02 de janeiro 2018

Os legados de João Carlos Martins

Maestro João Carlos Martins
02 janeiro 2018

Os legados de João Carlos Martins

Maestro gravou obra completa de Bach e fez mais de três mil concertos. Agora, compartilha conhecimentos com crianças para democratizar a música clássica
Texto por: Camila Luz

Considerado um dos maiores pianistas da atualidade, o maestro João Carlos Martins, 77 anos, já deixou sua marca no mundo. Seu legado inclui a gravação completa da obra de Johann Sebastian Bach e milhares de concertos pelo mundo. Reconhecido internacionalmente desde a juventude, seus esforços para democratizar a música clássica ainda não terminaram.

“A música é a minha razão de viver”, diz o maestro em entrevista ao Valor do Feminino. Sua paixão pelo piano começou cedo, quando ainda era menino. Aos oito anos, participou de um concurso para tocar obras de Bach, e venceu. Aos 13, começou sua carreira como pianista. O reconhecimento internacional veio em seguida, quando fez sua estreia em uma das mais famosas salas de espetáculos dos Estados Unidos: o Carnegie Hall.

Mas o que faz a trajetória do maestro tão singular é a sua perseverança. Ao longo da vida, enfrentou percalços suficientes para aposentar as partituras e tomar outros rumos. Mas o amor pela música superou as dificuldades. Aos 25 anos, o torcedor da Portuguesa jogava futebol com amigos no Central Park, em Nova York, quando sofreu uma queda e perfurou o braço direito. A lesão o obrigou a se afastar dos palcos por um tempo. Com muito esforço, voltou a tocar utilizando dedeiras de aço. Recuperou seu público, mas o desgaste gerou outras lesões.

Após um necessário período de descanso, voltou à ativa. No entanto, enquanto gravava as obras completas de Bach na Bulgária, sofreu um assalto violento. Foi atingido por uma barra de ferro na cabeça e teve sequelas neurológicas, o que trouxe novos problemas para a mão direita. Precisou começar a tocar somente com a mão esquerda.

Em entrevista ao programa Roda Viva em março de 2014, João Carlos conta que os percalços o deixaram devastado e chegou a pensar em suicídio. Passou por 19 cirurgias e procurou ajuda onde foi possível. Sua persistência resultou em muitos frutos. Terminou a gravação da obra de Bach, realizou mais de três mil concertos e gravou o último álbum da carreira com as duas mãos.

Os percalços não terminaram por aí. Com o decorrer dos anos, desenvolveu uma doença chamada contratura de Dupuytren na mão esquerda, o que o impossibilitou de tocar piano. Em 2002, abandonou definitivamente os palcos. Foi então que deu uma reviravolta e se tornou maestro.

“Sempre gosto de dizer que a música me salvou”, declara. “A relação com a regência começou durante um sonho com o maestro Eleazar de Carvalho, que me recomendou estudar regência. No dia seguinte, o maestro Júlio Medaglia me deu a primeira aula. Eu já tinha 63 para 64 anos quando comecei a estudar. Já são mais de 13 anos como maestro”, lembra.

Vozes do mundo

Como maestro, João Carlos Martins deu início a uma nova fase. Agora, seu legado inclui projetos sociais que apoiam crianças brasileiras e estrangeiras, refugiadas no Brasil em razão da crise humanitária de imigração.

Em 2006, idealizou a Fundação Bachiana, uma entidade sem fins lucrativos cujo objetivo é apoiar o desenvolvimento de atividades de excelência e formação musical e cultural – especialmente nas artes clássicas e educação musical. “Busco deixar um legado para o país através da música”, conta. “Acredito muito que os projetos sociais são parte importante do caminho. Os refugiados são um assunto muito importante deste século e precisam de atenção”, completa.

João Carlos foi convidado por Daniela Guimarães para atuar como maestro do coral “Somos Iguais”, composto por crianças refugiadas de países como Síria, Congo e Angola. Hoje, o projeto humanitário é parceiro da Fundação Bachiana. As instituições trabalham em conjunto e apresentam emocionantes concertos em eventos.

As crianças cantam músicas tradicionais brasileiras, como “Se essa rua fosse minha” e “Quero ver”, além de canções em inglês. De acordo com o maestro, a participação no coral ajuda os refugiados a se identificarem com a nossa cultura. Portanto, se sentem mais acolhidos.

O musicista compartilha seus conhecimentos com os pequenos e recebe muito em troca. “É um aprendizado diário. Elas mostram que muitas vezes nossos valores estão distorcidos. As crianças têm uma simplicidade e dão muito valor às oportunidades que recebem. Fico muito feliz de poder participar da vida delas de alguma forma”, revela.

“A música venceu”

Com os jovens brasileiros, a Fundação Bachiana faz um trabalho de musicalização em cidades do interior e bairros das grandes capitais. O foco principal nesse tipo de ação é a musicalização, para aproximar as crianças de um universo pouquíssimo explorado por elas: a música clássica.

Além de formar um público apreciador de música clássica, a Fundação investe seus esforços para que as crianças adotem a modalidade como ofício ou profissão. Muitas vezes, descobrem novos talentos musicais que integram concertos.

Hoje, músicos profissionais e talentosos musicistas jovens são regidos por José Carlos na Orquestra Bachiana Filarmônica SESI-SP. Eles se apresentam em teatros, escolhas, praias e praças públicas de grandes e pequenas cidades, levando a música clássica até quem raramente tem acesso à ela. “Sigo na missão de democratizar a música clássica. A música não só me ajudou como me salvou, por isso meu lema é ‘A Música Venceu’”, declara.

José Carlos Martins já foi homenageado diversas vezes. Em 2011, a escola de samba Vai-Vai baseou seu enredo nos até então 70 anos de vida do maestro, seguindo o lema “A Música Venceu”. Sua história também foi registrada por cineastas europeus, como na co-produção franco-alemã “Die Martin’s Passion”. Mais recentemente, o diretor brasileiro especialista em biografias Mauro Lima encabeçou o filme “João, o Maestro”. Divulgado em agosto deste ano, a obra traz Alexandre Nero como protagonista.

Humilde, o musicista diz ficar “muito honrado” por todo o reconhecimento – inclusive quando é parado na rua pelos interessados na sua obra. “Isso me deixa muito feliz e animado para seguir com a carreira, projetos e objetivos”, afirma.  

Para o futuro, João Carlos pretende realizar o sonho de Villa Lobos e “fechar o Brasil em forma de coração com a música”. Na sua opinião, a música clássica deve ser uma realidade na vida de todos. “Estou com o projeto ‘Orquestrando em São Paulo’, que visa levantar orquestras no interior do estado, em cidade de até 70 mil habitantes. A ideia é levar o projeto para o todo o Brasil”, finaliza.