03 de janeiro 2018

Qual é a angústia da mulher contemporânea?

mulher contemporanea
03 janeiro 2018

Qual é a angústia da mulher contemporânea?

A psicanalista Maria Homem fala sobre aflição, desassossego e desamparo das mulheres que se desdobram em inúmeros papéis
Texto por: Debora Stevaux

Substantivo feminino, a palavra angústia, segundo o dicionário Michaelis, pode ser definida como a redução do espaço e do tempo, carência, falta e ainda como um sentimento que se liga a uma sensação interna de opressão ou desespero, também um sentimento de inquietação em relação a algo ou alguém. Aflição, desassossego, temor.

Na psicologia, segundo os ditames freudianos, a angústia pode assumir duas facetas: a do pânico e a da ansiedade. E embora não existam estudos científicos que apontem para um sentimento de angústia comum à maioria das mulheres, não é incomum ouvir de bocas femininas, das mais diversas faixas etárias, que é preciso “dar conta de tudo”. E esse “dar conta” implica numa jornada múltipla, em inúmeras responsabilidades e um sentimento frequente de que não foi possível resolver tudo.

O sentimento de totalidade exaustiva, de render cem por cento,tem como um dos resultados a angústia da mulher contemporânea. Maria Homem toca nesses pontos nesta entrevista. Maria é psicóloga e psicanalista, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa Diversitas, ligado à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e professora da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP).


De que forma podemos analisar a angústia da mulher contemporânea sob o espectro do desempenho das múltiplas funções?
O fato de as mulheres desempenharem vários papéis implica na necessidade de sempre ter que lidar com não poder fazer tudo o tempo inteiro. Temos um sonho humano de completude, totalidade, de dar conta de tudo. Mas é impossível, sempre vai faltar algo da lista. Hoje, nós temos aplicativos que fazem listas e a gente até tenta ser ajudado pela tecnologia para dar conta de fazer mais coisas. Vivemos inseridos num paradigma de produtividade, somos levados a imaginar que devemos dar conta de tudo. Mas por qual razão deveríamos fazer tantas coisas? Será que realmente precisamos nos frustrar tanto com a não totalidade? Como podemos aceitar a não totalidade e a não produtividade se são ordenações conscientes e inconscientes da nossa época? Quase todas as funções que são desempenhadas hoje no mercado de trabalho demandam uma inteligência operacional, sempre visando a produtividade. Mas não vemos que nós mesmos nos damos o chicote e a punição. Como não ficar angustiada diante de tantas cobranças, que, muitas vezes, partem de nós mesmas?


Você acredita que essa angústia também surge porque as mulheres, mesmo que de uma forma diferente nos dias de hoje, buscam a aprovação dos homens?
Sim, mas não só. Porque antes de a mulher ser para os homens, ela busca aprovação de todos.  Essa é uma teoria muito simplista: assim que somos colocados no mundo, somos colocados diante do outro. Aprendemos, desde cedo, a buscar a aprovação do outro. A condição humana é uma condição muito peculiar. Somos um tipo de bicho que não nasce pronto  e demora muito para “aprontar”. Estamos nos formando diante de uma alteridade, do outro, que funciona nesse lugar de mestre, de modelo, de paradigma, que diga “isso mesmo”, “muito bem”, quando desempenhamos bem uma tarefa. Isso faz parte da constituição humana: como se autonomizar, conseguir uma autonomia em relação ao outro? É um desafio contínuo. Porém, na nossa cultura, o lugar do masculino é sempre o de uma projeção maior, do saber mais do que o do feminino, é também o lugar de desejo. Enquanto que o da mulher é o de um objeto a ser desejado.  É necessário que a mulher se faça desejável para que o homem a deseje. Por isso, a mulher está duplamente presa, duplamente colocada nessa alteridade. Enquanto humanos, precisamos todos da aprovação coletiva, veja como utilizamos as redes sociais e a forma primária com que realizamos isso, isso revela uma aprovação e uma punição, sempre baseada e monetizada em likes. A mulher se coloca na condição de existir se o homem a deseja. O que é ser mulher? É aquele ser que consegue o olhar do homem.


Mas isso está mudando, certo?
Hoje, raramente, o sonho das vida das mulheres é ter um homem que as deseja. Antes, as meninas eram criadas para casar, a grande libido delas estava ligada a um lugar social, a uma história de contos de fadas. Hoje, as mulheres estão colocando esse sonho, que nem tem tanto esse valor simbólico mais para frente na linha do tempo de suas vidas. Ter filhos, hoje, independe dos homens. Nos países mais desenvolvidos, cada vez mais mulheres estão optando por terem e criarem seus filhos sozinhas, através de métodos avançadíssimos de fertilização.


