06 de novembro 2017

Os limites da empatia

limites da empatia
06 novembro 2017

Os limites da empatia

O ser humano tende a se sensibilizar mais com tragédias individuais do que com catástrofes em massa. Como, então, chamar atenção para os problemas da humanidade?
Texto por: Camila Luz

Em 2015, a foto de um menino sírio morto em uma praia da Turquia chamou atenção para a crise migratória que mata milhares de pessoas do Oriente Médio e da África. Os refugiados são vítimas da mais grave questão humanitária desde a Segunda Guerra Mundial. O sofrimento em massa, no entanto, não causou tanto impacto no mundo quanto uma tragédia individual.

Para o psicólogo americano Paul Slovic, o ser humano tem mais dificuldade para se sensibilizar com tragédias em massa. Quanto maior o número de vítimas, menos ele se conecta. O especialista criou até um termo para isso: “entorpecimento psíquico”.

A psicóloga Adriana Marques diz que o ser humano desenvolve mais empatia quando se identifica com a situação. “Quando um drama é individual, há uma identificação com essa pessoa. É mais fácil você se conectar com uma história, uma fotografia, do que com uma massa de gente”, explica ela, que também é professora e supervisora de psicoterapias corporais do Centro Universitário Celso Lisboa.

O próprio Freud já falava sobre isso no início do século 20, quando discutia a questão do desamparo. Diante de uma tragédia de massa, o ser humano se sente impotente e acaba entrando em estado de negação.  “Funciona como um mecanismo de defesa. É mais fácil ajudar uma pessoa do que milhares de vítimas. Por isso, apoiamos mais causas específicas do que coletivas”, diz.

Após a divulgação da foto do menino sírio, o número de doações para a causa dos refugiados aumentou exponencialmente. Em apenas um dia, as doações passaram de US$ 8 mil para US$ 430 mil. Paul Slovic classifica esse fenômeno como “efeito de singularidade”. Todos nós fazemos grandes esforços para proteger um único indivíduo ou para resgatar alguém em perigo. À medida que os números aumentam, não respondemos proporcionalmente a isso.  

Em entrevista ao site Vox, Slovic diz que o efeito de singularidade ocorre mesmo quando duas ou três pessoas são vítimas de uma tragédia  em vez de uma. Quanto maior a quantidade, menor o impacto. Em um dos estudos feitos pela equipe do especialista, eles concluíram que os participantes seriam menos propensos a fazer algo para salvar a vida de 4.500 pessoas em um campo de refugiados se aquele campo tivesse 250 mil indivíduos.

O ser humano se sensibiliza com questões individuais. Mas os problemas do mundo são muito mais complexos e extensos do que isso. Como proceder?

A realidade por trás dos números

Na opinião de Adriana, jornalistas criam mais engajamento do público quando contam histórias individuais e chamam atenção para uma causa maior. O mesmo vale para advogados, governantes e organizações que defendem os direitos humanos.

“A ONG Médico sem Fronteiras, por exemplo, mostra fotos individuais das crianças que atende em suas propagandas”, afirma. “É muito mais fácil para o ser humano se identificar com uma história do que olhar para uma foto de milhões de pessoas, sem prestar atenção no rosto de nenhuma”, diz.

Para Slovic, soluções parciais também salvam vidas e são importantes. Mas para solucionar problemas maiores, é preciso ensinar o ser humano a interpretar o sentido por trás dos números. Educar as crianças a ler, escrever e resolver equações matemáticas é necessário, mas elas também devem refletir sobre a realidade que esses números representam.

Para criar consciência sobre os problemas, deve-se desenvolver a empatia – valor pouco cultivado pela sociedade atual. “Falta muita empatia e, por consequência, falta respeito. Você só consegue respeitar o próximo quando se coloca no lugar dele”, defende Adriana.

A psicóloga conta que certas escolas já estão fazendo trabalhos específicos na infância para treinar a empatia, reduzir o bullying e casos de assédio moral. “Isso vai além do entorpecimento físico. As próprias relações individuais estão prejudicadas”, afirma.

Ensinar as crianças de hoje a interpretar o sentido dos fatos, assim como sensibilizá-las o suficiente para que aprendam a se colocar no lugar do outro, pode ser o primeiro passo. “Wilhelm Reich, pai da psicoterapia corporal, diz que educar as crianças é fazer um trabalho de prevenção para criar uma sociedade saudável no futuro. Cabe a nós contribuir”, pondera Adriana.