27 de setembro 2017

Paternidade no mundo

paternidade no mundo
27 setembro 2017

Paternidade no mundo

Relatório mostra que as mulheres ainda são as principais responsáveis pelos cuidados de crianças e idosos
Texto por: Camila Luz

As mulheres representam 40% da força de trabalho remunerada. Mas elas ainda gastam de duas a dez vezes mais tempo do que os homens para cuidar de uma criança ou idoso. Os dados são da pesquisa A Situação da Paternidade no Mundo, feita pela ONG Promundo.

O Promundo atua em vários países para promover a igualdade de gênero e prevenir a violência, com foco no envolvimento de todos os gêneros na transformação da masculinidade. Para a ONG, o empoderamento feminino também depende da ação de homens e meninos que têm consciência do quão benéfico é questionar padrões que prejudicam a rotina de mulheres e meninas.

Segundo o relatório, a presença do pai na criação do filho traz benefícios para o desenvolvimento integral da criança, equidade de gênero e saúde do homem. A pesquisa utilizou dados sobre o envolvimento dos homens no cuidado e saúde materna e infantil, além de estabelecer conexões entre paternidade e violência.

“A Situação da Paternidade no Mundo” já tem duas versões, lançadas em 2015 e 2017. A pesquisa é utilizada como ferramenta pela MenCare, uma campanha global para promover o envolvimento dos homens e meninos como cuidadores não violentos e comprometidos com a igualdade.   

Situação da paternidade no mundo

No ano 2000, a Islândia determinou que todos os homens e mulheres teriam direito a três meses de licença após o nascimento do bebê. O casal também ganhou mais três meses que podem ser divididos da forma que desejarem. Se a mãe preferir voltar ao trabalho enquanto o pai fica em casa, não há problemas.

Essa política pública fez parte de um grande esforço para enfrentar a desigualdade de gênero na Islândia. Os efeitos foram admiráveis: os homens assumiram mais responsabilidades dentro de casa e passaram a participar ativamente da vida de seus filhos. Os novos vínculos trouxeram benefícios para todos os envolvidos – inclusive para os próprios pais, que se tornaram mais saudáveis e felizes, segundo os dados colhidos pela pesquisa.

A MenCare acredita que o caminho percorrido pela Islândia é um bom ponto de partida para o resto do mundo. Nos últimos 20 anos, muita coisa mudou em relação às tendências no campo da paternidade, cuidado e trabalho doméstico não remunerado. Mas ainda há muito a melhorar. Veja os principais pontos levantados pela pesquisa:

  • Globalmente, as mulheres gastam três vezes mais tempo cuidando do lar e das crianças do que os homens. Mesmo nos países onde eles contribuem mais do que no passado, ainda há um abismo.

  • Em países subdesenvolvidos, mulheres passam mais tempo fazendo tarefas não remuneradas do que nas nações desenvolvidas. Essas atividades consistem em cuidar das crianças ou de outro membro da família. Os maiores índices são no Sul da Ásia (6,5 mais tempo do que os homens), Oriente Médio e Norte da África (4,5), Leste Asiático e Pacífico (3,5) e América Latina (3,3).

  • Combinando o tempo que homens e mulheres gastam com trabalho remunerado e com trabalho não remunerado (dentro de casa), a contribuição continua desigual em todo o mundo. Mulheres gastam 45 minutos a mais por dia em média, o que resulta em seis semanas extras de trabalho por ano.

  • Mesmo que ambos os sexos gastassem o mesmo tempo com atividades remuneradas e não remuneradas, as mulheres estariam em desvantagem. No geral, são os homens que contribuem financeiramente e as mulheres que cuidam do lar. A atividade não remunerada é considerada menos importante pela sociedade e priva o sexo feminino de contato social, educação e recursos financeiros.

  • Mulheres ainda ocupam menos cargos de liderança e ganham menos do que os homens. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), ainda faltam 75 anos para que ambos os sexos ganhem igualmente.

  • Mulheres se dedicam mais aos cuidados de membros da família, como crianças e idosos, do que os homens. Nos Estados Unidos, mulheres passam duas vezes mais tempo cuidados dos pais do que homens. Na África do Sul, mulheres representam 2/3 das pessoas que cuidam de pacientes infectados pelo HIV.

  • As mulheres mais pobres do mundo são as que passam mais tempo em trabalhos não remunerados, tomando conta da casa e da família.

Situação da paternidade no Brasil

Neste ano, o Promundo divulgou um relatório sobre a situação da paternidade no Brasil. A instituição acredita que os debates a favor da igualdade de gênero, saúde do homem e importância da presença do pai estão ganhando espaço. O Ministério da Saúde, por exemplo, já reconheceu a importância do “Movimento pela Valorização da Paternidade” e outras iniciativas, como o pré-natal do parceiro.

No entanto, a máxima “o filho é da mulher” continua presente no discurso popular e no de diversas instituições do país.

As mulheres são prioritariamente cobradas pela educação e cuidado das crianças, como se isso fosse seu “destino natural”. Já os homens têm suas atitudes toleradas quando não participam ou abandonam os filhos. Hoje, mais de cinco milhões de estudantes brasileiros permanecem sem o registro do nome do pai na certidão de nascimento.

Além disso, a principal responsabilidade do pai continua sendo o sustento da mãe e das crianças. Para mudar essa realidade, o Promundo destaca a importância do discurso sobre a “responsabilidade paterna”, criando espaços mais amplos para debates sobre masculinidade e leituras críticas do feminismo. O objetivo final é trazer mais justiça social e bem-estar para todos os indivíduos.Paternidade no mundo