De que forma as masculinidades tóxicas interferem nessa angústia?
Não está fácil para os homens também, o masculino também é difícil. O cara tem que ser forte, o que remete àquela história muito antiga do poder, da força, da dominação, da contenção dos afetos, de uma racionalidade, de uma operatividade que são valores que não necessariamente são próprios do homem, pois todos poderíamos desenvolver. Ser macho é ser um cara que tem a potência que é colocada como maior se o outro não tem possibilidade de escape. É dessa maneira que se forma a toxicidade, a patologia. E isso é ruim em dois pontos: primeiro, porque pode descambar para a força física e para a internalização das dores e angústias. Essa força física nunca é sempre física, mas também econômica, política etc. Não há como negar que estamos vivendo uma crise do paradigma patriarcal, do lugar tradicional dos homens, mas há uma queixa de todos os lados. A masculinidade tóxica age numa via de duas mãos: oprimindo as mulheres e esvaziando esse lugar da alteridade, no caso dos homens. Não sabemos mais lidar com as diferenças, não admitimos mais isso ou aquilo. Por isso, existe, hoje, uma homossexualização das relações, porque o igual também tem suas diferenças, mas não são tão gritantes quanto aquelas que partem dos que já são diversos essencialmente. De uma forma geral, acredito que estamos desaprendendo a lidar com o outro.


Não é contraditório que nós, mulheres, que fomos educadas para "sentir", para exacerbar esse lado emocional, que a maioria dos pensadores classifica como "humano" se sinta tão angustiada consigo mesma?
Um dos efeitos da revolução sexual é que, embora as mulheres tenham menos recalque em relação aos seus próprios afetos, temos uma maior conexão com as próprias emoções. Mesmo assim, estamos numa era que vai colocar como ênfase uma própria racionalização pragmática no afeto e na elaboração do afeto, que deveria ser perseguida por todos os humanos, já que os afetos nos afetam. Vemo-nos como produtores de resultados, que batemos de frente com as metas diariamente. A palavra da vez é ação: vamos fazer, se não deu certo, a fila anda.  O mais interessante seria todo mundo poder se ocupar das racionalizações e emoções, sem essa divisão sexual, não divorciando uma coisa da outra, seria o caminho coletivo, uma coletividade que possa fazer tudo isso junto. Estamos todos no mesmo barco, todo mundo precisa pensar sobre si. Não é só se queixar, só chorar, é pensar sobre aquilo, sobre as nossas angústias e, portanto, transformar essa posição subjetiva de modo que isso nos fortaleça perante nós mesmos e diante dos outros.


Qual é a melhor forma de lidar com essa angústia e por que o ato de verbalizar, nesse caso, pode ser libertador?
Responder “falando”, sem dúvida, fica muito simplista. Mas essa é a resposta, embora existam muitas formas de “falar”. É através da palavra que nos libertamos, que é mais do que uma fala, que, na maioria das vezes, pode ser vazia. Não que eu seja contra conversas, contra amenidades, mas não tem como você atravessar um fenômeno de densidade sem que haja algo simbólico. Não tem saída se não colocarmos no cerne da angústia uma travessia simbólica. Pensar tem uma etimologia com conectar, ter um super insight. Simbolizar é conectar, traçar relações entre acontecimentos e os sentimentos diários.  Esse lugar de compreensão é colocado como pertencendo ao feminino, há milênios. Por isso, a gente vai ficando mais hábil sobre a fala do outro, mas é muito importante traçarmos as nossas individualidades, quem realmente somos, qual é a nossa essência e quais são nossos limites.   Por isso é fundamental dividirmos e deixarmos muito claro que essa não precisa ser necessariamente uma só queixa, apenas como um desabafo do que sentimos internamente. É necessário que seja uma fala simbólica que atua e opera uma transformação em nós mesmos e no mundo, que implica pactos, recombinações, essa é a micropolítica que devemos colocar em prática. Portanto, é uma tríade, do sentir, do falar simbólico e de uma ação de transformação. Não é só o fazer da repetição, não é só um sentir catártico. Esse tripé pode estar mais conectado e formar um tripé real para dar apoio para esse sujeito, para essa mulher, que deve se entender e ser entendida como o próprio sujeito da sua vida.