27 de dezembro 2017

O suicídio e a universidade

estudante550
27 dezembro 2017

O suicídio e a universidade

Uma nova e perigosa tendência surge nas universidades brasileiras: o crescimento da depressão e o suicídio entre os estudantes
Texto por: Rafael Nardini

Um levantamento publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo recentemente jogou luz em um problema muito grave e que parece silenciado: o aumento no índice de depressão entre estudantes universitários. As federais paulistas Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Universidade Federal do ABC (UFABC) registraram, juntas, cinco suicídios de estudantes de 2012 para cá. Na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), por sua vez, foram registradas 22 tentativas de atentado contra a própria vida. A UFABC informa ainda que 11% de seus alunos trancaram a matrícula em 2016 por problemas psicológicos.

Como forma de tentar combater o problema, já há uma tentativa das instituições para criar laços e conseguirem se aproximar dos alunos. A Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Botucatu, decidiu criar a figura de um professor mentor para os alunos que apresentarem mudanças repentinas no rendimento acadêmico. Após o suicídio de dois alunos, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) criou em 2017 dois núcleos de saúde mental. Na Universidade Federal da Bahia (UFBA), a ideia é proteger os alunos de baixa renda e cotistas do bullying e da rejeição pelos outros estudantes. 

O psicanalista e professor titular da Universidade de São Paulo (USP) Christian Dunker vê como principais causas desse cenário a “deflação narcísica” e o “sofrimento improdutivo”, situações em que o estudante acaba desamparado e sem condições de se ver como alguém especial e único. “Você chega ali e está com outros que também são os melhores da classe, que também são os melhores alunos de suas pequenas cidades. Quando o aluno chega à universidade, ele sofre um choque. É choque de diversidade de gênero, de classe, de raça, de ideais, de cultura e, de repente, o aluno precisa comprimir isso num universo que você não tem laços de comunidade, laços de apoio, que é a grande proteção contra o sofrimento. Isso tudo é substituído por um universo individualista onde você vai ser comparado por notas, por acesso à pós-graduação”, explica.

Para Dunker, um grande problema é que a sociedade espera da universidade um espaço de autonomia e criação, mas a realidade acaba sendo muito diferente. “Quem vai se responsabilizar pela ideia de que nossos universitários sofrem? Essa política de reconhecimento é pífia. Como a gente é acostumado a imaginar a universidade como um playground, como um paraíso e um lugar de sexo, drogas e rock’n’roll, não olhamos para ela como um espaço em que as pessoas estão sofrendo. Elas sofrem com a impessoalidade, com o excesso de racionalidade do cotidiano e com a nossa impossibilidade de reconhecer um sofrimento que está ali posto", afirma. 

Sem espaço para a ideia do sofrimento, o ambiente se torna pouco acolhedor, o que, segundo Dunker, acaba levando os jovens a criarem fugas da realidade. “Com a tentativa do escape do real, os jovens universitários entram em um ciclo de sofrimento que é incapaz de ser dissolvido: ‘Sei que não é isso que quero para mim, sei que deveria estar à frente e meus colegas estão melhores do que eu’. Isso acarreta em inadequação. 

A tecnologia, os jovens e o mal estar

Esses mesmos dados alarmantes são vistos mundo afora. Em pesquisa realizada com 200 estudantes, Glenn Geher, professor e diretor de psicologia na State University of New York (EUA), mostrou que 59% dos jovens relataram ter recebido o diagnóstico de algum transtorno psicológico. Geher, em texto para a Psychology Today, aborda a facilidade com que os alunos acabaram tornando-se cruéis na era do cyberbullying e da tecnologia desenfreada. “Hoje é muito mais fácil os jovens serem mesquinhos e cruéis uns com os outros do que foi em qualquer momento passado da história humana, graças à internet. E resultados sociais que geram sofrimento podem, sem dúvida alguma, exercer consequências graves sobre a saúde mental”.

Essa crueldade tem ainda outro agravante: o vício e a dependência dos jovens pelo mundo virtual. Um levantamento recente da CNN mostra que 50% dos adolescentes americanos são viciados em smartphones, afetando o sono e as interações sociais “A dependência do telefone celular não difere da dependência de qualquer outra coisa e está provocando estragos na vida mental de nossos jovens”, pontua Geher.

Deborah De Mari, do projeto Força Meninas, também enxerga na tecnologia um impulso para o momento delicado entre os estudantes. “Com base no nosso convívio com quase 200 meninas, a gente observa esse incremento nos índices de depressão e ansiedade em meninas a partir dos 12 anos e, às vezes, até menos. A gente precisa entender como a nossa vida mudou com a tecnologia. Para algumas coisas é muito melhor, mas tem também o lado da comunicação e socialização e como é que a gente mantém e desenvolve amizades. Estamos falando de distorções de imagens corporais, de meninas que se comparam a outras mais velhas e vivem o tempo inteiro a sensação que estão perdendo alguma coisa”, opina.

O cyberbullying e a sexualidade precoce, com o agravante do vazamento de fotos sensuais muitas vezes muito cedo, também entram nessa conta. “A internet tira a capacidade de amizades olho no olho e a relação pessoal é essencial para a fase da adolescência”.  

Para Deborah, os pais precisam ajudar a desenvolver um senso crítico, uma vez que esses jovens são nativos digitais e retirá-los desse ambiente é praticamente impossível. “Muitas vezes, essas meninas são personagens nos ambientes digitais e outra pessoa aqui do lado de fora. Por isso, também é muito complicado para os pais identificarem a depressão. Nem todo mundo que está deprimido está deitado e não consegue fazer nada”.