26 de dezembro 2017

Potência

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26 dezembro 2017

Potência

Na terceira grande onda do movimento, a internet, as redes sociais e a arte são poderosas ferramentas na afirmação da identidade e reivindicação de direitos dos diversos grupos de mulheres
Texto por: Redação o Valor do Feminino

*Conteúdo produzido originalmente pela Bravo

Não é fácil ser mulher. Não somos donas dos nossos corpos, somos alvo de violência doméstica e de assédio, ganhamos menos, frequentemente não nos levam a sério – os adjetivos “loucas” ou “histéricas” são recorrentes, e a TPM sempre está na ponta da língua para lançar suspeição sobre nosso juízo. Se expomos nossos desejos, somos putas; se os escondemos, puritanas. E, claro, em quase todos os estratos e atuações, a sub-representação feminina é a regra diante da esmagadora maioria masculina.

Fácil não é, mas é preciso admitir que estamos em situação melhor do que no passado. Nascer mulher é menos difícil por causa de um movimento cujo nome ainda é considerado palavrão: o feminismo. Desde os seus primórdios, ainda no fim do século 19, a ideia essencial é uma luta pela “igualdade social, política e econômica dos sexos”, na definição da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, uma das principais referências do movimento hoje.

A linha geral é a mesma, mas o combate vem se ampliando ao longo dos anos. Maíra Kubík Mano, professora do departamento de Gênero e Feminismo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), não gosta de falar em “ondas” do feminismo, que, segundo ela, obedecem a uma concepção “extremamente eurocêntrica e norte-americanizada”. Mas, ressalvas feitas, ela acredita que a divisão pode ajudar a compreender a trajetória de um dos movimentos mais importantes deste século.

A Primeira Onda Feminista começou no fim do século 19 e começo do 20, na Europa e Estados Unidos, com reivindicações especialmente macropolíticas: tanto de mulheres lutando pelo direito a voto, com desejo de se integrarem ao modelo político vigente, quanto o de mulheres que se juntaram aos movimentos comunistas, socialistas e anarquistas com o desejo de romper com o status quo.

A Segunda Onda começou na década de 1960 nos Estados Unidos, com reivindicações por direitos sexuais, reprodutivos e por igualdade no mercado de trabalho. Mulheres queimaram sutiãs pela liberdade, colocaram em pauta o direito ao aborto, impulsionaram mudanças nas leis do divórcio e de guarda dos filhos, lutaram para afirmar a individualidade da mulher e a expor problemas de violência doméstica e estupro marital. O Pessoal é Político, texto-slogan de Carol Hanisch, foi o mote dessa fase, exortando mulheres a desnormatizar as violências que (ainda) sofrem.

Por fim, a Terceira Onda começou na década de 1980 e está sendo marcada pela expansão das reivindicações para além das questões das mulheres brancas heterossexuais. É o reconhecimento que “não somos uma mulher reivindicando pautas específicas. Cada uma tem o seu olhar a partir de seu ponto de vista, do seu lugar de fala, da sua situação de vida e de suas experiências”, explica Kubík Mano. A palavra chave é Identidade.

Mulheres negras sempre participaram do movimento feminista, mas suas questões específicas – advindas do racismo – acabaram em segundo plano. Desde os anos 1980, ainda bem, estamos vivendo o fortalecimento do movimento feminista negro, o desenvolvimento da Teoria Queer (que ilumina questões feministas relativas a identidade de gênero e diversidade sexual), o combate à gordofobia, a cunhagem do termo capacitismo para expor a discriminação contra pessoas com deficiência, entre outras questões caras a diferentes grupos de mulheres que não eram atendidas pelas reivindicações feministas das décadas anteriores.

E hoje? Estaríamos vivendo uma Quarta Onda do feminismo? E o tal pós-feminismo? Maíra Kubík Mano acredita que o feminismo, no que se refere a reivindicações, continua na Terceira Onda – na busca de reconhecimento e afirmação de nossas diferentes identidades. O que muda, certamente, é a forma com que o movimento se articula. Dessa perspectiva, não é possível pensar o feminismo contemporâneo sem levar em consideração a internet – e a propagação da informação dela decorrente.

Humor e informação

Como tudo nos últimos anos, a dimensão virtual de nossas vidas vem fazendo a diferença. Na internet, as ativistas encontraram novas formas de opressão – o machismo online sabe bem como ser agressivo. Mas a rede também oferece potenciais caminhos de libertação, cruzando experiências dos quatro cantos do mundo, alcançando os rincões mais distantes e abraçando realidades pessoais as mais distintas. E, a partir da articulação pela internet, vemos mais e mais mulheres na rua exigindo seus direitos.

“Graças à internet, sabemos que as mulheres na Argentina estão fazendo uma manifestação Nem Uma a Menos, contra a cultura do estupro, e podemos organizar manifestações no Brasil também”, diz a jornalista Juliana de Faria, que está à frente da Think Olga, organização não-governamental cuja missão é empoderar mulheres por meio da informação. Em 2013, a ONG agitou a internet com a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio em lugares públicos. Uma enquete online com 7,762 mulheres, feita em parceria com a também jornalista Karin Hueck, revelou que a maioria esmagadora (99,6%) já sofreu assédio na rua e que 83% não gostam de receber cantadas. (confira a pesquisa completa).

