra forma. Até que eu passasse por isso e sentisse essa dor, não conseguia compreender as pessoas que sofriam tanto. Então isso tudo me ajudou a ter compreensão e respeito pela dor. A minha dor não é maior que a sua. Sua dor não é maior porque sua tragédia foi maior. Entendi também a necessidade do acolhimento. As pessoas não sabiam lidar com o que eu estava passando. Contava que estava deprimido e elas falavam que não tinha nada a ver, que logo ia passar. Precisamos de pessoas que olham para as outras e cuidem delas. Hoje, estamos todos sofrendo sozinhos em nossos apartamentos, enquanto o vizinho está ali do lado e poderia ajudar. Há também as desconexões entre as famílias e amigos. Chegamos no limite da nossa frieza e isolamento.


Qual o significado de evolução para você?
Para mim, evoluir significa ser livre, e isso é poder ser quem sou de verdade. Se tenho vontade de cantar e fico com vergonha, por que isso acontece? Se não consigo me expressar, não consigo fazer o que tenho vontade, não consigo começar um projeto... por que não me permito? Evolução é sentir a liberdade de que posso fazer ou falar sobre o que quiser. Para mim, tudo é frequência. Quando evoluo e me liberto, acesso novas frequências e minha compreensão sobre a vida se amplia.


Quais são os principais valores que você cultiva hoje?
Acho que integridade é o principal. Sempre me pergunto se estou investindo em algo por que realmente acredito naquilo. Também penso na integridade como um ser humano inteiro, com suas energias masculinas e femininas integradas, podendo ser quem é de verdade.


Você escreveu um texto questionando com cuidamos de nós mesmos. Como você cuida de si mesmo?
Estou tentando cultivar bons hábitos. Isso passa por ser verdadeiro com o que estou sentindo. Se estou cansado, me permito descansar, dormir até mais tarde. Se estou com muita energia, faço alguma coisa com isso. Se estou com vontade de ficar em contato com a natureza, me permito ir até ela. Se estou com vontade de parar mais cedo, paro mais cedo. Respeito meu corpo e dou a ele o que precisa. Quando começo a me alimentar pior, o corpo acusa e volto a me alimentar melhor. Acho que o básico é meditar e me alimentar bem. Também cuido das minhas relações, fico perto de quem me faz bem e gosta de mim. Não fico tentando convencer ninguém de nada e não quero arrumar briga para que acreditem no que falo. Quero estar perto da minha tribo, da minha galera. Isso é fundamental. A conexão com a natureza também é essencial para mim. Uma semana em São Paulo já me deixa meio perturbado.


Como é a sua conexão com a natureza? Você consegue estar conectado mesmo morando em São Paulo?
Eu tenho um sítio, então estou criando um estilo de vida que me permite não ficar em São Paulo durante a semana toda. Claro que tenho os meus compromissos na cidade. Mas tento colocar o pé na grama todos os dias para descarregar preocupações, energias negativas e receber de volta uma energia nova. Quando não estou no sítio, tento ir até um parque ou praça, tirar o tênis e ficar com o pé na grama por pelo menos dois minutos. Essa conexão é importante, assim como buscar espaços de silêncio.


Por fim, seu novo estilo de vida está permitindo que se mantenha financeiramente?
Sim, eu tenho meus livros, dou palestras, cursos e tenho uma nova plataforma online de aprendizado chamada Recanto.