06 de setembro 2017

Responsabilidade afetiva: por que sentimos tanta falta?

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06 setembro 2017

Responsabilidade afetiva: por que sentimos tanta falta?

Sobre o autor: Laura Pires

É graduada em Letras pela UFRJ, fez mestrado na mesma instituição sobre a análise dos discursos de amor que circulam na sociedade e como afetam a maneira de viver relações amorosas. É uma das cofundadoras da Revista Capitolina e hoje escreve principalmente sobre relacionamentos. Ama pessoas, queijo e silêncio, acredita no poder da comunicação e se considera cientista social de si mesma.

Texto por: Laura Pires

É graduada em Letras pela UFRJ, fez mestrado na mesma instituição sobre a análise dos discursos de amor que circulam na sociedade e como afetam a maneira de viver relações amorosas. É uma das cofundadoras da Revista Capitolina e hoje escreve principalmente sobre relacionamentos. Ama pessoas, queijo e silêncio, acredita no poder da comunicação e se considera cientista social de si mesma.

Vemos atualmente muita gente clamando por responsabilidade afetiva em redes sociais, com inúmeras curtidas e comentários em concordância. O termo surgiu no contexto de relações livres, como forma de alertar quem se relaciona de maneira não monogâmica sobre honestidade com todos os envolvidos. Como foi então que a expressão, de repente, se tornou tão popular fora do contexto não mono?

Todo mundo sabe que com o tempo foi ficando mais fácil e aceito ter relações casuais, mas isso aumentou bastante nos anos mais recentes com o uso de aplicativos. Pessoas que se cruzam na rua e jamais se conheceriam podem marcar coraçãozinho numa foto e já têm programa para a mesma noite. É cada vez mais fácil conseguir sexo e muita gente não está a fim de ter que se esforçar pra isso. Quanto mais prático for, melhor.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman chama essa praticidade de amor líquido. Para ele, as pessoas se tratam como mercadorias, de maneira utilitária, e não se apegam: quando ficam insatisfeitas, abandonam, trocam por algo novo, que sempre parece melhor. Mas precisa mesmo ser assim? O quanto somos vítimas fatais desse meio e o quanto podemos melhorá-lo?

O contexto líquido deixa todo mundo meio cabreiro com essa coisa de se envolver e se apegar e depois quebrar a cara. Isso faz com que o afeto fique cada vez mais restrito a relacionamentos entre pessoas que declaradamente se amam e desejam ficar juntas por muito tempo. O problema é que todo mundo quer que seus sentimentos sejam respeitados e considerados (o que não tem nada a ver com amor), e essa distância quase obrigatória que muitos mantêm em relações ainda não definidas deixa todo mundo se sentindo sozinho. Logo, é claro que faz sentido que hoje em dia haja cobrança por responsabilidade afetiva mesmo entre pessoas que se consideram monogâmicas. Só que me parece que esse é só um termo bonito que resolvemos usar para pedir por coisas muito simples, como cuidado com o outro.

Se o afeto só cabe em relações já consideradas sérias, o que sobra para relações casuais? Parece que a regra é ser o mais impessoal e distante possível: para não passar a ideia errada, para não se machucar, para não machucar a outra pessoa… Será que não podemos encontrar um meio termo?

Uma situação muito comum: você está saindo com a pessoa, gosta de falar com ela, lembra-se dela, pergunta do dia etc., e aí ela termina com você, porque você está envolvido demais e ela queria algo casual. Ou a pessoa fura com você e age como se você não tivesse direito de se chatear com o vacilo só porque não é namoro. Precisa estar namorando para querer contato, bate-papo e respeito? A necessidade de ser impessoal é tão forte e marcada que qualquer aproximação mais carinhosa ou demonstraçãozinha de que você é um ser humano com sentimentos é lida como pedido de casamento. Não é bem assim - ou pelo menos não deveria ser.

Estamos deixando os sentimentos cada vez mais de lado, o que naturalmente nos leva a estigmatizar o que sentir e demonstrar o que sente significa. No fim das contas, aquilo que se cobra quando pedimos por responsabilidade afetiva é, na verdade, um mínimo de consideração que muitos não têm. Acham que só devem ter cuidado e demonstrar afeto quando é um relacionamento mais sério e esquecem que esses são valores básicos que foram talvez não se perdendo, mas se limitando.

Se não recebemos afeto, também não nos sentimos confortáveis para dá-lo. Construímos um ciclo vicioso de relações vazias entre pessoas que se sentem sozinhas, mas não têm coragem de se entregar. Precisamos resgatar esses valores para nossas relações, tratar os outros com mais consideração. Do jeito que estamos indo, todos perdemos. Responsabilidade afetiva é nada mais que se importar com o próximo.