29 de dezembro 2017

Por uma vida literária

Montagem / Divulgação / Facebook
29 dezembro 2017

Por uma vida literária

Na era da Netflix e das pessoas conectadas quase 24 horas por dia, projeto Vida Literária espalha livros e incentiva leitura entre crianças
Texto por: Rafael Nardini

Como fazer com que os jovens entendam o valor da literatura numa era de tantos estímulos? Como "competir" com Netflix, PlayStation, tv a cabo, cinema IMAX e televisão Full HD? O projeto Vida Literária, dos jornalistas Anderson Fernandes e Débora Kaoru, decidiu resistir a tudo – e a quase todos – e faz um trabalho de formiguinha na divulgação da literatura pela Grande São Paulo. "O uso de jornais, revistas, gibis, promove o letramento e auxilia na construção de uma escola cidadã atualizada com o mundo contemporâneo".

Já foram 25 escolas visitadas pelo projeto, passando por Poá, Suzano, Mogi das Cruzes, Itaquaquecetuba e Ferraz de Vasconcelos. Todas, como se deve supor, bem distantes do mundo da literatura. Muitos dos seis mil livros distribuídos por eles provavelmente jamais chegariam por essas bandas antes.

O próprio Anderson conta que não foi estimulado a ler quando jovem. Resultado: a distância do mundo dos livros se perpetuou até a universidade. "Comecei a ler obras sobre temas que tinha interesse e hoje tenho vergonha de admitir que só consegui concluir meu primeiro livro já no ensino superior", diz. "Quando cursava Jornalismo, uma professora de Letras chamou minha atenção e disse que era impossível ser aprovado porque era um semianalfabeto funcional. Sabia ler, escrever, mas não entendia nada da disciplina".
 
Sobre isso e muito mais, você acompanha nossa entrevista nas próximas linhas. 

Qual foi o primeiro livro que você leu e sentiu: "Nossa, queria muito ter lido isso antes"?

Acredito que meu primeiro livro, mas tem uma história longa antes disso acontecer. Comecei o Vida Literária com a jornalista Débora Kaoru. Nós dois temos experiências distintas com a leitura. No meu caso, por exemplo, aprimorei o interesse por livros por necessidade. Quando cursava Jornalismo, uma professora de Letras chamou minha atenção e disse que era impossível ser aprovado porque era um semianalfabeto funcional. Sabia ler, escrever, mas não entendia nada da disciplina. Na época, ela me aconselhou a melhorar o relacionamento com a leitura, pois só assim eu expandiria o vocabulário, melhoraria meu pensamento crítico, minha concentração, escreveria melhor. E eu comecei a ler obras sobre temas que tinha interesse e hoje tenho vergonha de admitir que só consegui concluir meu primeiro livro já no Ensino Superior. Inclusive, foi Abusado – O Dono do Morro Dona Marta, do Caco Barcelos. Hoje, tenho uma frequência intensa de leitura e, às vezes, quando o tempo permite, concluo até duas obras por semana. Já a Débora sempre teve o hábito da leitura, sempre foi uma estudante exemplar e por isso chegou muito melhor preparada no ensino universitário. Nas nossas conversas com os estudantes, comparamos as nossas trajetórias e deixamos claro como a Débora tinha vantagens, simplesmente por ter um relacionamento mais próximo com os livros.

Qual é a história mais transformadora que você viveu com o Vida Literária? Você se lembra de alguma reação das crianças que tenha marcado sua vida?

Tem uma escola, em especial, que mudou meu olhar sobre a importância do projeto. A gente já tinha passado por algumas unidades de ensino, porém, ser voluntário é cansativo e estávamos pensando em parar, dar um tempo, porque conseguir e separar os livros, e depois arrumar escolas e entregar as obras literárias toma uma grande parte do nosso tempo. Sem contar os gastos, porque não temos apoio financeiro e tudo sai do nosso bolso.

Mas daí  a gente foi em uma escola na periferia de São Paulo, local em que chegam mais demandas do que oportunidades. No final da nossa atividade, uma jovem disse que pela primeira vez naquele ano ela tinha “visto luz em ambiente que na maioria das vezes está em escuridão”. Aquilo me impactou. Então entendi que não posso parar o projeto. Vou levar até quando for possível.

Se você pudesse escolher um livro que deveria existir em toda e qualquer escola brasileira, qual seria? Por quê?

Acho que as escolas brasileiras deveriam ter livros. Títulos variados. Passamos em várias que não possuíam biblioteca ou sala de leitura. Essa é uma realidade muito triste de aceitar. Estamos trabalhando um pouco para, quem sabe, tentar mudar isso.

