21 de agosto 2017

Para educar crianças feministas

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21 agosto 2017

Para educar crianças feministas

Em livro, a premiada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche sugere algumas ações para mães e pais
Texto por: Livia Deodato

Certo dia, uma amiga de infância da escritora Chimamanda Ngozi Adiche perguntou a ela o que deveria fazer para criar sua filha como feminista, isto é, fazer com que ela sempre pensasse em boas ações com o objetivo de construir um mundo mais justo entre homens e mulheres. Chimamanda sempre se manifestou publicamente a respeito do tema e acabou se transformando em uma referência principalmente depois da sua apresentação no TED intitulada “Sejamos Todos Feministas”, que virou um livro.

A nigeriana topou o desafio e a carta que endereçou à amiga Ijeawele, em que oferece 15 sugestões, foi tão assertiva que acabou também virando livro. “Para Educar Crianças Feministas” é um manifesto em torno da posição em que a grande maioria das mulheres ocupa na sociedade hoje em dia – e traz questionamentos sobre essa posição. Muitos dos exemplos vêm de sua comunidade, a tribo Igbo, que podem muito bem ser expandidos para a situação de mulheres em todo o mundo, em maior ou menor grau.

Se as sugestões de Chimamanda forem adotadas pelos adultos e ensinadas às crianças das próximas gerações, muitos dos problemas de desigualdade de gênero deixarão de existir muito em breve. E todos ganharão com isso.

Sugestões para um mundo mais justo

 

1. Maternidade e trabalho não são excludentes

Chimamanda defende a ideia de que trabalhar e cuidar de seus filhos pode e deve fazer parte da rotina. Vai fazer bem para os pais e para as crianças. Em um mundo mais igualitário, cuidar da casa não é função apenas feminina e os homens devem fazer disso sua obrigação também. “Peça ajuda. Espere ajuda. Isso de supermulher não existe. Criar os filhos é questão de prática e de amor”, afirma. As falhas existem e as mães não devem se sentir culpadas por causa delas.

2. Façam tudo juntos

Chimamanda lembra que o homem não está “ajudando” a mulher em casa: ele está fazendo o que deveria fazer. Afazeres domésticos, como limpar a casa, arrumar a cama, lavar a louça e as roupas devem ser realizados por todos que dividem o mesmo teto, bem como o cuidado com as crianças. “Às vezes, as mães, tão condicionadas a ser tudo e a fazer tudo, são cúmplices na redução do papel dos pais. Você pode achar que Chudi [marido da amiga de Chimamanda] não vai dar banho nela do jeito que você gostaria, que talvez ele não enxugue o bumbum dela com o cuidado que você teria. E daí? O que pode acontecer? Ela não vai morrer nas mãos do pai por causa disso. É sério. Ele a ama. É bom para ela ser cuidada pelo pai”, sentencia.

3. A menina pode tudo, assim como o menino

Chimamanda alerta para a diferença entre os brinquedos ditos “de menino” e os “de menina”: enquanto os de menino são ativos e voltados para a ação, como carros e trens, os de menina são passivos, sendo a imensa maioria bonecas. “Eu não tinha percebido ainda como a sociedade começa tão cedo a inventar a ideia do que deve ser um menino e do que deve ser uma menina. Eu gostaria que os brinquedos fossem divididos por tipo, não por gênero”, escreve. É importante que pais e mães deem as mesmas regras e os mesmos espaços para ambos os gêneros, e veja os pontos fortes e fracos deles de maneira individual. “Não a meça pelo que uma menina deve ser. Meça-a pela melhor versão de si mesma.”

4. Casamento não é realização

Desde cedo, as meninas são condicionadas a aspirar ao matrimônio, como se isso fosse uma realização que deve ser cumprida. O mesmo não é feito com os meninos. Existe aí um desequilíbrio muito grande. E há alguns indícios velados desse ponto de vista como, por exemplo, adotar o sobrenome do marido (e o mesmo não acontecer com o sobrenome da mulher). “Algumas amigas já me disseram coisas como: ‘você tem sucesso profissional, então tudo bem manter seu sobrenome’. (...) Mantive meu sobrenome porque é meu. Mantive meu sobrenome porque gosto dele.”

5. Meninas não nasceram para agradar todo mundo

Há uma cobrança excessiva sobre o comportamento das mulheres, mas não sobre o dos homens. Chimamanda sugere que isso deve ser mudado: é preciso dar espaço para que as meninas possam ser elas mesmas, sem se preocuparem se estão agradando ou não. “Ensinamos as meninas a serem agradáveis, boazinhas, fingidas. E não ensinamos a mesma coisa para os meninos. É perigoso. Temos um mundo cheio de mulheres que não conseguem respirar livremente porque estão condicionadas demais a assumir formas que agradem aos outros”, afirma.

6. Incentive as meninas a fazer esporte

O esporte não só faz bem para a saúde como pode ajudar com todas as inseguranças quanto à imagem do corpo, principalmente das meninas. Estudos mostram que as meninas geralmente param de praticar esportes ao chegar à puberdade. Ensinar-lhes a serem ativas devolve a segurança e a autoestima a elas.

7. Ensine a todos sobre a diferença

A diferença é a realidade de nosso mundo e, ao ensinar isso a meninos e meninas, estaremos preparando-os para sobreviver em um mundo diversificado. Incentive a leitura, os estudos, a pesquisa. O conhecimento amplia os horizontes e oferece melhores condições em um mundo diverso. “Que ela tenha muitas opiniões e que suas opiniões provenham de uma base bem informada, humana e de uma mente aberta”, diz Chimamanda no livro.