22 de setembro 2017

Polêmica verde

Polemica verde (2)
22 setembro 2017

Polêmica verde

Em entrevista, a ambientalista Fabíola Zerbini conta como manter o debate ambiental na agenda enquanto crises políticas e econômicas pipocam pelo mundo
Texto por: Julliane Silveira

Advogada de formação, Fabíola Zerbini, 40, intitula-se ambientalista. Não à toa: há 20 anos trabalha com questões ambientais, sociais e formas de consumo responsável. Atualmente, é coordenadora latino-americana da TFA (Tropical Forest Aliance), onde atua contra o desmatamento de biomas do continente. Foi diretora executiva da FSC Brasil e professora de educação ambiental.
Nesta conversa, Fabíola fala um pouco do clima pessimista que envolve a questão ambiental no Brasil, mas tenta mostrar como cada gesto pode fazer a diferença: “Existe um lado micro que é importante em momentos difíceis como este. Às vezes alguém ao seu lado está fazendo algo muito bom. Pode comprar orgânicos no seu bairro, sem precisar fazer acrobacias de consumo para ser mais sustentável. E isso já é uma grande coisa.”

Como você vê a questão ambiental no Brasil?
Estamos num momento crítico e sério em relação a essa questão e outras. Seguimos uma mesma tendência, os direitos ambientais estão sendo todos extintos, assim como outros direitos. Um processo muito parecido.


O que está piorando?
Eu comecei a trabalhar com isso em 1996 e nessa época se escutava que a política ambiental brasileira era uma das mais avançadas do mundo. São direitos conquistados há muito tempo, nas décadas de 1980, 1990, e não em um governo recente, em um processo de construção de uma política ambiental histórica que pouca gente conhece. Desde essa época até agora, eu nunca vi questionamentos no Brasil tão absurdamente contrários a qualquer tendência de proteção, conservação, cuidado e respeito aos direitos ambientais. Em um ano, vimos projetos que, há 20 anos, não se imaginaria que poderiam ser propostos.


Por que a situação é tão grave?
Passamos por um processo de consciência ambiental nos últimos 20 anos. Deveríamos ter muito mais noção e informação sobre como questões ambientais precisam fazer parte de políticas. É um momento muito grave em que a gente tem uma parcela da população para quem o direito ambiental representa um entrave econômico e que não vai economizar nenhum esforço para superar esses obstáculos. A gente vive uma ditadura parlamentar ruralista no Brasil. Nunca vi nada igual.


Há várias propostas e medidas muito polêmicas. Quais são as que mais impactam no meio ambiente?
A alteração da lei de licenciamento ambiental, porque é um mecanismo de reflexão que deixa de existir. De uma hidrelétrica a uma pequena fábrica, todas as empresas têm ao menos que se planejar sob a ótica ambiental, fazendo um estudo para ver se o empreendimento impacta o ambiente. Mesmo que a fiscalização seja falha, só o fato de fazer o empreendedor pensar sob o prisma ambiental já é um grande avanço. É um dos projetos de maior impacto, porque impacta rio, floresta, solo, água, ar, de potencial abrangência muito grande. Também há as medidas provisórias que visam reduzir áreas de preservação ambiental (MP 756 e 758). Gisele Bündchen e o presidente da Noruega se posicionaram contra e o Brasil recuou. Ao reduzir a proteção, essas áreas seriam entregues aos ruralistas, pois podem ser aproveitadas para pecuária e agricultura. Amanhã essa será a área que vai aparecer na mancha do desmatamento. O presidente vetou as medidas, mas o conteúdo acaba de voltar como projeto de lei praticamente com os mesmos itens.

São questões sérias, que atingem a população. Mas como fazer com que as pessoas se informem mais sobre isso e exijam que o assunto esteja realmente na agenda?
Posso dizer que a gente nunca teve tanta informação com qualidade. As ONGs brasileiras têm grande qualidade em termos de estudo e de avaliação de impacto, então a informação chega em tempo real. Mas transformar essa informação técnica em algo que chegue à população depende de uma parceria com a mídia. A verdade é que vivemos um momento muito difícil para ter grandes pretensões. Há uma propaganda muito forte do empresariado no sentido de que terra traz desenvolvimento, traz emprego. O público que quer proteger a terra, que também cresce, é visto como quem defende o atraso do Brasil. Então é difícil para qualquer ser humano que não conheça bem o tema realmente entender o que se fala.


Ao mesmo tempo em que há muita informação, o brasileiro ainda se posiciona de forma distante das questões ambientais. Por que isso ainda acontece?
Isso se explica culturalmente. Nossas famílias e nossas escolas nos passaram, por mais absurdo que pareça hoje, que não era algo importante, escutávamos falar de cerrado na aula de geografia, totalmente dissociado de valor. A informação atrelada com alguma emoção é muito recente. Só em 1992 (com a Eco 92) a questão daqui se torna um assunto global, é tudo muito recente. Até então, não houve um processo informativo e de identidade do Brasil como um país ambiental, uma lógica de cuidado. O efeito é acumulativo, vamos ver novas gerações que terão outra bagagem de razão e de emoção, no sentido de querer cuidar e saber como fazer isso.