A campanha e a pesquisa renderam alguma polêmica e muitos frutos: virou referência para as discussões fora do ambiente virtual, abasteceu cartilhas, motivou ações contra o assédio em espaços públicos e originou um documentário, ainda sem data de estreia, feito com dinheiro arrecadado online na plataforma de crowdfunding Catarse. “Iniciativas como essas acendem faíscas para o movimento feminista. É como alinhar peças de dominó: você derruba uma e vai derrubando todas as outras”, diz Juliana.

Outra característica dos movimentos feministas contemporâneos é a abordagem acessível de conceitos acadêmicos sobre questões de gênero e feminismo, além de uso do humor. São histórias em quadrinhos, cordéis, publicações independentes, canais de youtube e memes que expõem o machismo e expandem as ideias feministas. Para as redes sociais, é uma festa. Foi assim que a reportagem intitulada Bela, Recatada e do Lar, sobre a primeira-dama Marcela Temer, provocou uma reação irreverente a tais predicados. Centenas de mulheres publicaram fotos pessoais em situações nem sempre “belas”, nada “recatadas” e muito menos “do lar”. Várias foram reunidas em um Tumblr.

Campanhas e hashtags não faltam: #meuprimeiroassedio (mulheres contando suas próprias experiências nas redes sociais), #meuamigosecreto (histórias de machismo), #meucorpominhasregras etc.

Ainda que a internet seja uma ferramenta empolgante de ativismo, seu alcance precisa ser relativizado. “Quando vemos as pesquisas sobre o impacto das redes sociais por temas, constatamos que as pautas ficam limitadas a grupos isolados.” É a tal “bolha” do Facebook, que iludiu muita gente, por exemplo, nas eleições municipais no Brasil e na última disputa presidencial americana, quando nem os analistas políticos mais tradicionais perceberam o real poder de fogo de Donald Trump.

Feminismo ou humanismo?

“Não sou feminista, sou humanista!” É provável que você, zanzando pelas esquinas das redes sociais, já tenha topado com variações dessa afirmação – há também quem oponha feminismo a “direitos humanos”. Trata-se, naturalmente, de uma falácia. “Feminismo é parte dos direitos humanos em geral – mas utilizar uma expressão tão vaga como ‘direitos humanos’ seria negar o problema específico do gênero”, escreveu Chimamanda no livro Sejamos Todos Feministas. “Seria um jeito de negar que o problema de gênero tem como alvo as mulheres. Que o problema não é sobre ser humano, mas especificamente sobre ser uma mulher.”

Para Kubík Mano, ainda é necessário se autodenominar mulher – tornar-se – e declarar-se feminista para reconhecer que, “se a nossa existência desigual é uma construção social, ao mesmo tempo ela tem vida material”, explica. Isso culmina, em grau máximo, em feminicídio, estupro, assédio e outras violências a que as mulheres são submetidas cotidianamente. E é preciso tratar dessas questões da maneira mais inclusiva possível – em certa medida, o feminismo é ele mesmo uma reafirmação do humanismo e dos direitos humanos, em especial as minorias.

A questão remete à própria característica da terceira onda do movimento. Em uma sociedade ideal, em que o homem branco cisgênero hétero não fosse o ser humano de referência que oprime e tenta conformar os demais, as mulheres não precisariam se afirmar como “os outros” – mulheres, negros, indígenas, asiáticos, LGBTs, pessoas com deficiência, gordos... classificações criadas indistintamente para diferenciar quem não se encaixa no padrão do que é ser humano.

Daí outra discussão comum: homem, devidamente encaixado no padrão de referência social, pode ser feminista? A vertente interseccional do feminismo admite a participação de homens cis na militância, enquanto outras ideologias feministas preferem que os homens fiquem de fora. A empatia masculina à causa não é proibida, claro, uma vez que essa separação entre homens e mulheres é uma construção social que também limita a forma masculina de expressar o mundo.

Por outro lado, é da natureza essencial do feminismo que o homem não tenha qualquer protagonismo nesse enfrentamento. Feminista radical, a artista plástica Alice Portos aproveitou a Marcha das Vadias – que luta contra a culpabilização das vítimas de estupro em razão do que vestem – para apontar como a participação dos homens pode até ser bem-intencionada, mas equivocada. A partir de fotos das manifestações, Alice Portos recorta, ilustra e evidencia esses equívocos, abusando da ironia nos comentários. Sua série de “homens feministos” circula online pelo tumblr e também virou um zine lançado em janeiro de 2016.

Arte salvamento

O trabalho de Alice, junto com projetos como a da Kiwi Companhia de Teatro e de Negahamburguer, exibidos acima, estão em sintonia com um espírito do tempo em que a arte tem papel central na afirmação de identidades, propagando as novas ideias e as demandas do movimento, dentro e fora do ambiente virtual.

