18 de outubro 2017

Quase da família

empregada domestica
18 outubro 2017

Quase da família

A forma como lidamos com empregados domésticos mostra o quanto nossa sociedade ainda precisa evoluir
Sobre o autor: Stephanie Ribeiro

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Acredita no papel fundamental do ativismo negro interseccional e que temas adjacentes à experiência da mulher negra no mundo precisam ser difundidos. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, como homenagem ao seu ativismo em prol das mulheres negras.

Texto por: Stephanie Ribeiro

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Acredita no papel fundamental do ativismo negro interseccional e que temas adjacentes à experiência da mulher negra no mundo precisam ser difundidos. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, como homenagem ao seu ativismo em prol das mulheres negras.

Certa vez, uma amiga me disse que não conseguia dar conta de limpar sua casa. De fato, seu imóvel era grande demais. Então, comecei a pensar em quantos projetos eu já tinha desenhado, como arquiteta, sem me dar conta de que eu cogitava a existência de empregadas domésticas como se fossem um objeto de brinde.

A partir disso, passei a questionar nossa relação com os trabalhadores domésticos. Seria uma necessidade de fato ou uma criação pela ideia de que sempre teremos acesso a essa mão de obra?

Muitas pessoas nunca cogitaram limpar a própria sujeira. Quando viajam ou vão morar em países desenvolvidos, chocam-se com a falta de alguém disponível para limpar a casa a um preço baixo. Não percebem que esse fato ainda é comum no Brasil por causa das desigualdades sociais.

Eu realmente acho que já deveríamos ter superado o trabalho doméstico nos moldes atuais no Brasil. É estranho termos tanta mão de obra para esse fim e oferecer uma remuneração que não possibilita a esses trabalhadores um padrão de vida semelhante ao nosso. É nesse “detalhe” que mora a lógica exploratória, em que o trabalho doméstico não é indigno, mas o sujeito que trabalha em funções domésticas é visto como cidadão de segunda classe. Assim como sua força de trabalho, já que a remuneração exprime esse juízo de valor.

A prática ainda é bem comum no Brasil, infelizmente. Neste ano uma mulher anunciou uma “vaga de trabalho” em suas redes sociais, em que propunha a troca de serviços de limpeza e de babá por casa e comida. Por trás daquele discurso moderninho postado no Facebook, ela reafirmava uma prática antiga e exploratória de mão de obra pobre, feminina e de maioria negra no Brasil que, historicamente, tem no trabalho doméstico uma manutenção da lógica escravocrata.

O discurso travestido de preocupação com o outro e de manutenção de uma relação com pessoas que são tidas como “quase da família” ajuda a reforçar uma lógica de exploração. Não à toa, espectadores daqui e de fora do Brasil se chocaram com o premiado filme “Que Horas Ela Volta”, de Anna Muylaert. A obra mostra claramente como ainda são tratados muitos empregados domésticos no Brasil.

Toda vez em que o assunto trabalho doméstico aparece, muitas pessoas usam o mesmo argumento, dentro dos recortes de classe, raça e gênero: “Ah, mas ela trabalha em casa faz tanto tempo que é quase da família”.

Somos ainda o país que mais tem trabalhadores domésticos em atuação segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Estima-se que haja 7,2 milhões de empregados domésticos, sendo 6,7 milhões de mulheres e 504 mil homens. O mesmo levantamente, realizado em 117 países, indicou um dado alarmante: 93% das crianças e dos adolescentes envolvidos em trabalho doméstico no Brasil são negros.

Ser “quase da família” não dá garantia de carteira assinada, direitos trabalhistas, férias e um salário que convém com o seu esforço. É, portanto, uma grande desculpa para legitimar a negação de direitos trabalhistas e a dignidade de quem trabalha em funções domésticas no país. Empregadas “quase da família”, em sua maioria negras, estiveram e ainda estão presentes no dia a dia de muitos intelectuais, feministas e ativistas que se dizem preocupados com os trabalhadores, enquanto reafirmam lógicas exploratórias no campo privado.

Ser “quase da família” tampouco garante o fim da necessidade de usar uniforme no clube, shopping e às vezes até na praia. Nenhuma outra pessoa da família tem que dormir num quarto pequeno, sem ventilação, nos fundos, usar a porta de serviços ou só almoçar depois de todos os membros da casa.  

No que diz respeito ao meu lugar como feminista negra, venho pautando recorrentemente que, enquanto muitas de nós falam de luta pró-mulheres da porta para fora, dentro de casa lógicas racistas e machistas são mantidas. Seria impossível para algumas mulheres alcançar determinados espaços se não tivessem em suas casas uma “mãe preta”, “quase da família”. Seria impossível para alguns homens levar a vida que levam se eles não se ausentassem da divisão de tarefas ou do trabalho doméstico.

Muitas dessas pessoas nunca refletiram se realmente precisariam ter empregadas domésticas ou se apenas contam com esses funcionários porque no Brasil é comum. E continuará sendo enquanto todos nós fecharmos o olho para como nossa cultura que enfatiza lógicas opressoras.  Chimamanda Adichie diz em seu livro “Sejamos Todas Feministas”: "A cultura não faz as pessoas. As pessoas fazem a cultura. Se uma humanidade inteira de mulheres não faz parte da nossa cultura, então temos que mudar nossa cultura".

Se estamos abertos para rever o que deu errado até agora nesta sociedade, precisamos enxergar a realidade como ela se põe. A existência de uma parcela enorme da população destinada à porta de serviços, ao quartinho dos fundos e a salários baixos diz muito por que falhamos até aqui.