05 de setembro 2017

Paternidade sensível

Paternidade sensivel
05 setembro 2017

Paternidade sensível

Homens se reúnem em grupo de pais para discutir a criação dos filhos de modo menos rígido e hierárquico
Texto por: Livia Deodato

Falar sobre os sentimentos, as descobertas e os aprendizados de se tornar pai nunca foi muito comum entre os homens. É uma prática que, pelo menos até o século passado, pertencia quase exclusivamente às mulheres e mães. Mas um número cada vez maior de homens está saindo em busca de espaços onde se sintam seguros e protegidos para partilhar diversos assuntos que os afligem. E não são poucos: o sufocamento constante das emoções, a excessiva racionalização e a sexualidade no casamento após a chegada de um filho são apenas alguns exemplos.
Esse movimento vem ganhando força em diversos países, inclusive no Brasil. São grupos formados por pais que se viram sem referências no que diz respeito a afeto e educação de seus filhos. “Poucos pais da nossa geração deram demonstração de afeto, carinho, amor. No nosso grupo, tratamos muito sobre como podemos fazer diferente nesse sentido e ter uma maior participação no dia a dia”, diz o engenheiro Leandro Gonçalves, pai de duas meninas, morador de São Paulo (SP).  Acordar à noite para trocar fralda ou poder faltar no trabalho para levar o filho ao médico são alguns dos assuntos.
Os encontros de pais começaram há cerca de três anos com o grupo Paternando, que Leandro criou no Facebook. A partir dele, surgiram também um grupo de WhatsApp e um podcast chamado Balaio de Pais com o mesmo intuito: dividir angústias, partilhar dúvidas e contar histórias que estão vivendo junto a seus filhos, mulheres, parentes e amigos.

A experiência se potencializa

Os grupos nasceram a partir da observação e participação de Leandro e de sua mulher em um grupo chamado Buxixo de Mães, rede de apoio à maternidade ativa. “Íamos juntos a esses encontros e lá comecei a conhecer os maridos, também pais, e pensamos em criar um grupo nosso”, relembra. “Notamos que era raro um espaço para trocas masculinas e o pessoal tinha muita carência de falar, escutar… E isso ficou mais evidente quando começamos a fazer rodas presenciais. O que saía desses encontros era poderoso", conta.
A fragilidade e a vulnerabilidade de um bebê são temas constantes de discussão nos grupos de pais, que se preocupam com os cuidados e o desenvolvimento saudável de suas crias. Mudanças de papéis tradicionais também são discutidos. Em um dos podcasts do Balaio de Pais, o assunto foi a decisão de um dos integrantes do grupo. Ele parou de trabalhar para cuidar das crianças, enquanto sua mulher segue com um emprego formal. Intitulado “Mamãe Foi pra Roça, Papai Foi Cozinhar”, o podcast apresenta essa reconfiguração de divisão de tarefas dentro de casa.
Diferentemente de alguns grupos que tratam sobre maternidade, em que os pais são bem-vindos, no encontro de pais tenta-se preservar o espaço masculino. Muitos homens não estão tão acostumados a se abrir e falar sobre suas emoções. Eles sentem que, na presença de mulheres, isso seria ainda mais difícil. “Muitas vezes, os homens têm questões com as próprias companheiras e querem ter privacidade para falar a respeito”, conta Leandro.
Dividir experiências sobre a paternidade é uma experiência nova e, assim como a criação dos filhos, não tem manual para seguir. O que fala mais alto sempre é a intuição e o quem vem do coração. “Essa experiência de colocar-se para fora, de evasão dos sentimentos, é muito nova para a maioria de nós. Em grupos de homens ainda é necessário garantir o sigilo, a privacidade e o respeito à expressão, antes de qualquer coisa”, afirma o psicólogo Alexandre Coimbra, pai de duas crianças, que também criou espaços em São Paulo para pais compartilharem suas aflições.
Ele conta que cada um tem o seu tempo para começar a se abrir, mas que a experiência no grupo se transforma quando isso acontece. “Tem sido um negócio avassalador. Muitas vezes, volto trêmulo para casa, pois tenho a sensação de que nada ficou no lugar. É realmente muito intenso ver aqueles caras se desfolhando", diz Alexandre.
Uma grande questão que eles invariavelmente discutem nesses encontros é o relacionamento com as famílias de origem. “Muitos casais têm algum tipo de rompimento ou constroem uma distância mais estratégica das famílias de origem quando se casam e, na hora que o filho chega, essa porta é aberta e a família volta. Muitas vezes, eles não sabem o que fazer com isso, pois antigos conflitos são reativados", conta o psicólogo
Segundo Alexandre, liberar as emoções melhora a qualidade de vida não só do homem que está passando por esse processo como também de todos que estão ao seu redor. “Aqueles pais que topam entrar para a sala de parto e choram junto com seus bebês passam por um processo que eu chamo de desentupimento do canal afetivo e que não tem conserto depois.”