03 de janeiro 2018

Pai em tempo integral

pai em tempo integral
03 janeiro 2018

Pai em tempo integral

É cada vez mais comum ver homens que separam boa parte do dia ou até deixam a carreira de lado por um tempo para se dedicar à paternidade
Texto por: Julliane Silveira

Faz pelo menos 40 anos que homens e mulheres dividem o mercado de trabalho, mas as tarefas relacionadas à casa e aos filhos continua colocada como responsabilidade da mulher. A culpa e o cansaço da múltipla jornada parecia pertencer somente ao sexo feminino.

Em seu último Relatório da Paternidade do Mundo, a ONG Promundo mostra que as atitudes de abandono e pouca participação dos pais na criação dos filhos ainda são bastante toleradas. No Brasil, por exemplo, cinco milhões de estudantes não têm sequer o nome do pai na certidão de nascimento. Em contrapartida, parece ser destino natural das mulheres o cuidado e a educação das crianças.

“Ao longo do tempo, os homens tiveram educação repressora em sua masculinidade, de modo que não era permitido a eles ser afetivo e demonstrar grande interesse de cuidar do filho”, analisa Jane Felipe, professora titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e membro do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero da mesma instituição.

Felizmente, a história parece mudar em alguns lares brasileiros. É cada vez mais comum ver homens que separam boa parte do dia ou até deixam a carreira de lado por um tempo para se dedicar à paternidade. “Em muitos países, já vemos homens assumindo de igual para igual o cuidado com os filhos. As novas gerações têm essa preocupação que leva a uma mudança de comportamento e também a transformações das expectativas históricas, sociais e culturais do comportamento feminino e masculino”, explica Jane.

Há filhos que já podem contar com o cuidado e a presença do pai quase em tempo integral. Alice Toscani, de oito anos, às vezes chama o pai de mãe. Ela se confunde porque sempre teve o pai bem perto, exercendo funções como preparar suas refeições, levá-la para a escola no primeiro dia de aula, dar banho. “Sempre brinquei em casa que a Lúcia, minha mulher, é a formiga e eu sou a cigarra. Ela sempre trabalhou mais e sempre nos orgulhamos dessa inversão. Ela sempre foi dada a consertar coisas e eu sempre gostei de cozinhar”, conta o fotógrafo Ricardo Toscani, 37, colunista deste site.

Quando soube que esperavam um bebê, Ricardo e Lúcia combinaram que dividiriam os cuidados com a filha. Ela ficaria com a criança durante a licença-maternidade e ele assumiria depois, por um tempo. “A conversa foi em tom de brincadeira, como consolo de uma gravidez não planejada. Mas acabou sendo assim mesmo”, diz.

Lúcia amamentou a filha até os dois anos de idade, mesmo trabalhando fora. Era Ricardo que levava a menina até o escritório nos horários das mamadas, quando era preciso. Até seu assistente de fotografia entrou na jogada: foi contratado como babá freelancer por um ano, para ajudá-lo quando surgia algum trabalho pontual.

A balança, para ele, tem saldo positivo. “Lembro de estar na praça com minha filha, preocupado porque não estava entrando trabalho. De repente, dei-me conta de que podia curtir aquele sol com minha filha, vê-la crescer e caiu a ficha do quanto aquilo era bom”, emociona-se.

Esse novo grupo de homens entende que os desafios de criar um filho e administrar uma casa depois de seu nascimento devem ser compartilhados. “Homens que não podem estar presentes estão perdendo momentos maravilhosos de seus filhos. Eu vim de uma família bem machista, mas minha mãe me preparou para isso. Ela morreu quando eu tinha 12 anos, mas até esse momento me ensinou a ajudar nas tarefas da casa”, conta Ricardo.

Opção ou imposição

Para Jane, a dinâmica familiar pode mudar quando o casal tem poder aquisitivo para dar um tempo no trabalho ou quando não há opção. Os dois casos fazem parte da história do executivo Cláudio Machado, 45, autor do livro “Macho do Século XXI” e dos canais homônimos das redes sociais. Em 2010, sua mulher recebeu uma proposta de trabalho em Cingapura e ele concordou com a mudança, porque imaginava que poderia encontrar um emprego na nova cidade.

