30 de outubro 2017

O Poder não precisa de testosterona

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30 outubro 2017

O Poder não precisa de testosterona

Sempre fomos comandados por homens, cisgêneros, heteronormativos, brancos e membros da elite e os resultados não são os melhores
Sobre o autor: Alexandre Putti

Alexandre Putti é jornalista com experiência nas editorias de justiça, política e cultura. É autor do livro-reportagem “As Travas da Prisão”, que retrata o cotidiano das mulheres transexuais no sistema prisional masculino. LGBT com muito orgulho, ele acredita na revolução por meio do conhecimento.

Texto por: Alexandre Putti

Alexandre Putti é jornalista com experiência nas editorias de justiça, política e cultura. É autor do livro-reportagem “As Travas da Prisão”, que retrata o cotidiano das mulheres transexuais no sistema prisional masculino. LGBT com muito orgulho, ele acredita na revolução por meio do conhecimento.

“O momento é de testosterona”, disse um pré-candidato à presidência da República. Homem, branco e cisgênero, o político tentou se explicar dizendo que se referia ao momento de tensão política que o país atravessa.

O hormônio em questão está presente nos homens e nas mulheres, mas é encontrado em quantidade significativamente maior no corpo masculino. Ele é um fator determinante no comportamento do homem por ser responsável pelo aumento do desejo sexual.

Seguindo esse raciocínio, se o momento atual pede mais dedicação à esfera pública, traduzida em um trabalho feito com tesão, nada melhor do que a figura de um homem para cumprir esse papel, não é mesmo?

NÃO.

A sociedade brasileira ainda é patriarcal e muito machista. Ao longo de mais de 500 anos, nós fomos comandados por homens, cisgêneros, heteronormativos, brancos e membros da elite – e sempre estivemos condicionados a associar esse perfil ao da figura de “poderoso chefão”.

A realidade é que os três poderes não representam, de fato, a nossa sociedade, como mostram dados da União Interparlamentar e do Censo Judiciário do Conselho Nacional de Justiça. Somando um total de 51,6% dos brasileiros, as mulheres são a maioria da população. 

Sob a ótica da representatividade parlamentar, a média de ocupação de mulheres em cargos eletivos no Brasil é de 14%, uma das mais baixas do planeta. Em uma lista de 193 países, o nosso está na 154ª posição com relação à ocupação de mulheres nos parlamentos. Na América do Sul, somos o país com menor representação parlamentar feminina.

O Judiciário segue a mesma linha e tem somente 37,3% de presença feminina. Se for analisada a representatividade da mulher negra, os números ficam ainda mais assustadores. E as incoerências não se restringem aos dados: as poucas mulheres que conquistaram cargos de poder passam por situações cotidianas que evidenciam o machismo presente na nossa cultura.

"Não nos deixam falar, então nós não somos interrompidas". Assim disse a atual presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Carmem Lúcia. Ela se referia a uma pesquisa feita nos EUA, na qual foi descoberta que as mulheres são interrompidas, em média, 18 vezes mais do que os homens.

E no território brasileiro a realidade é ainda pior. Exceto a OAB de Alagoas, todas as outras seccionais nunca foram representadas por mulheres. Nas associações de juízes, em sua maioria, não temos mulheres na presidência. E por aí vai...

Se chegamos até a situação de instabilidade política em que o Brasil se encontra, foi exatamente por excesso de testosterona. Associar o termo à ideia de força e trabalho eficiente é uma expressão do machismo em um contexto no qual a diversidade deveria ser protagonista. Sobretudo, para combater os privilégios de pequenos grupos de poder que acabam militando em causa própria.

As mulheres precisam ser representadas. Assim como os negros, os LGBTs, os índios e todas as pessoas que vivem nesse país, pois a empatia só é possível quando existe contato com as diferenças.

Eu, como homem, não acredito que o momento seja de testosterona. Enquanto os números da sociedade brasileira não tiverem representatividade dentro dos três poderes, o exercício da democracia não será pleno.