Na literatura brasileira, por exemplo, chama a atenção a poeta (poetisa) Angélica Freitas. Autora de livros como Rilke Shake (2007) e Um Útero é do Tamanho de um Punho (2013), a gaúcha integra também o coletivo Casa Cultural Las Vulvas, que prioriza o protagonismo de mulheres na produção cultural. Em seus poemas, rompe com o que se espera de um comportamento “de mulher”, tanto ao virá-lo do avesso quanto ao expô-lo incessantemente até que se revele ridículo, despropositado, impossível.

“(...) um útero é do tamanho de um punho/ num útero cabem capelas/ cabem bancos hóstias crucifixos/ cabem padres de pau murcho/ cabem freiras de seios quietos/ cabem as senhoras católicas que não usam contraceptivos/ cabem as senhoras católicas/ militando diante das clínicas às 6h/ na cidade do México/ e cabem seus maridos/ em casa dormindo/ cabem cabem/ sim cabem/ e depois vão/ comprar pão (...)”

Sem pedir desculpas nem licença, Angélica Freitas expõe medos, inseguranças, desejos e a difícil busca pelo equilíbrio entre agradar-se e aos outros. Suas bem trabalhadas e concisas linhas passam a sensação de que elas retratam histórias reais, mulheres em múltiplos estereótipos – impossível não identificar-se em algum (ns) dele (s).

“a mulher é uma construção / deve ser/ a mulher basicamente é pra ser/ um conjunto habitacional/ tudo igual/ tudo rebocado/ só muda a cor (...) a mulher é uma construção/ maquiagem é camuflagem/ toda mulher tem um amigo gay/ como é bom ter amigos/ todos os amigos tem um amigo gay/ que tem uma mulher/ que o chama de fred astaire/ neste ponto, já é tarde/ as psicólogas do café freud/ se olham e sorriem/ nada vai mudar –/ nada nunca vai mudar –/ a mulher é uma construção”

De poema a poema, o universo das possibilidades para suas perfiladas vai se expandindo até termos certeza de que uma mulher pode ser quem ela quiser – se ainda não na vida real, pelo menos nas palavras.

Há expressões literárias mais heterodoxas – e mais diretas no engajamento feminista. Um caso é o da poesia slam – uma competição entre poetas cujos moldes nasceram em Chicago, nos Estados Unidos, na década de 1980. Performers que transbordam revolta, ritmo e confronto recitam seus anseios em disputas marginais, em locais públicos e privados, na periferia e no centrão – não por acaso, o rap tem origem nos slams.

Ainda que seja um meio com maioria masculina, as minas estão marcando seu espaço e encontros com disputas exclusivamente femininas estão crescendo, com destaque para o Slam das Minas do Distrito Federal, o primeiro slam brasileiro organizado por e para lésbicas. Nessa disputa entre artesãs das palavras faladas, ganha quem colocar mais pingos nos is na cara dos opressores. Entre as que mandam bem na rima está a paulista Mel Duarte, que fez sucesso no sarau da Flip deste ano com as poesias centradas na identidade da mulher negra e contra a cultura do estupro, uma das bandeiras mais fortes do feminismo contemporâneo no Brasil.

Outras fronteiras

No Brasil e no mundo, as iniciativas se multiplicam na mesma medida das diferentes causas. Em São Paulo, o Mamana Foto Coletivo reúne quatro fotógrafas de rua com a intenção de “dominar o mundo com mulheres fotógrafas”; na Coreia do Sul, a também fotógrafa Ji Yeo denuncia a indústria da cirurgia plástica no país; no México, a artista plástica Elina Chauvet expõe em suas obras o drama de uma nação recordista em feminicídios; na Jamaica, Ebony Patterson também explora a violência e questiona a masculinidade (essa instituição frágil) em seus painéis, com tapeçarias que retratam cenas de rua mesclados a elementos femininos; no Irã, a fotógrafa e filmmaker Shirin Neshat busca desconstruir as expectativas da sociedade sobre a mulher, especialmente a mulher muçulmana; em Gana e Estados Unidos, a cineasta Akosua Adoma Owusu expõe a colisão de identidades da mulher negra africana que migra para os Estados Unidos; na Rússia, Victoria Lomasko documenta com seus desenhos diversos episódios de repressão à livre expressão, como sua série de reportagens gráficas sobre o processo jurídico que condenou a banda punk feminista Pussy Riot à prisão.

Causas específicas não faltam, o que é bem ilustrativo de como o machismo segue firme. “A gente faz o que pode, a partir do nosso lugar de fala, com o dinheiro e os braços que a gente tem, é um trabalho de formiguinha”, diz Juliana de Faria.

Aos poucos, com o aumento do poder das mulheres sobre seus próprios corpos, vontades e destinos através da arte, da difusão de conhecimento com foco nas questões femininas, das manifestações na rua e das discussões nos almoços de família e grupos de amigos, uma nova forma de pensamento e de organização social vai se delineando, preparando terreno para que as próximas gerações possam viver em um mundo mais livre.