03 de janeiro 2018

O lado B da maternidade

Lado B da Maternidade
03 janeiro 2018

O lado B da maternidade

Por uma visão mais real e menos romantizada do pós-parto
Texto por: Aretha Yarak

Quando deu à luz seu primeiro filho, a advogada e escritora Elisama Santos descobriu uma maternidade real e conhecida, mas pouco divulgada. “É tudo muito difícil no começo. Você ouve que nasceu para ser mãe, que todas as mulheres sentem alegria e satisfação, mas para mim foi tudo muito difícil. Chorei muito, porque não aguentava mais, não dava conta”, relembra. Foram noites insones, sem saber com certeza o que fazer, sofrendo com dores nos seios e sentindo muito cansaço. “Sempre me disseram que a mulher sabe o que fazer por instinto, que seria lindo, mas eu tinha é medo e sono”, comenta.

Assim como Elisama, milhares de outras mulheres sofrem sozinhas e caladas após o nascimento do bebê. Mas, felizmente, é cada vez mais comum ouvir relatos pela internet que desmistificam a magia da maternidade. “Escrevi um livro e mantenho um site que funciona como rede de apoio, é preciso falar sobre o real”, comenta. Natural de Salvador (BA), Elisama é mãe de um menino de cinco anos e de uma menina de três anos e autora de “Tudo eu! Confissões de Uma Mãe Sincera” e “{Re}Olhar – Acolhendo quem somos e os filhos que temos”.

Após o nascimento do primeiro filho, ela entrou para um curso de empreendedorismo na tentativa de mudar sua vida profissional. “Existia um desafio de criar 30 ideias em 30 dias e eu escrevi um texto sobre a maternidade por dia”, conta. A opção pela escrita veio do estímulo de colegas, que já a elogiavam pela sinceridade com que tratava os percalços do pós-parto. “Tudo se resume como um reflexo dessa visão social de que vai ser lindo e natural e de que tudo é a mãe, o papel de educar, de cuidar”, diz.

As dificuldades da maternidade na vida real


Mas não foi bem assim que aconteceu. Nas primeira semanas, Elisama relembra que amamentar foi uma experiência difícil e que trouxe muita dor. Enquanto seu mamilo sangrava e ela não conseguia acertar o compasso com o filho, na sua cabeça vinha a mensagem de que ela deveria saber o que fazer, de que deveria ser lindo e instintivo para ambos. “Mas, na verdade, a amamentação é uma construção, o bebê não nasce sabendo, eu não nasci sabendo. A gente vai se conhecendo e aprendendo”, comenta. E era sobre essas verdades do dia-a-dia do puerpério que ela conversava com amigas e colegas de um jeito mais sincero e natural. Os relatos viraram o livro, escrito no curso de empreendedorismo e lançado em 2015, com uma verba arrecadada via crowdfunding na internet.

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A página que ela havia criado para divulgar o projeto viralizou e Elisama começou a receber mensagens de brasileiras de todos os cantos do país sobre as dificuldades que vinham enfrentando na maternidade. “Elas me contavam o quanto era enlouquecedor cuidar de uma criança sozinha”, relembra. Os desabafos começaram a se tornar cada vez mais comuns, conforme as mulheres foram se sentindo seguras para falar sobre medos e dificuldades, sem receio de serem julgadas por isso. Nascia, então, a rede de apoio ReOlhar (mesmo nome do segundo livro da autora), que hoje tem hoje cerca de 120 mulheres ativas e que procuram se ajudar, mesmo a distância.

Em canais como esse as mulheres conversam e fortalecem discursos sobre as realidades - e dificuldades - da vida no pós-parto. Das complexidades da amamentação e exaustão pela falta de sono às renúncias da liberdade individual. Do mito que é o chamado instinto materno.“Essa expectativa de um saber natural, de saber de prontidão o que fazer cria uma dificuldade enorme para a mulher. Ela e o companheiro terão que aprender. Só se é mãe ao longo do processo”, desmistifica a psicóloga Vera Iaconelli, do Instituto Gerar. E esse processo de aprendizagem, segundo ela, é para toda a vida: quando a mãe sente que já está familiarizada com o bebê, ele cresce e surge um novo desafio.