Como seu visto de trabalho não saiu, precisou assumir o cuidado de Luiza, na época com três anos de idade. Deixou de lado o vasto currículo de quase 20 anos em comunicação e assuntos corporativos em grandes multinacionais do ramo automobilístico. “Virei ‘dono de casa’ na marra, nunca tinha lavado um prato na vida, fui criado em um sistema bem machista”, avalia Cláudio.

Logo depois, a família se mudou para os Estados Unidos e, apesar de ter permissão para trabalhar, Cláudio optou por continuar cuidando da filha. “Eu brinco que já tinha saído do armário e que continuaria assim. Percebi que trabalhar como executivo era mais fácil do que administrar uma casa”, conta.

É claro que houve dificuldades para se adaptar à nova rotina, mas Cláudio percebe que esse tempo rendeu um estreito e ótimo relacionamento com a filha. “Não esqueço o dia em que fiz um jantar para ela, estávamos só nós dois e ela disse que eu era o melhor cozinheiro do mundo. Mentira, eu cozinho mal, mas como é bom ter esse reconhecimento”, afirma.

Cláudio diz que é muito bom ser um macho do século 20 e chegar em casa do trabalho com o jantar pronto e as crianças já arrumadas para dormir, já alimentadas, de banho tomado e com as tarefas escolares feitas. “Você come e vai ver seu futebol tranquilamente, mas está sobrecarregando alguém. É muito melhor ser um macho do século 21 e dividir tarefas, dar mais espaço para sua mulher pensar em seus objetivos e sonhos”, explica Cláudio, em alusão ao título do seu livro e de suas redes sociais. “Quero crer que uma parte dessa nova geração de jovens tenha entendido isso melhor.”

Tempo de qualidade

Jane Felipe explica que o pai só pode optar por deixar a carreira de lado para estar ao lado do filho se a família tem uma vida financeira organizada. O videomaker Fernando Taliba, 40, se planejou para passar um tempo com Lorena desde quando soube da gravidez da mulher, em 2014.

“Quando você fica ‘grávido’, você reavalia muitos valores, realmente pensa nos mais importantes e um deles é um tempo, porque aquilo passa. Prefiro ganhar mais dinheiro e ter alguém pra cuidar da filha ou diminuir custo de vida e ficar com ela?”, reflete Fernando.

Por conta de um imprevisto, a presença do pai foi ainda mais importante. Como a mãe teve complicações no parto e precisou ficar de repouso absoluto por mais tempo, foi ele quem cuidou dos primeiros banhos e das primeiras noites em claro. “Eu tive de assumir bem mais do que imaginava, mas criei um vínculo com ela que poucos conseguem”, lembra.

A esposa voltou ao trabalho e Fernando ficou com a filha até ela completar nove meses, quando ele foi retomando sua rotina profissional como freelancer. Mas ainda hoje ocorrem muitos programas a dois, visando a aproveitar o tempo que tem juntos.

Jane Felipe reforça que esse comportamento é fundamental para pais que não conseguem se dedicar aos filhos de forma integral. “O pai precisa se interessar de verdade pelo filho, pelo que está fazendo, quando estão juntos. Não dá para terceirizar essa função para TV, celular ou tablet, muito menos estar ao lado dos filhos com o celular na mão”, alerta a educadora.

O investimento de tempo vale a pena. Ao contrário de muitas crianças que veem na mãe um local de amparo, Lorena recorre a Fernando nos momentos de aperto. Ambos já viajaram sozinhos, sem a presença da mãe e sem nenhum transtorno ao longo do caminho. “Acho legal que outros amigos nos vejam como exemplo. De uma certa maneira, a gente semeia esse modo de ser e autoriza outros a fazer o mesmo, quebramos um pouco o preconceito. Nossa função, como homens, é autorizar outros a assumir também esses papéis”, defende Fernando.