A Amazônia até é uma questão mais presente, mas outros biomas, como você mencionou, só são lembrados na aula de geografia mesmo. O cerrado perdeu nos últimos dez anos 50.000 km2, área maior do que o estado do Rio de Janeiro. Foi desmatado para pecuária e soja, onde está 63% da produção brasileira...
Hoje o cerrado está na agenda de ponta. A Amazônia recebeu uma série de medidas de proteção públicas e privadas. Como a expansão agrícola é uma necessidade, o cerrado acabou sendo fronteira, pois não há lei nem compromisso de empresas para sua proteção. Mas hoje as entidades estão antenadas e a conscientização vai acontecer mais rápido. Dados da Amazônia e do Cerrado mostram que temos áreas já desmatadas suficientes para suprir a demanda da expansão agrícola por pelo menos 30 anos.


As ONGs são importantes, mas parece difícil abraçar a causa de forma isolada, sem muito respaldo do governo. Sabemos, por exemplo, que o Ministério do Meio Ambiente perdeu 50% do orçamento neste ano. Com quem contar nesse cenário?
Eu vejo uma terceira força, complementar à do governo, que vem assumindo a frente da agenda positiva, que são as empresas. É interessante ver, quando o governo Trump anuncia a saída do acordo de Paris, que muitas multinacionais lançam um manifesto dizendo que continuarão com políticas de compra atreladas à sustentabilidade independentemente da lei. As duas MPs de preservação ambiental receberam cartas de líderes empresariais globais, líderes que compram commodities e se posicionaram contra. Se uma empresa decide não comprar óleo de palma ou soja de área desmatada, ela consegue impor uma agenda positiva independente da lei. Claro que não é a mesma coisa, porque uma série de assuntos tem de ser regulada e fomentada por políticas públicas, mas é uma força que surge e se junta às ONGs para fazer alguma diferença.


As empresas também conseguem dialogar com o consumidor. São importantes para criar hábitos que influenciam na agenda positiva?
Sim, com críticas. Quando você vê uma empresa que fabrica um produto com ingredientes que trazem critérios de sustentabilidade, é uma forma de diálogo com o tema que se materializa muito próximo de você. Isso ajuda as pessoas a fazer a conexão, porque cada produto traz um conjunto de meio ambiente e de trabalho que a gente não enxerga. Quando uma marca diz que respeita questões trabalhistas e ambientais em sua publicidade, ela faz a pessoa pensar nisso. Mas a questão ambiental não pode ser só objeto de propaganda. O desejo de consumo pelo viés ambiental não faz sentido.


O consumidor tem mesmo poder para pautar esses critérios?
Persigo isso há muitos anos. Vejo uma evolução muito grande do consumo responsável. Mas ainda há um caminho longo pela frente para o consumidor se tornar um ponto de inflexão. É difícil dizer que a massa, por si só, vai fazer diferença, mas é claro que induz mais empresas a adotar critérios de sustentabilidade e, quando isso ocorre, é um caminho sem volta.

Produtos "verdes" são mais caros. Como convencer o consumidor de que o custo-benefício vale a pena?
Existe uma grande parcela da população que está numa lógica de sobrevivência e é um contrassenso pedir para que paguem mais. Mas há um público que pode pagar e, para ele, podemos informar melhor: não é que o produto ambiental ou social custa mais, é o produto que não traz esses cuidados que custa menos. Não é uma conta simples: quando você desmata para produzir ou explora trabalho, é natural que seu produto seja mais barato. Quem paga todos os direitos e não desmata internaliza custos que outros não incluíram. O produto ambiental custa mais, mas não é mais caro. Alguém paga pela poluição, pelo assoreamento do rio, e não é o produtor. O produto verde traz para si cuidados que outros não trazem. Quem pode pagar tem quase uma responsabilidade de escolher esse caminho. Já o consumo de massa é outra história, a equação é mais complexa e precisaria se associar a políticas públicas.


Essas políticas não são prioridade neste momento. Como manter o otimismo?Momentos difíceis são importantes. Quando o macro se mostra tão difícil ou quase inalcançável, a alternativa é voltar um pouco para si. Pensar o que pode ser feito, buscar formas de se informar melhor, se posicionar como consumidor, como ser humano, ser vivo. O que não dá é deixar essa complexidade do mundo atual nos atordoar e perder qualquer potência de ação diante disso. É um exercício diário buscar meios no seu mundo, no seu micro. Tem muita gente fazendo coisa legal do seu lado. Tem gente que produz orgânicos no seu bairro e você nem precisa fazer grandes acrobacias para consumir. Tem as grandes leis, as grandes políticas, mas tem o micro que talvez seja mais viável em momentos tão difíceis. Como estamos num momento de muitas notícias pessimistas, a tendência é a de achar que tudo é ruim e isso não é verdade. Há atitudes próximas de nós que podem ser muito transformadoras.