27 de dezembro 2017

Símbolo

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27 dezembro 2017

Símbolo

Encarada como o “outro” no mundo masculino, a mulher quase sempre foi traduzida em simbologias culturais pouco favoráveis: fértil, recatada, fatal ou fútil. Hoje, cabe à arte entender o feminino em sua própria complexidade.
Texto por: Redação o Valor do Feminino

*Conteúdo originalmente produzido pela Bravo

A mulher é um outro. É essa ideia, de que ao longo da história a construção do feminino se apoia em uma oposição a um gênero que é a norma do mundo, que gira O Segundo Sexo, clássico de Simone de Beauvoir. Quem é esse outro e o que quer esse outro é uma pergunta eternamente em suspenso. E da pintura paleolítica às performances de Marina Abramovic, isso quer dizer que a mulher sempre esteve atrelada a simbolismos específicos, que refletiam um tempo, uma forma de pensar, uma estética, um papel social.

No Mundo Antigo, não é muito difícil entender o que está por trás de uma vênus primitiva: potência da fertilidade nos seios e quadris fartos fazem parte de um mundo ainda meio mágico, em que a arte tem o poder sagrado de evocação. Há símbolos tão fortes nesses passados distantes que são anedóticos até hoje: no mito da Caixa de Pandora, a primeira mulher criada por Zeus abre um grande jarro que continha todos os males do mundo. Zeus criou a caixa porque sabia que um dia, a curiosidade levaria Pandora a abri-la e libertar o mal, castigando os humanos pelo fogo que haviam recebido contra sua vontade. Alguma semelhança com a curiosidade de Eva ao provar o fruto proibido e condenar a humanidade à queda?

No território da arte egípcia, por exemplo, as frequentes representações de deusas ou mulheres nos ajudam a decifrar o papel feminino: a proporção das figuras representa hierarquias familiar e social, em diversas cenas as mulheres são representadas menores, e com indicações de seu papel e função pelas roupas e adereços. Um mural na cidade de Estábias, vestígio do império romano, uma pintura chamada Moça Colhendo Flores, é de um realismo e uma leveza cheia de detalhes carregados de valores que até hoje são associados a feminilidade: a mulher delicada, num contexto decorativo, num momento cotidiano.

Não é exato considerar o período medieval a Idade das Trevas, mas as imagens espiritualizadas do feminino são a regra: mulheres sacralizadas na poesia, e na arte religiosa, santas e madonas, de olhos enormes e expressivos, como portais da espiritualidade, mantos cobrindo todo o corpo, e frequentemente as mãos em posição de humildade ou bênção. A mulher pura, que vai voltar a ser evocada ao longo da história, em outros contextos, mas sempre como uma ponte para valores maiores, como o Amor, seja ele humano ou divino.

Belas, recatadas e do lar

Na Renascença, ocorre uma volta das pinturas mitológicas, corpos femininos retratados com mais precisão anatômica, leveza e linhas sinuosas como em A Primavera, de Botticelli. É outra representação do feminino – o belo sexo – que ainda está muito presente no imaginário coletivo: formas suaves que personificam a natureza, a fertilidade, o amor e o desejo, com delicadeza e fluidez. Alegorias são poderosas: como desassociar o frescor de uma moça jovem da espontaneidade floral e luminosa da primavera? E a beleza como um atributo quase indissociável do feminino e das virtudes.

Mas essa mulher, idealizada nos Países Baixos durante século 14, cede a vez para uma mulher mais realista, com uma nascente burguesia interessada nos ambientes domésticos e na vida cotidiana. Mas mulheres de Johannes Vermeer são dignificadas em seus afazeres e em sua individualidade – como no olhar d'A Moça com Brinco de Pérola. Em O Casamento dos Arnolfini, de Jan van Eyck, a noiva, numa posição de modéstia, ocupa com seu manto verde metade do quadro, repleto de símbolos familiares, símbolo de compromisso com a responsabilidade familiar.

A Revolução Francesa, no século 18, também muda o rumo do feminino.

“Até a arte barroca, as imagens estão associadas a coisas que hoje achamos femininas, mas que estavam associadas à aristocracia. Como no retrato de Luís 14, de Rigaud, que traz uma imagem de fragilidade, ligada ao ócio, a não precisar trabalhar. Difere da força bruta”, conta Marina Mazze Cerchiaro, doutoranda em História da Arte. “A passagem da monarquia para república tem uma troca de imagens importante para entender o feminino.”

Uma imagem simbólica desse período é o Juramento dos Horácios, de Jacques-Louis David, um dos pais do Neoclassicismo. “Ele recupera a masculinidade do greco-romano na anatomia, no masculino associado a força. A fragilidade passa a ser associada às mulheres, voltadas ao familiar, a domesticidade, lamentando as mortes de família, e os homens na esfera pública, da resolução de conflitos”, detalha Marina. As mulheres têm mais cores, homens mais elementos anatômicos.

