19 de janeiro 2018

"Quando me descobri negra"

Bianca Santana
19 janeiro 2018

"Quando me descobri negra"

A escritora, professora, jornalista e taróloga paulistana conta como foi o processo de produção do seu livro ‘Quando me descobri negra’ e de como a literatura é uma forma de resistir ao racismo institucionalizado que invisibiliza mulheres negras
Texto por: Debora Stevaux

“Tenho 30 anos, mas sou negra há apenas dez. Antes, era morena. Minha cor era praticamente travessura do sol”. Assim começa o livro ‘Quando me descobri negra’, publicado em 2015 pela escritora, jornalista, colunista da revista CULT e mestra em educação pela Universidade de São Paulo (USP), Bianca Santana, 34 anos.

A obra de quase cem páginas, vencedora da edição de 2016 do Prêmio Jabuti na categoria ilustração, não surpreende somente pelos desenhos feitos por Mateu Velasco: ela reúne experiências pessoais da autora e de pessoas próximas a ela sobre a negritude.

O livro aborda de forma singela os percalços para o reconhecimento da própria negritude, que vão desde o uso de turbante até a falta de diálogo em casa sobre as origens afrobrasileiras. “Era morena para as professoras do colégio católico, para os coleguinhas – que talvez não tomassem tanto sol – e para toda a família que nunca gostou do assunto. “Mas a vó não é descendente de escravos?”, eu insistia em perguntar. “E de índio e português também”, era o máximo que respondiam. Eu até achava bonito ser tão brasileira. Talvez por isso aceitasse o fim da conversa”, escreve a jornalista na obra.

Indicada como uma das mulheres inspiradoras pela ONG dedicada ao empoderamento feminino Think Olga, na categoria de literatura, Bianca é uma das mais fortes vozes da literatura feminina negra dos dias de hoje. Militante não só pelos direitos das mulheres e dos negros, a paulistana também faz parte do levante quando a pauta é a educação. Em entrevista ao projeto O Valor do Feminino, ela conta como foi o processo de dar à luz seu livro e como enxerga a produção literária protagonizada, hoje, por uma parcela da população a quem sempre foi negado o direito de estudar.

Quando e como você sentiu a necessidade de escrever o seu livro 'Quando me descobri negra'?
Bianca Santana: Na verdade, não foi uma necessidade de escrever o livro em si, foi um processo mais complexo de tentar me compreender. O insight aconteceu quando fui jogar búzios em um Pai de Santo e ele me falou que eu tinha que escrever um texto por semana e publicar. Achei aquilo muito louco porque eu já escrevia textos jornalísticos, acadêmicos, e pensei 'Mas o que eu vou escrever?'. E ele me disse para escrever sobre sonhos, desejos, enfim, o que eu achasse que deveria escrever.

Menos de dez dias depois, um amigo meu que é editor do Huffington Post me convidou para ter um blog. Desses textos que eu ia escrevendo na angústia, acabei estruturando o blog, e mais tarde a editora Renata Nakano teve ideia de estruturar num livro. Então, eu não tive a ideia de fazer um livro, nem senti a necessidade formatada dessa forma. Foi algo mais processual.

Hoje, nós temos vários nomes de destaque de mulheres negras na literatura, como a Conceição Evaristo, a Diva Guimarães e você. A partir de quando você começou a perceber que escrever é um ato de resistência e descoberta da negritude?

A partir dessa experiência da escrita e do que ela significou para mim e para as mulheres negras que me liam e que me escreviam. Percebi que escrever era um processo muito mais coletivo do que individual, porque aqueles textos que eu publicava faziam sentido para muita gente, e não só para mim. A nossa história de vida é uma história coletiva e os silenciamentos também. A gente não ter lido na infância livros que abordassem essas temáticas é um sintoma desse silenciamento. Foi então que comecei a ler quem escrevia sobre esse silenciamento, sobre a falta das nossas vozes na literatura.

Então, comecei meu projeto de doutorado, em que estou mergulhada na qualificação, mapeando uma série de escritoras negras desde 1859, quando foi publicado o primeiro romance, 'Úrsula', por uma mulher negra, a Maria Firmina dos Reis. E é uma produção intensa, eu estou enlouquecida construindo essa linha do tempo, porque tem muita coisa publicada, mas invisível. Quando a gente vai ler análises sobre o assunto, as pessoas dizem que têm poucos livros de mulheres negras. É óbvio que se for fazer um comparativo com os homens brancos, elas são poucas, mas existem. É óbvio que isso tem a ver com o machismo, o sexismo, com a desigualdade de classes. Mas a gente consegue traçar hipóteses mais complexas. De qualquer forma, é muito transformador acessar essa literatura, ler o que a gente produz.

De que forma você acredita que o racismo institucionalizado impede que mais mulheres negras escrevam profissionalmente e ocupem a academia?

Por muito tempo, o racismo institucionalizado nos tirou a possibilidade de acessar a educação formal. Então, quando você olha para os dados do Censo brasileiro das décadas de 1940, 1950, você vê que mais de 70% da população era alfabetizada. E dentre as mulheres negras, só 15% estavam alfabetizadas. Isso significa que há 60 anos, nós, mulheres negras, éramos sequer alfabetizadas, não tínhamos acesso a um instrumento básico da língua escrita. Hoje, nós somos mais escolarizadas que os homens negros, somos alfabetizadas e estamos na escola, mas nos falta muita condição para escrever. Falta acesso a bens culturais, ou seja, dinheiro para comprar livros, para ir ao teatro, para assistir a shows.  

É esse racismo que nos impede o acesso, porque nos coloca numa posição de subalternidade. Ao mesmo tempo em que as mulheres negras vencem essas barreiras todas, escrevem e produzem, muitas vezes são "invisibilizadas". E é quando o racismo nos coloca em determinados espaços e lugares. Então, é como se falassem para a gente: 'Mulher negra e escritora? Não! A mulher negra está aqui para ocupar outro papel.' Para essas pessoas, a gente está aqui para servir, para servir o café, para limpar, para ocupar alguns espaços, que não são os de escritora. E se alguma mulher quer ocupar esse papel, ela é invisibilizada. Você não tem as obras das mulheres negras reunidas em grandes coletâneas. É muito nefasto como o racismo opera, ele não tem só uma forma de fazer, tem várias. E esse racismo institucionalizado nos coloca nessas posições de subalternidade, não nos permite ocupar outros espaços de visibilidade quando a gente produz literatura. Mas mesmo assim estamos fazendo. O que acaba por tornar a literatura uma arma contra o racismo.