03 de janeiro 2018

Qual é a angústia do homem contemporâneo?

angustia homem
03 janeiro 2018

Qual é a angústia do homem contemporâneo?

O psiquiatra Luiz Cuschnir fala sobre os conflitos e as dificuldades que o homem enfrenta para reencontrar seu lugar na sociedade
Texto por: Aretha Yarak

Quais as angústias que afligem o homem do século 21? Há quase trinta anos vasculhando o universo masculino, o psiquiatra e psicoterapeuta Luiz Cuschnir acredita que elas estejam enraizadas nos estereótipos criados ao longo das décadas. “Ele tem um dilema: se cumpre com os estereótipos que o tornam artificial e distante da sua verdade ou se desiste do falso caminho e cria um novo e mais condizente com sua verdade”, afirma.

Luiz é autor de diversos livros sobre o universo masculino e as diferenças e particularidades da dinâmica homem/mulher, como “Por Dentro da Cabeça dos Homens”, “A Relação Homem & Mulher” e “Jeito de Falar”. É ainda um dos criadores e atual coordenador do Gender Group do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. O núcleo de atendimento é especializado em tratar os conflitos que surgem com as transformações dos papéis do homem e da mulher na sociedade, tema que ele aborda nesta entrevista.

O que significa ser homem no século 21?
É estar preparado para as constantes mudanças do que se espera dele e do que ele próprio se vê preparado. Quando escrevi meu livro mais recente, “Jeito de Falar”, quis alertar as mulheres que elas também precisam perceber que nem sempre o que elas emitem como desejo, falando ou não, corresponde ao que eles conheceram ou viram nos modelos que tiveram. Assim, também não conseguem expressar o que acontece dentro deles, e acabam guardando muito mais do que elas imaginam.

Qual a grande angústia do homem moderno?
Vencer suas crenças limitantes, criadas ao longo da vida e relacionadas com o papel do herói, da autoridade, do provedor e do protetor. Com as exigências de que precisa satisfazer o que ele acredita que o mundo espera dele, acaba se vendo em um caminho difícil: ou cumpre com os estereótipos que o tornam artificial e distante da sua verdade ou desiste do falso caminho e cria um novo e mais condizente com sua verdade. Além disso, há a percepção de que se espera que ele siga mantendo um falso propósito, a partir de uma proposta de reprimir aquilo que realmente deseja.

O homem virou o sexo frágil?
Utilizar conceitos reducionistas ou binários, nos quais se responde algo de maneira tão restritiva (além do que, já considero as generalizações sempre muito relativas e questionáveis a todo instante) chamando um outro de frágil, só pode ser considerado a partir de pressupostos e em relação ao lugar de onde se olha. Não os vejo como frágeis ou algo parecido. O homem ainda detém uma série de privilégios, além de serem valorizados por atributos  masculinos. Isso os coloca em situações em que precisam se ultrapassar, e isso só lhes fará bem se conseguirem se manter nos próprios padrões (que não os femininos) de lidar com o mundo.

Existe um comportamento masculino padrão? O homem ainda sabe se comportar como homem?
O padrão masculino muda a todo momento e se amplia para novas experiências, principalmente as relacionadas a como vão corresponder às suas atividades, integrando o que sentem e vivenciam em seu universo emocional. O homem não precisa viver as fantasias femininas relacionadas ao comportamento, moda, estilo de vida, vivências com o próprio corpo, estética etc.  Ele pode continuar gostando das conversas de homem, das atividades que o solicitem mais fisicamente, da sua maneira de se expressar verbalmente e corporalmente, da maneira que desejam conquistar a sua realização. Tudo isso de uma maneira masculina. Há os que precisam da distância e do isolamento da mulher para se perceber livres e em contato com seu mundo interno. Em geral, os gostos pessoais atendidos são os grandes diálogos que fazem consigo mesmo e que não querem compartilhar com a mulher. Veja que, às vezes, há uma pressão da sociedade para que eles se igualem às mulheres, como se o seu comportamento fosse errado e o certo fosse ser feminino. Mas as mulheres, no fundo, não buscam a igualdade por aí. Elas querem ser reconhecidas e igualmente consideradas, mas não confundidas com eles.

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Dentro de todas essas mudanças sociais, qual o novo papel que o homem assume hoje na sociedade?
Isso ainda está em construção, mas ele busca não esconder mais o prazer de ser quem realmente é. Isso é possível quando ele pode escolher seu papel: ser o herói das mulheres, do mundo, mostrar-se mais próximo das pessoas sem tantas máscaras. Mas, ao mesmo tempo, também se permite ter o direito de ficar à distância e mais reservado, se assim desejar, e não mais para cumprir o papel do machão que supostamente deveria ser. O homem também está rejeitando o papel de vítima, mas busca um caminho diferente da posição onipotente machista, cheio de cobranças e que os torna perversos com as mulheres.

