31 de julho 2017

Redes de confiança e mercado de trabalho

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31 julho 2017

Redes de confiança e mercado de trabalho

Viver em uma sociedade amigável pode influenciar no número de filhos que um casal deseja ter
Texto por: Julliane Silveira

Nas últimas décadas, mulheres de todo o mundo conquistaram o mercado de trabalho, ao mesmo tempo em que muitos países passaram a apresentar taxas de fecundidade mais baixas.

Parece clara a relação entre profissionalização e diminuição no número de filhos: a mulher teria dificuldades de administrar as funções do trabalho e de casa com uma prole imensa. Ao estudar por mais tempo e se especializar, também é natural que ela deseje dedicar mais tempo para si e para a carreira.

Pesquisadores de todo o planeta tentam esmiuçar mais o assunto e observam que nem sempre a relação é direta. Em alguns países, as taxas de fecundidade caíram muito depois que as mulheres passaram a trabalhar fora e continuam baixando. Em outros locais, os índices despencaram, claro, mas se estabilizaram rapidamente.

Alguns estudiosos acreditam que as diferenças ocorram principalmente por questões culturais e expectativas de desenvolvimento pessoal. Outros acham que as diferenças de gênero ainda pautam esses números: a mulher que não pode contar com o companheiro nas tarefas de casa certamente planejará ter menos filhos.

Há ainda quem acredite que viver em uma sociedade confiável possa fazer diferença no planejamento familiar. É o que dizem pesquisadores da Universidade de Oxford em um estudo  realizado com informações de 36 países sobre confiança e fertilidade.

Confiança

A pesquisa foi publicada recentemente na revista científica “Social Forces” e sugere que as nações com níveis mais elevados de confiança generalizada apresentam menor queda de fertilidade associada ao aumento do grau de escolaridade das mulheres.

A confiança generalizada refere-se ao pensamento de que, em geral, as pessoas de um país são confiáveis e boas e que não existe motivo aparente para desconfiar de seu povo.

Essa percepção é importante para a procriação porque muitas mulheres que trabalham fora precisam terceirizar o cuidado com os filhos a pessoas que não são da família. Em uma sociedade em que a população parece mais confiável, é mais tranquilo delegar esse tipo de tarefa ao professor da creche ou a uma babá.

“A confiança atua como um catalisador que facilita o processo de terceirização por meio da expansão de uma boa infraestrutura”, dizem os pesquisadores no artigo.

Isso quer dizer que, em sociedades que não inspiram credibilidade, o grau de escolaridade e a participação das mulheres no mercado de trabalho influencia diretamente no número de filhos que a população deseja ter.

O estudo, no entanto, traz dúvidas sobre a importância da confiança depositada no próprio país. Boas taxas de credibilidade na pátria explicam por que a Escandinávia apresenta taxas de fecundidade mais altas do que outros locais na Europa. Os países nórdicos oferecem benefícios como licença-maternidade longa e ajuda de custo para filhos pequenos. Mas países liberais, como os Estados Unidos, também apresentam índices mais elevados, o que mostra que nem sempre a confiança no país é determinante. Lá não existe, por exemplo, licença-maternidade obrigatória.

Já crises econômicas contribuem para diminuir o desejo de procriar. “Países do leste europeu têm baixas taxas de fecundidade e também de confiança, pois a economia não é tão próspera”, argumentam os cientistas.