01 de julho 2017

Pode chorar

Pode chorar
01 julho 2017

Pode chorar

Homem não chora? Mulher que chora é sensível demais? Como as pessoas enxergam os momentos de sensibilidade do outro?
Texto por: Redação o Valor do Feminino

Homem (ainda) não chora? Mulher que chora é sensível demais? Como as pessoas enxergam os momentos de sensibilidade do outro?

Para responder essas perguntas, andamos pelas ruas de São Paulo, perguntando às pessoas: “Qual foi a última vez que viu alguém do sexo oposto chorar?”. Em portas de faculdades, restaurantes, pontos de ônibus, muita gente não lembrava de nenhuma situação para contar. Entre as que buscaram na memória, a maioria citou familiares próximos, como mãe, pai e marido ou esposa. Foi comum também ouvir relatos de momentos de morte, como velórios.

Para as mulheres, as referências de homens que choram geralmente são de pessoas próximas, como pai, irmão e namorado. Apesar de muitas vezes a sensibilidade aflorar em momentos difíceis, como brigas e dificuldades na família, elas ficam aliviadas ao ver que eles estão colocando sentimentos para fora – e gostariam que fizessem isso mais vezes. A impressão de que muitos se contêm para parecer “durões” ainda existe. Entre os homens, muitos lembram da esposa, namorada ou amigas, e veem o choro como algo natural.

A seguir, os relatos mais representativos que ouvimos por aí.

"Foram meus irmãos quando meu pai faleceu há três anos. Foi estranho, meus irmãos são muito fechados, totalmente machões, do estilo 'homem não chora'. Ah, foi estranho, porque eles nunca choram. Naquele momento eu também estava muito triste, foi um momento difícil para a gente. Não tive reação, chorei também e os abracei."
Adriana, recepcionista

"A última pessoa que vi chorar foi a minha esposa. Ela chorou de emoção, por uma sensação boa, no encerramento das Olimpíadas. Dependendo do que motivo, eu acho legal vê-la se emocionar. É um sentimento que ela expressa, que mostra a pessoa que é."
João Carlos, analista de sistemas

"A última vez que vi uma mulher chorar foi minha mãe, no enterro do meu avô, há uns dois anos. O primeiro pensamento que me veio à cabeça foi de não saber o que fazer. Eu também estava triste, só que minha mãe estava sofrendo mais ainda. Eu sabia que tinha que abraçá-la e não chorar. Tinha que ser mais forte para conseguir segurar a tristeza dela também. Chorei depois."
Vitor Kenzo – estudante

"Minha esposa teve filho há dois meses e chorou na hora em que saiu do hospital, dentro do táxi. O menino ficou internado na UTI, ela também. Então, foi um choro de alívio. Eu chorei também, foi muito emocionante. Geralmente quando a minha mulher chora, eu choro junto." 
Carlos, assistente social

"A última vez que vi um homem chorar foi ontem, o meu irmão de 20 anos. Ele é muito cabeça dura, fez algo desagradável, e minha tia chamou sua atenção e ele ficou com raiva. Em situações assim, ele chora. É uma cena comum. Para mim, homem chorar é normal. Não tem essa de mulher chora, homem não." 
Amanda Alexandra, corretora de seguros

"A última vez que eu vi homem chorar foi meu pai, no ano passado, com o falecimento da minha avó. Ele não costuma demonstra reação nenhuma nunca. Não demonstra o que sente, não chora. Só fica bravo às vezes. Por isso, quando o vi emocionando, cheguei perto dele para dar um apoio. Fiquei aliviada por ele estar demonstrando o que sentia." Jessica Reis, técnica em seguros

"Já aconteceram várias vezes que aconteceram por problemas de família dele, ele chorou bastante na minha frente, conversando comigo. Eu sou muito chorona também então eu gosto que as pessoas desabafem, não vejo como uma fragilidade em momento algum. Eu queria até que manifestasse mais." 
Flavia, professora

"Eu lembro de um amigo que chorou, mas foi uma mistura de coisas acumuladas. Ele estava bravo com a política e triste porque era o aniversário de morte da avó dele. Não lembro de ver chorar um homem que não fosse próximo a mim."
Malena Tassat, estudante

"Acho que as últimas pessoas que vi chorando foram minha mãe e minha namorada. Eu sinto tristeza quando elas choram. Dá uma aflição se eu não posso ajudar. O choro pode vir de alguma fragilidade. Quando é esse o caso, eu tento conversar para que de alguma essa fragilidade diminua. Mas tem choro de alegria também. Acho que é mais raro, mas tem."
Tiago Tilibra, professor

"Vi minha esposa chorar. Foi uma situação triste. Depois de 25 anos de casados, eu disse que estava sentindo alguma coisa por outra pessoa. Mas graças a Deus estamos juntos ainda. O choro da minha esposa foi muito dolorido. Eu a senti impotente e frágil. E me senti covarde. Me controlei, mas chorei por dentro." 
Antonio Marques, segurança

"Participo de um projeto que chama Gastromotiva. É voltado para pessoas carentes que nunca comeram um prato especial, bonito. Nós proporcionamos essa experiência a elas pela primeira vez. Já vi pessoas muito pobres, mendigos, que quando você faz isso, eles choram de emoção. Fico emocionada também. São pessoas que a sociedade não enxerga, mas nós, do projeto, enxergamos. Os homens choram tanto quanto as mulheres. O sofrimento é igual, então a emoção é igual." 
Aline Severo, economista

"Vi o meu namorado chorar. A última vez foi uma situação boa. Ele é militar, mas completamente emotivo, chora mais do que eu – mas é o primeiro namorado que eu tenho com esse comportamento. Acho isso legal. E raro. Porque nós vivemos numa sociedade que até hoje acredita que o homem não pode chorar. Preconceito. Todo ser humano tem suas emoções." 
Aline Silva, dentista

 

Sobre a autora:
É jornalista formada pela USP. Trabalhou por três anos na revista Época NEGÓCIOS, da editora Globo, onde se dedicava à cobertura de economia, política e negócios. Também passou pelas redações de Crescer e Pequenas Empresas & Grandes Negócios, da mesma editora. Sua primeira experiência como jornalista foi no jornal O Estado de S. Paulo, onde ficou um ano.