Como o homem vem enfrentando os novos desafios emocionais e culturais?
Ele está mais à vontade com seu mundo interno e se permite indagar com mais sinceridade quais os caminhos quer seguir. Também pode ter mais opções, a depender da amplitude individual que cada um se permite. Alguns, infelizmente, ainda não conseguem encontrar uma linguagem para se comunicar e acabam se escondendo atrás do que o mundo exterior solicita, sem perceber que são reféns de exigências. Estes, não conseguem contar com seu mundo interno, onde reside o emocional, para balizar e confirmar essas escolhas.

Ele está preparado para lidar com o empoderamento feminino?
Isso ainda não é algo tranquilo para o homem. Eles, muitas vezes, não conseguem identificar o que precisa ficar no lugar do autoritário, que coincidia com o que era ser masculino: para ser homem é preciso mandar! Também há uma ambivalência no comportamento da mulher, que os deixa confusos. Ela quer independência e o reconhecimento de poder viver um mundo mais livre, ao mesmo tempo em que também espera que o homem tenha comportamentos que os coloquem como fortes, suportivos e racionais.

O homem possui hoje meios para entender o que está por trás do desejo feminino?
Para conseguir isso, é preciso desenvolver uma habilidade muito difícil, que é a de se colocar no imaginário e na alma femininos. Alguns homens até conseguem isso em parte, mas as próprias necessidades inerentes o universo masculino os impedem de vivenciar esse lado feminino tão plenamente.

Então, a mulher está correta quando diz que o homem não a compreende? É possível melhorar essa comunicação?
Antes, é preciso deixar claro que comunicar não significa transformar, nem acatar totalmente um outro lado tão oposto e diferente das próprias necessidades. O desafio é respeitar sem precisar se transformar e se manter íntegro, para também se respeitar. Aceitar não significa abdicar a própria essência. Essa intercessão só ocorre de um jeito satisfatório quando os dois não se machucam na convivência. Falo muito sobre isso no livro “Jeito de Falar”: respeitar o silêncio do outro é crucial para a aceitação do outro tal qual ele é. É muito importante deixar que os sentimentos fluam pelos gestos e expressões mais sutis, reconhecendo-os como doações e tendo gratidão pelo que está recebendo do outro.

Qual a expectativa do homem em relação à mulher e ao relacionamento?
Ele espera uma mulher que tenha atitudes de cumplicidade nas conquistas em relação ao mundo, ao mesmo tempo em que o acolha sendo seu porto seguro. Uma mulher que olhe para fora do relacionamento, não só para o que ele pode lhe proporcionar, e que traga material que encontra no mundo para enriquecer a relação, mas sem exigir que ele a supere, nem que seja seu tutor. O homem busca também uma mulher que permaneça diferente dele, que o seu feminino evidencie sua diferença, para que ele possa experimentar o seu masculino e tenha aceitação na maneira como quer vive-lo. Em um relacionamento, ele quer diálogos que não o constranjam, nem o obrigue a mudar, mas que respeito os diversos pontos de vista de cada um. Espera que existam atitudes de busca respeitosa entre eles, e que se componha a música que irão tocar, sem a repetição estereotipada das obrigações aprendidas.

Como podemos preparar os garotos para se tornarem homens mais adaptados às mudanças sociais?
Eles já crescem ao lado de garotas com valores diferentes dos mais tradicionais. As mães também já aceitam com mais liberdade suas necessidades, assim eles são criados com mais respeito a essas necessidades. Mas essa liberdade do poder ser “tudo” pode deixá-los sem parâmetros mais claros e acabar os confundindo. O exercício de avaliação da verdade interna de cada um precisa ser acompanhado de valores éticos e também psicológicos, mostrando as diferenças de atitudes e suas consequências.

Com o empoderamento feminino e a perda do papel "macho" e "provedor", como o homem passa a enxergar seu papel dentro de um casamento e da família? Ele está preparado para isso? Caso não, quais seriam as possíveis consequências na vida prática?
Essa perda do “macho” vem ocorrendo bem mais aceleradamente que o de “provedor”. Os aspectos machistas ainda aparecem, mas de uma maneira muito diferente em relação às gerações anteriores. Para estes, o “macho” era o que os identificavam e estava fortemente confirmado no seu masculino. Hoje, isso é visto om mais reservas e, muitas vezes, até se ridicularizam por esperarem o que já não cabe mais a eles. Mas ainda é esperado e aplaudido pelas mulheres e pela sociedade em geral a ideia de que eles precisam dar certo e obter sucesso, principalmente o financeiro, além de terem mais capacidade de suportar riscos físicos e atividades braçais do que as mulheres. O poder da mulher cresce, se equipara ao do homem quando ele está presente e o supera quando não está. O poder emocional que ela exerce em todos, esteja ele presente ou não, é incontestável e isso não tem como se comparar. A presença importantíssima da mulher como aglutinadora ou desmembradora de uma família cria valores em todos que permanecem e se multiplicam em gerações. Ele se permite aprender com ela e se integra na família de modo que consegue aproveitar mais emocionalmente o que ela tem a oferecer. Claro que essa miscigenação é aproveitada por todos e, mesmo que a família não permaneça mantida originalmente, o reconhecimento das características de cada um se torna mais óbvio e compartilhado.