06 de setembro 2017

Queremos soluções mágicas

queremos solucoes
06 setembro 2017

Queremos soluções mágicas

Sobre o autor: Nathalia Roberto

Sócia da Kind, empresa que já reuniu mais de 2000 mulheres. Estuda budismo desde de 2015, é professora formada pelo programa CEB (Cultivating Emotional Balance), é interessada no silêncio e em investigar o mundo interno para ajudar mulheres a cultivar mais liberdade.

Texto por: Nathalia Roberto

Sócia da Kind, empresa que já reuniu mais de 2000 mulheres. Estuda budismo desde de 2015, é professora formada pelo programa CEB (Cultivating Emotional Balance), é interessada no silêncio e em investigar o mundo interno para ajudar mulheres a cultivar mais liberdade.

“Tenho 54 anos e nunca consegui oferecer para as pessoas algo que realmente traga benefício a elas. Tenho pressa, é por isso que estou aqui.” Ouvi essa frase ao entrevistar uma mulher que chorava enquanto me falava sobre a sensação de ter desperdiçado tempo.

Há pouco mais de três anos, juntei-me à Clarissa, minha sócia, para criarmos a Kind, uma empresa que ajuda mulheres a cultivarem mais liberdade.

Nos últimos meses, entrevistei mais de 50 interessadas em participar de um dos nossos cursos, em que abordamos o empreendedorismo como tema principal. Cada hora de conversa me movia a experimentar sensações diferentes. Uma mistura de alívio, por perceber que não estamos sozinhas, e uma vontade de estar mais estável para poder ajudar as pessoas. Sim, estamos quase todas mal.

Vivemos cercadas por teorias de pessoas que passaram por uma grande transformação, atingiram o “sucesso” e querem nos ensinar a receita. Tudo isso pode ser útil de alguma forma. Mas desconfio que elas nos contam uma versão editada do processo. E isso só nos ajuda a entrar em contato com uma mente que vê o mundo inteiro fazendo coisas incríveis, enquanto nos sentimos perdidas, confusas, sozinhas e às vezes até empacadas (contrariando a primeira regra básica do empreender: faço, logo existo).

Conversar com essas mulheres me ajudou a perceber que não importa quanto temos no banco ou quais os nossos sonhos, estamos todas no mesmo barco:  queremos fazer coisas que façam sentido, aproveitar nosso tempo de vida, criar melhor os filhos, cultivar boas relações, ter mais equilíbrio, poder ajudar as pessoas. Mas esperamos que isso venha de soluções mágicas: um curso, um livro, um chá alucinógeno, uma viagem... E muito raramente paramos para criar intimidade com a nossa mente.

A má (ou boa) notícia é que só podemos ter uma certeza:  o negócio (e a vida) em algum momento vai dar errado. Não precisamos desenvolver uma grande teoria para enxergar isso, basta observarmos nossa própria experiência e a das pessoas ao redor.

Quando decidimos criar a Kind, eu tinha um plano, algum dinheiro guardado e uma vontade autocentrada de ser bem-sucedida mais uma vez na vida. Não preciso contar aqui uma grande história para dizer que tudo aconteceu de forma bem diferente do que imaginei. Hoje a empresa vai bem, mas senti culpa, fiquei um ano sem ganhar nenhum dinheiro, gastei quase tudo que tinha, passei noites sem dormir e minha energia foi praticamente ao chão.

Empreender, pra mim, foi um gatilho para iniciar uma investigação interna. Esta dor me despertou a curiosidade de buscar um caminho em que seja possível não estar tão vulnerável à impermanência das coisas; em que eu possa deixar de focar em mim para oferecer ao outro. Isso muda tudo. Não é mágico, em dois anos vamos avançar muito pouco. Mas me parece o único possível.

Poderíamos trocar o empreendedorismo pelo casamento, a gravidez, o fim do namoro, a viagem... não importa a quais bolhas estamos apegadas, podemos buscar estabilizar nossa energia para conseguir soltar os sonhos individuais e trilhar um caminho mais amplo.  Não deveríamos empreender fazendo algo diferente do que aspiramos fazer na vida: cuidar de nós mesmas, ajudar o outro, ser paciente, aprender a receber e nos divertir no processo.