05 de fevereiro 2018

Porque cortei meu cabelo

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05 fevereiro 2018

Porque cortei meu cabelo

Sobre o autor: Stephanie Ribeiro

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Acredita no papel fundamental do ativismo negro interseccional e que temas adjacentes à experiência da mulher negra no mundo precisam ser difundidos. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, como homenagem ao seu ativismo em prol das mulheres negras.

Texto por: Stephanie Ribeiro

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Acredita no papel fundamental do ativismo negro interseccional e que temas adjacentes à experiência da mulher negra no mundo precisam ser difundidos. Em 2015, recebeu da Assembleia Legislativa de São Paulo a Medalha Theodosina Ribeiro, como homenagem ao seu ativismo em prol das mulheres negras.

Ano passado tive como experiência muito marcante, fui a uma visagista feminista. Sim, o fato dela ser feminista tem impacto na forma como ela faz seu trabalho, toda análise dela era sobre minha personalidade, mas também inter relacionada com os parâmetros do que a sociedade espera para estética de uma mulher. E ao poucos aquela mulher foi me explicando na prática, como o cabelo de todas nós informa muito mais a sociedade do que imaginamos, e como invariavelmente somos cobradas por uma estética que também é um controle dos nossos corpos. Lembro até agora quando ela me disse sobre a dominação que muitos homens enxergam num cabelo comprido, segundo ela a imagem do homem das cavernas puxando a mulher pelos cabelos, ainda está no nosso imaginários.

Mas claro que ninguém vai dizer: olha tenha cabelos compridos porque eu conseguiria te arrastar por eles. As pessoas dizem que é mais bonito, que é mais apresentável e claro, que é mais feminino um cabelo longo e de preferência liso. Afinal, na lógica da nossa sociedade o cabelo curto está associado ao masculino, e o masculino é entendido como poder. No dia que escutei todas as explicações dela, fiquei muito impactada com todas as suas palavras, mas com medo de cortar o cabelo. Passei praticamente um ano para criar “coragem”.

Você vai dizer: Mas é só cabelo.

Sim é, mas também faz parte da imagem que você quer passar para o mundo, e a imagem que esperam de você. Só refletindo sobre isso, comecei a sentir aquela vontade de ter controle sobre o que eu sou. Nossos corpos por mais que queremos que estejam livres, a nossa liberdade ela vai muito além do nosso querer, estamos tentando trabalhar as possibilidades diversas do que queremos para nossos corpos e vidas, sem ao menos nos sentir culpadas por não se enquadrar nos padrões de feminilidade.

Cortei o cabelo. Fiz o pezinho. E ontem mesmo cortei mais um pouco. 

Posso dizer que a primeira sensação foi a de estranhamento, e agora vivo uma certa sensação de liberdade e euforia que me faz querer toda vez que vou ao salão cortar mais um pouquinho, ficar passando a mão na nuca sempre e procurar fotos e mais fotos de outras mulheres negras com cabelos curtos. Isso vai totalmente no oposto ao meu sonho de criança, quando mais nova eu como brincadeira gostava de amarrar toalhas de banho no meu cabelo e simular enquanto girava que elas me davam o que eu queria: cabelos longos e lisos. A brincadeira que une centenas de mulheres negras, a velha e boa toalha na cabeça, Fazia toda aquela performance ao lado de minha irmã. Éramos cúmplices.

Depois já adolescente, uma amiga do colégio que sentava na minha frente na sala de aula, veio me perguntar porque meu cabelo não era maior, ela não entendia porque ele não “crescia”. Já que cabelos “como o meu”, quando longos ficam muito bonitos. E no fundo, não é que eu nao deixava meu cabelo crescer, na verdade é que a forma do meu cabelo e dos fios são totalmente diferentes daquilo que ela estava sugerindo.

Foram anos cultivando a ideia de um cabelo mais longo e sem volume, tanto que recorri a técnica do relaxamento. No ano de 2011 devido as pressões para passar na universidade, cursinho, fim do terceiro ano, e o excesso de químicas que começaram quando eu ainda era uma criança, fizeram meu cabelo ir caindo. Diante da catástrofe tive que cortar e por não gostar do meu cabelo curto, comecei alisar ele sem parar. Só quando ele tinha um tamanho que me soou adequado parei com esse processo de fato. Acho incrível como nesse momento da minha vida, nunca cogitei que eu pudesse usar outros tipos de cortes, cores e penteados. O alisamento para mim funciona como uma forma de violência, que fui cometendo contra mim mesma com vergonha da minha própria identidade. 

Vejo que mesmo hoje com todo o discurso ligado ao empoderamento estético de mulheres negras, ainda nós temos dificuldade de entender que não precisamos de longos cabelos crespos com cachos perfeitos. 
Ainda falta Rever muito os padrões que nos impõem para que você seja vista como uma mulher "bonita", aceitável, "atraente". É preciso lembrar numa sociedade que recorre a vários símbolos para tirar nossa emancipação sobre nossos corpos,  que ser "mulher" e "feminina" não tem nada a ver com cabelo comprido. Espero que num novo ano, nós mulheres, em especial as mulheres possamos ser nós mesmas, sem o medo de nao estarmos encaixadas non que esperam de nós.