Sensual é fatal

É impossível falar dos simbolismos femininos sem passar pelas mulheres fatais: instintivas, ligadas à natureza, perigosas porque seduzem e hipnotizam os homens. É a figura de Salomé, ou a esfinge, a mulher-bicho que devora o homem. No mundo contemporâneo, a busca de uma identidade feminina pelas mulheres sempre traz o receio de que Eva nos derrube de novo do paraíso, que confunda os sentidos e sele destinos trágicos. O que fazer dessa mulher?

O expressionismo toma o rumo do erotismo: uma mulher extremamente sexualizada, mas não perigosa. “É uma mulher submissa, como nos nus de Matisse e Gauguin. É um momento que perseguem toda a história canônica da arte, e se refletem na arte contemporânea”, conta Marina. Essa forma de erotismo mais passiva volta e volta: é a Maja Nua, de Goya; a mulher do Almoço na Relva, de Manet; das Les Demoiselles d'Avignon, de Picasso.

Essa estética no tom de uma moral burguesa vai bem além das artes visuais. Em 1875, estreia no Opéra-Comique de Paris Carmen, de Bizet, um completo desastre, vaiado com ferocidade (ainda que tenha se tornado com o passar dos anos uma das óperas de maior sucesso comercial, com centenas de remontagens). Carmen foi considerada uma personagem vulgar, mulher sem moral nenhuma, lasciva, libertária e sedutora. Obviamente, ela é punida com a morte. Ecos dessa sensualidade, perigosa, é também uma das constantes na indústria cinematográfica.

Como são constantes no cinema a mulher trágica e infiel do realismo: a Emma Bovary de Gustav Flaubert ou a Anna Karenina de Tolstói. São mulheres com desejo, entediadas, fúteis e que acabam vítimas da moral burguesa que ao mesmo tempo as compele para a aventura e as pune por ela. A insubordinação dessa mulher com uma expectativa social e um destino familiar cobra um preço alto. A mulher trágica esbarra, de raspão, na Capitu de Machado de Assis, na possibilidade de ser como Bovary ou Karenina; talvez adúltera, certamente dona de olhos de ressaca. Mas Capitu falha em ser como a mulher de César: não basta ser honesta, é preciso parecer honesta.

 

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Se a arte reflete as mudanças na sociedade, o furacão contemporâneo balança algumas certezas. Uma delas é de que exista uma ideia única de mulher. “Na década de 1920, artistas como Suzanne Valadon e Tamara De Lempicka reproduziram o tema de mulheres reclinadas, comuns à iconografia desse período. Mas são corpos que não estão ali para o gozo masculino, é uma sexualidade não heteronormativa”, conta Marina.

O tema é o mesmo, mas a mulher é outra – são outras. E como a própria crítica da arte está em constante transformação e revisão, é significativo que essas representações tenham sido mais marginais e recuperadas mais recentemente. “A iconografia lésbica surge nesse período: a mulher moderna dos anos 20, cabelo curto, lésbica, fumando, dirigindo. Que vai ser diferente da mulher moderna dos impressionistas, que é do cabaré, como as mulheres pintadas por Toulouse-Lautrec, ou as mulheres na ópera, se são mulheres pintando.”

Aliás, essa revisão dos simbolismos femininos e mesmo de artistas nos últimos anos tem atraído olhares. Marina cita a obra da brasileira Georgina de Albuquerque, que pintou uma tela em 1922 e que a Imperatriz Leopoldina figura como mentora da independência – uma abordagem inovadora.

O Museu de Arte de São Paulo é uma das instituições mundo afora que tem feito esforços no sentido de revelar visões alternativas. “Mudamos um pouco o direcionamento dos ciclos de palestras para falar mais das artistas mulheres do acervo, especialmente as menos conhecidas, como Noemia Mourão e Djanira da Motta e Silva”, diz Luiza Proença, curadora do Masp. “Hoje 17% do acervo são artistas mulheres. É uma porcentagem ainda muito pequena, mas estamos trabalhando nisso. A gente gosta de falar em 'histórias da arte' e estamos tentando contemplar e dar visibilidade às histórias marginalizadas, como das mulheres, negros, crianças”, diz Proença. Isso acaba trazendo nuances mais ricas dessas visões do feminino, aumentando o número de matizes nesse caleidoscópio.

No mundo contemporâneo, cabem infinitas mulheres na ideia de mulher. Numa palestra, o mitólogo Joseph Campbell reconhece que historicamente o feminino ocupa lugares claros e bem definidos: “Todas as grandes mitologias e boa parte das narrativas míticas do mundo têm um ponto de vista masculino. Quando eu estava escrevendo O Herói de Mil Faces e queria incluir heroínas, tive que recorrer aos contos de fadas”. Mas num mundo em que mulheres são artistas, roteiristas, atrizes, compositoras e consumidoras de arte e cultura, os simbolismos femininos inevitavelmente se tornam mais diversos – e definitivamente mais humanos.