22 de dezembro 2017

Por que os homens têm mais problemas de saúde

problema de saude
22 dezembro 2017

Por que os homens têm mais problemas de saúde

Especialistas acreditam que eles sofram muita pressão para não demonstrar fraqueza, o que aumenta as chances de desenvolver doenças física e mentais
Texto por: Camila Luz

No Brasil, assim como em outros países do mundo, a expectativa de vida dos homens é mais baixa do que a das mulheres. Em 2016, a esperança de vida dos brasileiros era de 72 anos e das brasileiras, de 79 anos, segundo o IBGE.

Para especialistas, essa diferença está relacionada ao fato de que o homem tem menos costume de cuidar da própria saúde – o que vale tanto para a saúde física quanto para a mental. Segundo o urologista Carlos Sacomani, a mulher se previne melhor.

“Em uma pesquisa realizada há quase três anos, 50% dos homens com mais de 40 anos nunca tinham ido ao médico. A mulher adere mais ao conceito de saúde preventiva, é acostumada desde a adolescência a ir ao ginecologista”, declara. “O homem, talvez até por uma questão antropológica, considera ser um sinal de fraqueza ir ao médico”, completa.

Carlos Sacomani é diretor de comunicação e presidente da comissão de defesa profissional da Sociedade Brasileira de Urologia. Ele observa que a falta de cuidado dos homens com a própria saúde é uma questão mundial. Eles estão sujeitos a mortes mais violentas, como acidentes e homicídios, e estão mais expostos a doenças relacionadas ao estilo de vida: infarto, derrame cerebral e outras doenças cardiovasculares.

Para o médico e psicólogo Roberto Debski, além da longevidade, a expectativa de vida saudável do sexo masculino também é mais curta. Como vão menos a consultas médicas e não se previnem, descobrem doenças em estágio mais avançado. Portanto, a qualidade de vida diminui no longo prazo.

A dificuldade do homem em cuidar de si

Há uma ideia criada pela sociedade de que o homem não pode demonstrar fraqueza e deve ser o provedor da casa. Até mesmo exames importantes são cercados de tabu: o câncer de próstata é uma das doenças mais graves para o sexo masculino, mas muitos pacientes são resistentes ao exame de toque, principal meio de prevenção, e têm vergonha de fazê-lo.

“O paradigma do masculino ainda existe. Embora a mulher trabalhe e tenha jornada maior do que a do homem, ele se sente pressionado para ser o provedor principal”, opina Debski. “Isso pode deixá-lo doente e aumentar suas frustrações e quadros de depressão e estresse, o que compromete sua saúde física. As chances de desenvolver doenças crônicas aumentam quando já existe predisposição familiar”, completa.

Saúde psicológica

A taxa de suicídios também é maior entre o sexo masculino. A média global é de 15 por 100 mil habitantes entre os homens e 8 por 100 mil entre as mulheres. A psicóloga e escritora Marilene Kehdi observa que eles relutam em fazer terapia e têm grande dificuldade para procurar ajuda e conversar sobre seus sentimentos.

“Geralmente são as namoradas, esposas, noivas ou mães que forçam a situação para que busquem ajuda. Isso é cultural, eles crescem na onipotência, achando que são eles mesmos que devem resolver seus problemas”, afirma. “Eles acreditam que expor os problemas internos é uma demonstração de fraqueza. Com isso, escondem e menosprezam sintomas graves, como os da depressão”, alerta.

Culturalmente, o homem aprende que deve ser autossuficiente. Ele absorve crenças de que não pode fraquejar e deve superar limites a cada dia. Além disso, deve mostrar para a sociedade que está bem e produz bastante. Isso causa insônia, agitação, ansiedade e baixa qualidade de vida. “A exigência em cima dos homens é muito grande. Mas a autoexigência para que sejam autossuficientes é o que derruba sua saúde física e psicológica”, explica Marilene.

Para lidar com os sintomas, buscam válvulas de escape. Alguns começam a beber em excesso, enquanto outros se tornam violentos e descontam a raiva em pessoas que consideram mais fracas, como a mulher ou os filhos. Portanto, a falta de cuidado com a saúde psicológica não afeta apenas o sexo masculino. Ela abala as estruturas da família e causa problemas sérios, que podem gerar traumas em todos os membros da casa para o resto da vida.

Como agir para que os homens passem a cuidar da própria saúde

Sacomani acredita que os homens estão mais conscientes da necessidade de procurar ajuda. Mas ainda há muito a ser feito em prol da saúde masculina e é responsabilidade de todos contribuir. O Brasil é um dos únicos países do mundo que tem um programa específico para a saúde do homem: a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. O texto do Ministério da Saúde justifica que é reconhecido que o sexo masculino está mais vulnerável às doenças, sobretudo às enfermidades graves e crônicas. Além disso, os brasileiros morrem mais precocemente e dá pouca atenção à saúde básica.

Infelizmente, Sacomani afirma que essa política funciona apenas no papel. “Na prática ainda há muito a ser implantado. Pelo menos reconhecemos que são necessárias políticas de saúde voltadas exclusivamente ao sexo masculino”, diz.

Na opinião de Debski, o SUS é um bom sistema de saúde na teoria, pois propõe uma série de protocolos e cuidados que seriam eficientes se fossem executados. “Tem o programa de saúde do homem, que toca na prevenção do câncer de próstata e saúde cardiovascular. O problema é a implantação das propostas, que devem ser feitas de forma local e depende muito da gestão dos municípios”, opina.

Incentivá-los a procurar ajuda psicológica também é necessário. Uma boa saída é orientá-los a procurar terapeutas homens, pois muitos têm vergonha de demonstrar fraqueza na frente de uma mulher. Para Marilene, apenas o acompanhamento com o psiquiatra não é suficiente. Dependendo do caso, a medicação pode até ser necessária. Mas a atuação do terapeuta é fundamental para aprimorar sua qualidade de vida de forma global - e não apenas tratar um problema mental específico.

Há também uma questão social e cultural que precisa ser transformada para que o homem consiga lidar melhor com seus problemas de saúde físicos e mentais. Os pais devem dar o exemplo e ensinar seus filhos meninos a verbalizar os problemas e a manifestar seus sentimentos. As políticas públicas e a escola também têm seu papel, ensinando-os a não ser violentos e a tratar todos de forma igual, independente do gênero.

“É preciso estabelecer um diálogo frequente e responsável para formar cidadãos do bem. Os homens precisam aprender a cuidar melhor do próximo e da própria saúde”, argumenta Marilene.