01 de julho 2017

Por que é tão difícil confiar?

Por que é tão difícil confiar?
01 julho 2017

Por que é tão difícil confiar?

Roberto Shinyashiki fala porque confiar não é fácil, especialmente em tempos em que a insegurança se tornou parte da rotina
Texto por: Redação o Valor do Feminino

Confiar não é fácil, especialmente em tempos em que a insegurança se tornou parte da rotina. É normal preocupar-se com a segurança dos bairros e cidades, com a proteção dos filhos e outros familiares, com o futuro da carreira, com a economia do país, com o compromisso dos políticos em quem se deposita literalmente o voto de confiança. O diagnóstico do médico psiquiatra Roberto Shinyashiki, que tem doutorado em administração e economia, é que confiar é cada vez mais difícil em função da quebra de valores, hoje tão corriqueira. Shinyashiki é autor de mais de 20 livros que, juntos, venderam mais de 7 milhões de exemplares – entre eles, A Coragem de Confiar. Em uma entrevista exclusiva, ele afirma que o resgate da confiança passa por uma nova relação com nós mesmos e com os outros. Por isso, o caminho é ser menos desconfiados, menos controladores e respeitar mais os nossos próprios valores e desejos.

Qual a importância de confiarmos mais uns nos outros nos dias de hoje?
Os pesquisadores de administração de empresas têm estudado o custo da desconfiança. Os juros bancários no Brasil são muito altos porque a desconfiança de que a pessoa que pega o empréstimo não vai pagar é muito alta. Então, no contrato de uma relação, não confiar é caro. E por que há essa desconfiança? Porque a quebra de valores se tornou parte da rotina. As pessoas trabalham cada vez mais com o conceito de ilegal e não com o conceito de imoral.

Como assim?
Por exemplo, a pessoa sai da empresa e leva um monte de colaboradores com ela. Esses colaboradores levam os clientes daquela empresa. O pensamento é: “Isso não é ilegal, não está escrito em algum lugar”. No relacionamento afetivo acontece o mesmo. Os limites do que é ilegal ou imoral estão se tornando mais amplos. E isso leva a uma quebra de confiança. Seja no relacionamento interpessoal, interempresarial ou internacional. Os valores estão sendo quebrados, e as pessoas começam a achar normal coisas que não são normais. Por exemplo, se o casal tem um contrato de exclusividade afetivo-sexual, isso significa que foi dada a palavra de cada um nesse acordo. Só que cada vez mais é aceitável que essas pessoas tenham relações extraconjugais, que mintam e que sejam hipócritas. As pessoas estão ficando cínicas, aceitando essas quebras de contrato. Isso acaba levando à depressão.

Por que isso leva à depressão?
A depressão acontece quando todo o sistema do seu corpo começa a aceitar situações com as quais ele não concorda. Por exemplo, a mulher não ama o marido, mas não se sente com força suficiente para assumir a própria vida. Então, vai rebaixando seu desejo de viver um grande amor, de ter uma relação de cumplicidade, até que os mecanismos enzimáticos travam e ela tem que tomar remédio para fazer a serotonina ser produzida de novo. A depressão está virando uma endemia por falta da confiança. Porque cada vez mais o seu desejo, bem-estar e dignidade não importam. Para continuar avançando na vida, você precisa tomar antidepressivo.

Como é possível resgatar a confiança? Você falou que estamos cada vez mais cínicos. Como fazer o caminho de volta?
Há dois pontos chaves nessa história. O primeiro é termos uma atitude de respeito com nosso próprio discurso. Eu sou presidente da Editora Gente. Oficialmente, sou o sujeito que poderia mandar mais na empresa. Mas tenho uma data para entregar o texto do meu livro novo, e vou cumpri-la por duas razões. Primeiro porque é importante as pessoas que trabalham na empresa saberem que a regra vale para todos. Segundo, e mais importante, porque eu mesmo tenho que saber que posso confiar na minha palavra. Quando as pessoas ficam cínicas e prometem qualquer coisa, a primeira perda é a do autorrespeito. Hoje em dia fala-se muito em gestão do tempo. E qual é a base da gestão do tempo? A dignidade. Se eu prometi, tenho que cumprir o combinado comigo mesmo. Quando a pessoa começa a fazer promessas que sabe que não vai cumprir, perde o senso de dignidade. Muitas vezes, as pessoas não entendem por que fazem tudo o que é preciso para algo dar certo, e ainda assim aquilo não dá certo. Isso acontece porque o inconsciente dela não compra o projeto. É como se falasse: “Ah, ela vai mentir mais uma vez. Não vai manter a palavra de novo”. É o que está acontecendo com a nossa sociedade. A mudança começa em cada um.