Anderson Fernandes (dir), feliz da vida com as grandes conquistas: os livros

Quais são hoje os números da Vida Literária? Quantos livros foram doados? Para quantas escolas? Vocês têm alguma ideia de quantas crianças já foram atendidas pelo projeto?

Já passamos por 25 diferentes locais e chegamos a marca de mais de 6 mil livros distribuídos gratuitamente para jovens de diferentes idades. Acreditamos que a leitura como direito de todos evita o aprofundamento de divisões sociais, educacionais, culturais. Desta maneira, oferecemos mais que um instrumento de dignificação, realizamos um grande ato de valorização e aperfeiçoamento do ser humano.

Todos os livros utilizados no projeto foram enviados pelos voluntários do Vida Literária e por pessoas de diversas regiões de São Paulo, após uma campanha de arrecadação feita pela Internet.

Você acha que a forma com que as escolas trabalham os conteúdos interessante e capaz de fisgar os pequenos como novos leitores?

Recentemente fui a uma escola para desenvolver o projeto “Vida Literária” e uma professora de Matemática questionou como essa atividade poderia ajudar os alunos na sua disciplina. Apresentei alguns argumentos, mas sem grande fundamentação. Então peguei emprestado de uma amiga o livro “Leitura e interdisciplinaridade: tecendo redes nos projetos da escola”, de Angela Kleiman e Silvia Moraes, e foi uma experiência positiva e certamente me ajudará frente a novos questionamentos.

Até dezembro de 2017, o projeto já havia chegado a 25 escolas diferentes

Reforçar a importância da leitura para muitos profissionais da Educação é apenas território do professor de Língua Portuguesa e assim os trabalhos, projetos e exercícios neste sentido dificilmente são realizados por docentes de outras disciplinas. No entanto, como bem definem Angela Kleiman e Silvia Moraes, a leitura é reconhecida como uma atividade cognitiva por excelência pelo fato de envolver todos os nossos processos mentais. Neste sentido, é essencial para aprendizagem de qualquer atividade na vida, sendo obrigatoriamente objeto de ensino de todos os professores.

Muitas vezes, o aluno não consegue resolver um exercício de Matemática, ou atividades de Química e Física, simplesmente porque não sabe interpretar ou não entende o que o professor destas disciplinas está exigindo. Ou seja, a escola e a sociedade querem estudantes críticos e participativos, porém, muitos leem sem entendimento, interpretam sem ter lido e realizam atividades sem nenhuma função na sua realidade sociocultural.

As autoras de “Leitura e interdisciplinaridade”, neste contexto, são muito felizes ao dizerem que incentivar o gosto dos alunos por jornais, revistas, livros, gibis, entre outros, é um poderoso instrumento da aprendizagem e na qualidade de instrumento deve pertencer a todas as disciplinas, pois é, por excelência, a atividade na qual se baseia grande parte do processo de ensino em contexto escolar.

No mundo cada vez mais digital, a sociedade precisa de pessoas que consigam continuar o processo de aprendizagem de forma independente, e para isso, o cidadão precisa ler.

A rede pública de ensino ainda trata a literatura como uma lista de conteúdos necessários para que os alunos passem no vestibular. Como isso poderia revertido em algo mais atraente?

Acho que além do trabalho com os alunos, conscientizar os pais e familiares a fim de indicar maneiras de integrar a leitura no hábito das crianças e adolescentes é algo importantíssimo. Muitos estudantes, antes mesmo de entrar na escola e serem alfabetizados, já são letrados, porque participam, em seus lares, de diversos eventos em que a escrita, a leitura do jornal, um recado anotado num papel, a leitura de um livro de contos, tem um papel central na vida dos adultos. A criança que vê seus pais buscando conteúdo informativo, educacional e cultural, mesmo antes de aprender a ler, já entende a importância da aprendizagem.

Hoje o público jovem representa uma significativa parcela do contingente populacional. Segundo a quarta edição da Pesquisa Retratos da Literatura no Brasil, para 67% da população não houve uma pessoa que incentivasse a leitura em sua trajetória. Desta maneira, reafirmo que qualquer trabalho de incentivo à leitura na escola oferece mais que um instrumento de dignificação do aluno, é um grande ato de valorização e aperfeiçoamento do ser humano.

Quem quiser saber mais sobre o projeto, entre no site ou na página do Facebook. Para doar livros, basta entrar em contato por e-mail.