06 de setembro 2017

Quando descobri que eu era machista

machista
06 setembro 2017

Quando descobri que eu era machista

Sobre o autor: Gustavo Tanaka

É escritor, empreendedor e facilitador de processos de autoconhecimento. Iniciador do Brotherhood, um movimento que desenha experiências de autoconhecimento para homens para criar uma nova visão de masculinidade.

Texto por: Gustavo Tanaka

É escritor, empreendedor e facilitador de processos de autoconhecimento. Iniciador do Brotherhood, um movimento que desenha experiências de autoconhecimento para homens para criar uma nova visão de masculinidade.

Minha primeira sensação foi de injustiça.

"Machista, eu?! Como ousa dizer algo desse tipo?!

Eu nunca fui machista. Tenho mãe e irmã. Sempre quis o melhor para as mulheres."

E aos pouco ela foi me mostrando que não era bem assim.

A cada novo argumento que ela me apresentava, eu sentia mais raiva. No fundo eu sabia que a raiva não era dela. Era da verdade. E de mim mesmo. Era por saber que o que ela dizia fazia sentido.

E aquilo foi como um soco no estômago.

A partir daquele momento, comecei a tomar consciência do meu comportamento com as mulheres em diferentes situações.

E, quanto mais eu observava, mais descobria o machismo escondido, sutil.

Se você conversar com um homem, é muito provável que a grande maioria diga que não é machista. Assim como eu dizia.

Mas o machismo mora nos detalhes. Em comportamentos sutis.

Estava numa reunião com duas mulheres e dois homens. E eu percebi que os momentos em que eu me desconcentrava, em que olhava no celular ou levantava para pegar mais café eram somente quando uma mulher estava falando. Quando um homem falava, eu ficava presente e atento.


Que parte de mim acredita que o que uma mulher tem para falar é menos importante do que um homem tem para dizer?

Doeu aceitar. Me senti o pior dos seres humanos.

E aí comecei a prestar atenção nesse comportamento em outros homens, em outras reuniões. E isso se repetia todas as vezes. Quase todas as vezes em que um homem se dispersa numa reunião tem uma mulher falando.

Percebi esse machismo sutil em vários comportamentos. Ao elogiar mais a ideia de um homem, ao tentar tomar a frente e explicar para o grupo o que a mulher queria dizer, ao tomar partido de um homem numa discussão.

E a cada novo machismo percebido, eu via que era algo inconsciente. Que eu não aprendi em nenhum lugar.

Ninguém me ensinou que eu tinha que prestar mais atenção ao homem ou tomar partido dele. Foi uma espécie de aprendizado invisível. Daqueles que acontecem no nosso subconsciente por observação do nosso meio, simplesmente por ter nascido num país ocidental machista, educado por uma cultura oriental machista.

Sou de São Paulo, neto de imigrantes japoneses. Estudei nas melhores escolas de São Paulo, cursei administração na USP, aprendi a trabalhar no mundo corporativo em uma multinacional americana e depois mergulhei no mundo do empreendedorismo.

O machismo esteve presente na minha vida em todos os lugares por onde passei. E eu absorvi esse comportamento quase por osmose.

Mas hoje escolho não ser mais assim.

Escolho ter mais consciência dos meus atos. E de como o que eu faço contribui para um sistema patriarcal que não nos ajudar a criar um mundo melhor.

E como faço para mudar isso?

Para mim, a chave está na ressignificação do que é ser homem.

Aprendemos que homem não chora, que tem que ser forte, provedor e não demonstrar sentimentos.

E, quando aprendemos isso, negamos uma grande parte do que somos. Todos nós temos uma energia masculina e feminina. Independente de gênero ou orientação sexual. São duas polaridades da mesma energia. Yin e Yang.

E quando acreditamos que homem não pode demonstrar sentimento ou chorar, estamos negando a nossa parte feminina. E, assim, vivemos pela metade. Vivemos um masculino distorcido e um feminino reprimido.

A cura do masculino de cada homem está na aceitação da sua energia feminina.

Ao libertar o feminino que temos dentro de nós, começamos a ter contato com uma parte de nós com maior sensibilidade. E essa sensibilidade nos ajuda a perceber os detalhes, o sutil. Nos ajuda a ter mais empatia e entender o outro. Quando entendemos o outro, conseguimos perceber o que é que fazemos que machuca o outro.

E aí podemos perceber e curar o machismo que mora nos detalhes...

A cura da sociedade começa pela cura de cada um de nós.