“Lembro que houve um período em que eu precisava apertar minha escova de dentes para saber se tinha usado. Eu sentia como se estivesse emburrecendo”, comenta Elisama. Além disso, muitas compartilham ainda os dramas da vida de mãe solteira - e os preconceitos que enfrentam quando decidem deixar os filhos com babás ou alguém da família para se divertir. “Nada mais comum do que olharem com reprovação. Ou ainda quando um cara, que era todo fofo, some depois de saber que você tem filhos”, comenta Alexandra dos Santos, 34 anos e mãe de três meninos. “Como assim você é mãe e está balada? Cadê seus filhos?”. Alexandra já perdeu as contas de quantas vezes ouviu coisas do tipo.

O instinto da maternidade


Iniciativas como a de Elisama são essenciais para ajudar a desmistificar a maternidade e a divulgar as dificuldades reais (e normais) que uma mulher enfrenta sozinha em casa. Embora seja “preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”, como prega um provérbio de origem desconhecida, as mães modernas vivem solitárias. “O que é uma aberração social, isso jamais deveria acontecer”, comenta a psicóloga Vera Iaconelli. Essa solidão, ainda segundo Vera, não é apenas um resultado do estar sozinha com a criança em casa mas também é fruto de uma perda cultural significativa.

Se há até algumas décadas, uma mulher cuidava do seu filho do mesmo modo que sua mãe havia cuidado dos dela, hoje predominam as técnicas novas, repassadas por especialistas. “Já não existe mais uma referência cultural, não há mais acesso ao discurso familiar, que é descartado. Vale mais a informação nova. Mas isso traz técnicas que são passadas sem afeto, sem linhagem e sem identificação familiar”, comenta Vera.

“Hoje em dia, é muito comum a mulher estar longe da família, criando os filhos de um jeito solitário e sem apoio. Antigamente, as vizinhas ajudavam”, compara Elisama. Mas até mesmo aquelas que são casadas ou têm companhia conjugal para cuidar do bebê acabam se vendo sozinhas. É que, segundo os relatos que surgem no site, a grande maioria dos homens ainda não participa ativamente da criação dos filhos. “Mas deveriam, porque um pai ativo não é mais opcional, e sim uma condição necessária para dar o suporte que a mulher precisa para cuidar do bebê”, afirma a psicóloga Vera Iaconelli.

Por mais que alguns homens já reconheçam seu papel na criação de uma criança, a legislação brasileira ainda segue atrasada. Para eles, a licença após o nascimento ou adoção de uma criança é de apenas cinco dias corridos. Em todos os outros dias da licença-maternidade, que varia de quatro a seis meses, a mulher tende a ficar sozinha. E o homem, que segue no trabalho, perde muito do contato com o filho. “As mulheres precisam parar de se sentir culpadas, porque esse isolamento é também um problema social. A legislação precisa ser alterada”, diz Vera. Além disso, é sobre elas que recai o maior ônus no mercado de trabalho.

Enquanto boa parte das mães são demitidas pouco tempo após voltarem da licença maternidade, as que perduram no mercado de trabalho ainda precisam enfrentar muito preconceito. Como a produtora Alexandra dos Santos, que atua há mais de dez anos em São Paulo. “Em todas as entrevistas de emprego que fiz, a primeira leva de perguntas é sempre se vou dar conta, se vou faltar muito e se meus filhos irão atrapalhar minha rotina profissional. É um provar constante que você é boa profissional e que a maternidade só a impulsiona a ser melhor, não o contrário”, desabafa. “Isso precisa acabar”.