04 de setembro 2017

Sagrado feminino

sagrado feminino
04 setembro 2017

Sagrado feminino

Mulheres se encontram para resgatar a consciência que promove reconexão à natureza e seus ciclos naturais
Texto por: Livia Deodato

Todas as quintas-feiras, há mais de um ano, um grupo de sete amigas se encontra em um apartamento da zona oeste de São Paulo para lerem juntas o livro “Mulheres que Correm com os Lobos”, da escritora e psicóloga americana Clarissa Pinkola Estés. Por meio da interpretação de 19 lendas e histórias antigas, a autora procura identificar o arquétipo da Mulher Selvagem e mergulhar no Sagrado Feminino. “[A Mulher Selvagem] sabe rastrear e correr, convocar e repelir. Ela sabe sentir, disfarçar e amar profundamente. Ela é intuitiva, típica e normativa. Ela é totalmente essencial à saúde mental e espiritual da mulher”, explica no livro.
Mitos, contos de fadas e lendas do folclore ilustram como as mulheres contemporâneas, que têm de dar conta de responsabilidades tanto da esfera pública quanto da privada, podem se ligar novamente aos atributos saudáveis e instintivos dentro de cada uma delas. 
O livro explica por que isso fará bem para elas e também para toda sociedade. Por isso, tem virado objeto de estudo de rodas de leitura e propõe uma reconexão com a sabedoria ancestral, que conecta novamente as mulheres à natureza e seus ciclos, envolvendo as mulheres numa consciência mais amorosa e de unidade. São retomados e valorizados aspectos e valores femininos de ordem social, pessoal, psicológica, espiritual e cultural.
“O Sagrado Feminino tem como princípio a reconexão com a natureza, em que a mulher respeita seus ciclos, reconhece toda a vitalidade, a vida presente na Terra, o momento de pausar, descansar e também de expandir e florescer”, diz a terapeuta e naturóloga Divya Prem. “Quando as mulheres passam a se conectar mais com a natureza, elas entendem que somos regidas por uma única força. Com isso, somos capazes de estabelecer uma irmandade, acabamos aos poucos com o jogo da competição e migramos para a cumplicidade”, complementa.
As amigas que se encontram no apartamento dividem suas vidas, compartilham segredos, dores, medos e esperanças com o intuito de resgatar o Sagrado Feminino de cada uma delas. 
Patrícia Piva Amaro começou o grupo em um momento de transição de sua vida, quando trocava a carreira em direito pela psicologia e teve seu terceiro filho. "Sou casada com um homem especial, que me ajuda de todas as formas, mas senti a necessidade de estar perto de outras mulheres corajosas que estivessem dispostas a desacelerar e olhar para o invisível", justifica. "A mulher contemporânea não tem mais tempo para nada, para mim é precioso estar com essas ‘irmãs lobas’. Ao conectar-me comigo mesma, torno-me melhor mãe, esposa, amiga e filha", acrescenta. 

Força

Um dos objetivos do movimento do Sagrado Feminino é fortalecer o elo de irmandade entre as mulheres (também chamado de sororidade), reconhecer em si e nas outras a jornada em busca de compreensão do universo, expondo suas fraquezas, peculiaridades, dúvidas. As mulheres, que há milhares de anos enfrentam a desigualdade de gênero, encontram nesses círculos a possibilidade de resgate de forças e saberes ancestrais, intuitivos e emocionais. Aqueles que muitas vezes são sentidos, mas não são validados.
“Sozinhas, nós enfrentamos muitos tabus da sociedade, preconceitos, diferenças. Quando nos unimos, entendemos que passamos pelas mesmas coisas e assim criamos força para realmente fazer a diferença”, diz Divya. “Esse movimento gera empoderamento, união, consciência, um novo olhar para encarar a saúde, os nossos ciclos, o nosso modo de viver de forma mais conectada, conscientes de todos os princípios do nosso corpo e da natureza.”
Os encontros para discutir o Sagrado Feminino promovem identificação entre as mulheres e despertam para uma nova consciência, que pode ser interpretada como a saída da supremacia patriarcal, repressora e cheia de regras, para a entrada em um mundo mais maternal, afetivo e artístico, além de menos racional e mais sensível. A consultora americana Jennifer Armbrust criou o conceito de Economia Feminina a partir desse mesmo mote.
O Sagrado Feminino engloba os aspectos emocionais guardados no corpo e, para quem acredita, também no espírito. Trata também da sintonia entre os ciclos menstruais e as fases da lua, a veneração das deusas de todas as mitologias e a semelhança delas com cada mulher. “O feminino pode ser representado pelas águas, que têm esse poder de fluir, contornar obstáculos. Estamos despertando hoje em dia para esse cuidado com as águas e com o planeta, nada mais natural de termos esse mesmo olhar com o Sagrado Feminino”, diz Divya.