25 de outubro 2017

Quando todo mundo pode

empatia (1)
25 outubro 2017

Quando todo mundo pode

É preciso se colocar no lugar do outro para entender seu sofrimento e sua alegria e, dessa forma, condicionar as grandes mudanças do mundo
Sobre o autor: Dora Ehrlich

É estudante do ensino médio e milita principalmente pela educação, pela igualdade de gênero e pela democracia. Nasceu em São Paulo, mas também é dos mares e das cachoeiras. Borda, dança, pula carnavais, escreve, viaja e luta.

Texto por: Dora Ehrlich

É estudante do ensino médio e milita principalmente pela educação, pela igualdade de gênero e pela democracia. Nasceu em São Paulo, mas também é dos mares e das cachoeiras. Borda, dança, pula carnavais, escreve, viaja e luta.

A solidariedade deveria ser um valor global, mas não é. Segundo o World Giving Index de 2017, o país mais solidário é Myanmar, onde só 65% das pessoas entrevistadas, ao longo de 2016, declararam ter ajudado um estranho, doado dinheiro ou feito trabalho voluntário no mês anterior à pesquisa. O Brasil é o 75º colocado, com 32%.  

Falamos do que deveria ser um valor ensinado e praticado de forma geral e livre. Tudo bem, muitos valores deveriam ser ensinados para todos os bilhões de seres humanos que habitam o planeta Terra. Mas nem todos esses valores são um começo para a igualdade. De mãos dadas com a empatia, a solidariedade é essencial para que a gente saiba a quem ajudar, como e quando.

Está aí a resposta para a pergunta que nos fazemos a vida inteira: por que a gente nunca sabe o que fazer quando alguém que conhecemos precisa de ajuda, de uma transformação na vida ou até mesmo de direitos?

Precisamos começar falando sobre o que é a empatia. É se despir das suas ideologias, das suas posses, das suas faltas, das vontades, enfim, para ajudar outra pessoa que é, com certeza, muito diferente de si. Porque as semelhanças entre os seres humanos são ilusórias. A gente é muito diferente um do outro, e isso não é, de jeito nenhum, algo negativo. É agregador. Isso possibilita trocas transformadoras e deflagra conflitos que, uma hora ou outra, mostram seus aspectos positivos. E quem tem empatia tem a habilidade de praticar a solidariedade mais verdadeira e profunda possível.

Com a empatia, a solidariedade deixa seu caráter impessoal e vai para o contato humano mais avançado que existe: a ajuda. E não é uma ajuda de caridade, mas uma “ajuda amiga”, por mais brega que soe esse termo. É conhecer e entender profundamente as pessoas que precisam de ajuda. E fazer trocas: mostrar que o outro lado também precisa de ajuda. Ajuda não só é comida, cobertores e empregos, mas também é conversar, acarinhar, dançar, cantar, escrever e praticar qualquer outra forma de amor e escuta.

O que complica tudo isso é que, segundo alguns preceitos duvidosos, só metade de todo mundo pode ser solidário. Mais exatamente, neste exato momento, 3,6 bilhões de animais políticos podem praticar a solidariedade, segundo as normatividades sociais. Aparentemente, só as mulheres têm autorização para isso. Você já viu um líder do poder executivo homem tomar conta das campanhas filantrópicas, dos projetos sociais e das ONGs de sua cidade, estado ou país? Adianto que não viu  Se viu, esse cara foi qualificado com adjetivos de gosto duvidoso.

MIchelle Obama, Ruth Cardoso e muitas outras primeiras-damas já organizaram projetos sociais ligados ao governo dos maridos. Mas nenhuma delas esteve realmente à frente dos estados, cidades e países governados por eles.

“Sobraram” para as mulheres papéis considerados inferiores. Um projeto ali e outro aqui, para, além de ajudar pessoas, mostrar que o governo do marido se importa com elas. Não é novidade que essa tem sido a função de muitas mulheres pelo mundo: ver suas ações trazendo fama a seus maridos, filhos e irmãos, e não a elas mesmas.

Levando em conta muitas variáveis, estar à frente de um projeto social pode ser tão importante quanto descobrir uma fórmula científica ou escrever um livro. Mas isso é considerado função secundária, desimportante. Aliás, historicamente, o patriarcado sempre teve certa ilusão de que as funções culturalmente exercidas por mulheres eram menos importantes do que as que eles exerciam.

Basta ler o noticiário para concluir que desenvolver projetos sociais e incentivar a prática de empatia não são menos urgentes. Lutar por igualdade e pensar ações para que isso aconteça não é nada fácil. E se os homens, que desempenham outras funções socialmente, doassem tempo para a prática da solidariedade? Seríamos uma sociedade menos odiosa, com menos pobreza, tristeza, necessidade.

É claro que toda a responsabilidade sobre esse assunto não deve cair nas costas só dos homens. A sociedade tem um poder incrível que não usa completamente nem como deveria. A artista Patti Smith já disse que “as pessoas têm o poder”, na canção "People Have the Power".

Já passou da hora, depois de centenas de anos, de praticar a faculdade de se colocar no lugar do outro para entender seu sofrimento e sua alegria e, dessa forma, condicionar as grandes mudanças do mundo. Voltando para a igualdade lá do início, de que adianta um valor social ser delegado apenas à metade da população? Eu confio que nós, mulheres, fazemos isso muito bem, mas, como disse Patti Smith, todo mundo pode e deve saber fazer também.