No seu livro, você contrapõe a insegurança que vivemos hoje com a confiança. Desde a insegurança matrimonial até aquela sensação de não estarmos protegidos no lugar onde moramos. Quais as consequências de partir do pressuposto de que não dá para confiar em nada?
O pressuposto inicial deve ser agir da maneira que você acredita ser a correta, independentemente do que outras pessoas façam. Se você vai atrasar, avise. “Ah, mas fulano também atrasou”. Isso é problema dele. “Ah, mas a pessoa mentiu”, isso é problema dela. Essa postura nos exige uma atitude forte. O segundo ponto chave é você ter a certeza de que é livre para escolher as pessoas com quem vai conviver. É livre para escolher o seu emprego. No meu instituto [Instituto Gente, que oferece coaching], fizemos uma pesquisa em que perguntamos às pessoas quais eram seus sentimentos negativos. As respostas citavam frustração, baixa autoestima, impotência. E havia um sentimento de aprisionamento. As pessoas acham que estão aprisionadas a um casamento, a um namoro, a um emprego. Mas não estão. Nós temos condições de ter os amigos, companheiros, trabalhar na empresa e ter os parceiros empresariais que escolhermos. Mas para isso é preciso autoconfiança, que começa com o autorrespeito.

Existe diferença na maneira com que homens e mulheres confiam nos outros?
Não, essa questão é humana. Confiar é um aprendizado da convivência em sociedade. Os existencialistas dizem que as perguntas da existência são: quem sou eu? Com quem eu quero viver? Que tipo de vida quero viver? São perguntas importantes para todos.

Em alguns casos, temos dificuldade de confiar por medo de nos frustrarmos ao depositar uma expectativa no outro?
Esse é um problema principalmente do relacionamento afetivo. As pessoas colocam expectativas equivocadas no outro. Sabe a história da metade da maçã? As pessoas incompletas tendem a achar que o outro vai completá-las. E os estudos mostram que ninguém completa ninguém. As pessoas são do tamanho que são. Cada um tem que procurar o seu desenvolvimento. No amor, a tendência das pessoas ao se conhecerem é acreditar que o outro é um ser perfeito. Depois de três a seis meses ficam naquela frustração de que o outro não é perfeito. No amor, o importante é consertar o que está quebrado.

No ambiente corporativo, para que serve a confiança? Para poder se posicionar como profissional, para se relacionar com chefes, colegas, subordinados?
Não só no mundo corporativo, mas muito dentro dele, as pessoas tendem a pensar que alguém não merece confiança porque é mau caráter. Procuro ensinar aos profissionais que há pessoas que são mau caráter e não vão cumprir as tarefas, mas há também pessoas que são incompetentes e não vão cumprir. Quando a gente fala “fulano não merece a minha confiança”, precisamos saber confiança para quê. A leitura da confiança passa pela competência: preciso saber a competência de cada um. E cada um precisa ter consciência da sua capacidade para saber o que pode prometer.

Há muita confusão entre o que é confiança e o que é a necessidade de controle?
Sim. Hoje as pessoas têm uma doença de hipercontrole, que está ficando cada vez mais grave. Temos uma ilusão de que controlamos alguma coisa, quando, na verdade, não controlamos nada. É pai com filho, filho com pai, chefe com equipe... As pessoas estão tão inseguras que acham que precisam ter relatórios diários dos outros. Isso é uma doença da insegurança. Faz com que tenhamos uma produtividade menor, deixa os casais menos espontâneos para amar e aceitar. É preciso desconfiar menos. E confiar mais.

Sobre a autora:
É jornalista formada pela USP. Trabalhou por três anos na revista Época NEGÓCIOS, da editora Globo, onde se dedicava à cobertura de economia, política e negócios. Também passou pelas redações de Crescer e Pequenas Empresas & Grandes Negócios, da mesma editora. Sua primeira experiência como jornalista foi no jornal O Estado de S. Paulo, onde ficou um ano.