27 de dezembro 2017

“O Papai é Pop”

Marcos
27 dezembro 2017

“O Papai é Pop”

Como a ausência paterna foi fundamental para a formação de um paizão
Texto por: Debora Stevaux

“Eu me lembro de pedir para ter um pai para a minha mãe e ela chorar muito e ficar muito envergonhada de não poder me dar um pai”, lembra Marcos Piangers, 37 anos, jornalista e escritor, autor de “O Papai é Pop”, que atingiu a marca de 150 mil cópias vendidas no Brasil, Portugal, Espanha, Inglaterra e Estados Unidos. Natural de Florianópolis, Marcos faz parte do contingente populacional de 5,5 milhões de crianças brasileiras que não possuem o nome do pai na certidão de nascimento, de acordo com dados divulgados pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em 2011. E foi a carência que o fez aprender, na marra, a ser pai de suas duas filhas: Anita, 12 anos, Aurora, 5. A mãe é a também jornalista e escritora Ana Emília Cardoso.

“Sem dúvida, a falta de um pai teve um impacto forte na minha vida, uma falta de referencial, que acabou possibilitando um aprendizado pelo erro. Eu aprendi a ser pai sendo, errando muito, me arrependendo muito e ouvindo muito o que a minha mãe, minha esposa e as minhas filhas tinham para me ensinar”, conta Marcos.

Na infância e adolescência, Marcos fantasiava que seu pai pudesse ser o ex-jogador de futebol Paulo Roberto Falcão – o ‘Falcão do Inter’, um dos melhores volantes brasileiros que atuou no time Internacional–, ou o empresário Eike Batista. Mas não era nenhum dos dois. Foi somente quando sua mãe descobriu um câncer no útero, em março de 2015, que ela quebrou o silêncio: o pai ausente era um homem normal.

Sobre a ausência paterna, Marcos diz que não guarda raiva ou ressentimento, apesar de ter sido uma das principais motivações para a rebeldia na adolescência, para as dificuldades financeiras enfrentadas por ele e pela mãe, Eloísa Piangers. "Não guardo mágoa do meu pai, mas não mantenho contato, porque seria um estranho. A minha esposa até foi atrás dele e eu fiquei muito feliz de saber que ele tem uma outra filha e é muito participativo com essa filha, o que me deixa profundamente feliz e esperançoso. É a prova de que a vida é longa e te dá chances de ser melhor todos os dias”, dispara.

https://www.youtube.com/watch?v=MSaPrDohoMU

Como a experiência de Marcos transforma a vida de outros pais

Todos os dias, Marcos recebe e-mails e mensagens de pais que se sentiram tocados com as experiências relatadas por ele em seu livro. “Muitos pais me escrevem dizendo que as passagens e as histórias que vivi com as minhas filhas são incentivadoras para que eles também valorizem mais esse tempo juntos. Outros contam que tinham abandonado a família e voltaram a tentar mais uma vez por conta do livro. Há ainda aqueles que dizem agora entender os traumas que tiveram, a dificuldade afetiva e ao distanciamento familiar”, enumera.

O escritor acredita que, embora hoje os homens tenham mais informações, referências e incentivos para desenvolver uma paternidade participativa e humanizada, ainda há um longo caminho pela frente: enquanto a maternidade ainda é vista como uma obrigação, a paternidade é facultativa. “Alguns caras perceberam que um casamento não consegue ser sustentável sem a sua participação. Da mesma forma que a mulher fez o caminho de sair do ambiente puramente doméstico para ir para um de realização profissional, o homem também precisa fazer o caminho inverso, equilibrar melhor o trabalho para estar mais perto da família e participar de todas as questões relacionadas ao filho”, afirma.

Marcos argumenta ainda que o redesenho das masculinidades deve questionar o papel do homem no núcleo familiar, que precisa ir além do papel de provedor, pagador de contas. “A presença de um pai sensível e aberto possibilita que a criança cresça muito mais segura emocionalmente, com muito mais referencial. O relacionamento com a companheira também melhora. E, por fim, os homens também descobrem um prazer que não tinham nos dito que existia, que é a felicidade de estar fazendo parte da maior missão humana: a capacidade de criar um outro ser humano e formar uma pessoa melhor, mais atenciosa, bondosa e humana.”