06 de setembro 2017

Ouça o que seus filhos têm a dizer

eliane
06 setembro 2017

Ouça o que seus filhos têm a dizer

Sobre o autor: Eliane Dias

É mulher, negra, esposa, mãe, empresária e política. É sócia da produtora Boogie Naipe, que cuida da carreira de Mano Brown, seu marido, e dos grupos Racionais, RZO e 5pra1. Sua história foi construída por conta da sua essência feminista de nunca desistir de buscar o que acredita ser dela.

Texto por: Eliane Dias

É mulher, negra, esposa, mãe, empresária e política. É sócia da produtora Boogie Naipe, que cuida da carreira de Mano Brown, seu marido, e dos grupos Racionais, RZO e 5pra1. Sua história foi construída por conta da sua essência feminista de nunca desistir de buscar o que acredita ser dela.

Muitas mães e pais estão adotando práticas duvidosas na criação dos filhos e não percebem o efeito nocivo desses hábitos no comportamento das crianças e na relação que elas estabelecem com o mundo, particularmente com as tentações oferecidas pelas redes sociais.

Uma dessas práticas é não dedicar aos filhos a atenção de que eles precisam. Os argumentos mais comuns são falta de tempo (correria, trabalho etc.) e vontade de respeitar a privacidade deles. Mas o efeito real desse comportamento é o jovem se sentir desprezado ou até mesmo um estorvo na vida dos pais.

Também existe um excesso de cobrança de responsabilidades. Só porque a jovem cresceu e está com o corpo formado, os pais se iludem achando que já pode ser dona da razão. E o jovem malhado de academia então? "Ah, esse já está pronto para ser pai de família." Mas não é assim que a banda toca. Eles ainda necessitam de ajuda para fazer a transição do mundo adolescente para o mundo adulto, ainda precisam de uma boa conversa, um beijo, um colo, companhia para ir ao futebol, ao cabeleireiro. Precisam de segurança, não só de cobranças.

Com as supostas privacidade e responsabilidade, vem também muitas vezes uma dificuldade de entender que nossos filhos não têm nada a ver com nossos problemas. Dificuldades de relacionamento entre adultos devem ser resolvidas entre adultos, sem projeções sobre a criança ou adolescente. O problema é tão sério que virou lei. Conforme o artigo 2º da Lei nº 12.318/2010, "considera-se ato de alienação parental a interferência na formação psicológica da criança ou adolescente, promovida ou induzida por um dos genitores, pelos avós ou pelos que tenham a criança ou adolescente sob a autoridade, guarda ou vigilância, para que repudie genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculos com este”.

Trocando em miúdos, se você tem problemas com marido, ex-marido, mulher, ex-mulher, genro, nora, seja quem for, saiba que o problema é seu. Você não tem o direito de afastar a criança do pai ou da mãe por causa disso.

Todos os comportamentos citados podem causar o afastamento do filho, já que o lar deixa de ser um porto seguro. E o efeito colateral disso é que o filho procura outros portos. Muitos são ainda menos seguros que o lar, mas cheios de tentações que ocultam os perigos. Um caso que se tornou popular recentemente é o jogo da baleia azul, que parece ter levado vários jovens ao suicídio, no Brasil e em outros países. O filho que não se sente confortável no colo da mãe vai procurar o da baleia azul.

É importante dizer que a dinâmica da nossa sociedade patriarcal agrava esse problema. O mundo exige tanto das mulheres, massacra tanto as mulheres, o desrespeito familiar é tão grande, a tentativa de fazê-las sucumbir é tamanha que, para muitas delas, a maternidade fica em décimo plano. É nessa hora que aparece a “grande mãe baleia azul”, com tempo para ouvir o jovem e saber de seus problemas.

Mas também é importante dizer que tudo o que as mulheres aprendem na gravidez é levado para o resto da vida. Aprendem a diminuir o ritmo, a sentir mais, a ter mais paciência, a alimentar, fazer dormir, medir a temperatura do corpo com os lábios - o que é uma delícia -, a identificar se o choro é de dor ou de manha. Toda essa conexão não se perde com o passar do tempo e a mãe que entender isso conseguirá ser sempre um porto seguro, de águas calmas e cristalinas, livre de baleias e outros perigos. Mesmo que a vida tente empurrá-la para outra direção.

Nenhum dinheiro, nenhuma viagem para Orlando, nem o telefone mais caro paga um colo, um carinho, um cheiro, uma boa conversa acompanhada de um filme no sofá. Se dez vidas eu tiver, nas dez quero ser mulher e poder dar o apoio necessário a meus filhos.