22 de dezembro 2017

Quero na Escola

quero na escola
22 dezembro 2017

Quero na Escola

Projeto aproxima estudantes do ensino público a profissionais voluntários e já atendeu a dezenas de pedidos, como aulas de circo, política, feminismo e racismo
Texto por: Livia Deodato

Já imaginou ser estudante, poder pedir o que quiser aprender e ser prontamente atendido? Cerca de 4.000 alunos já tiveram esse prazer desde o lançamento do projeto Quero na Escola, em agosto de 2015. Aulas de circo, cerâmica, história em quadrinhos, política, feminismo, segurança na internet, racismo, jardinagem e muitas outras são requisitadas diariamente por alunos da rede pública de ensino de todo o Brasil.

Profissionais voluntários, interessados em ensinar e atender aos pedidos, se apresentam por meio da plataforma que os conectam. A última etapa é pedir autorização para a escola para que a aula solicitada possa ser dada no local. Pode-se ou não abrir um espaço na grade curricular, a depender do interesse de outros estudantes e da negociação com a escola.

A iniciativa surgiu de quatro jornalistas, Luísa Pécora, Cinthia Rodrigues, Luciana Alvarez e Tatiana Klix, as três últimas especializadas na área de educação. Em suas andanças pelo país, notaram uma grande necessidade dos estudantes. “Eles têm muitos interesses, que vão além do currículo escolar, e as escolas estão muito sobrecarregadas”, diz Cinthia. “Além disso, as pessoas que querem colaborar com os estudantes não ficam sabendo o que está se passando dentro dos muros da escola. Então, acredito que o Quero na Escola veio para ocupar essa lacuna.”

O que eles querem na escola?


Cinthia conta que, no início do projeto, os alunos não sabiam nem o que pedir. A partir de entrevistas e pesquisas realizadas na porta de algumas escolas públicas, as idealizadoras descobriram quais eram as dores, os sonhos, os motivos da falta de interesse na grade curricular obrigatória e outras questões levantadas pelos alunos. Nesse momento, também propuseram algumas opções de aulas e cursos que poderiam interessar a eles. “Lembro de uma estudante de 15 anos ter comentado comigo que não fazia sentido escrever sobre o tema proposto para a redação do ENEM, mas que tinha muito interesse em aprender escrita criativa”, conta. “Poxa, éramos quatro jornalistas tocando o projeto e pensamos: ‘nisso a gente pode ajudar’”.

Também ouviram os professores, cujos problemas centram-se especialmente na falta de reconhecimento geral – dos alunos, do governo e da sociedade. Foi pensando nisso que elas criaram o Projeto Especial Professor, que acontece pela primeira vez em outubro deste ano.  “Como lidar com adolescentes e melhorar a gestão de conflitos são alguns dos pedidos deles, que soubemos à época das entrevistas feitas antes do lançamento do projeto”, conta Cinthia. O foco do Quero na Escola, no entanto, é e sempre será o aluno. “Não queremos perder de vista o protagonismo dos estudantes.”

Quero na Escola engaja toda a sociedade


Quero na Escola foi lançado por meio de crowdfunding, que arrecadou inicialmente R$ 25 mil. Recentemente, o projeto conquistou o apoio do Instituto Unibanco, tornou-se ONG e pôde estruturar melhor a plataforma para assim ter mais alcance. Isso não significa que Cinthia e as demais idealizadoras tenham automatizado todo o processo. “O fator humano faz toda a diferença nas relações. Muitas escolas não levam em consideração os e-mails e fazemos questão de ligar para cada um delas, quando o aluno nos procura, faz um pedido e é atendido por um voluntário”, conta a jornalista.

Um dos grandes ganhos do Quero na Escola é estar aproximando cada dia mais os estudantes e a sociedade, destruindo de maneira simbólica os muros que os separam. Embora ainda haja muita burocracia em alguns casos, que faz com que a demora seja tanta a ponto dos alunos se formarem, o saldo é mais positivo do que negativo. A felicidade de apenas um aluno que sonhava em aprender cerâmica ou a de 200 estudantes que queriam discutir sobre racismo – e sentirem que havia ali adultos interessados no que eles estavam falando – tem valido o esforço.