27 de novembro 2017

O instinto materno é exclusividade das mulheres?

instinto materno (1)
27 novembro 2017

O instinto materno é exclusividade das mulheres?

No processo de criação de um ser humano, o que prevalece é o amor e o carinho que os criadores estão dispostos a dar, independentemente do gênero
Sobre o autor: Alexandre Putti

Alexandre Putti é jornalista com experiência nas editorias de justiça, política e cultura. É autor do livro-reportagem “As Travas da Prisão”, que retrata o cotidiano das mulheres transexuais no sistema prisional masculino. LGBT com muito orgulho, ele acredita na revolução por meio do conhecimento.

Texto por: Alexandre Putti

Alexandre Putti é jornalista com experiência nas editorias de justiça, política e cultura. É autor do livro-reportagem “As Travas da Prisão”, que retrata o cotidiano das mulheres transexuais no sistema prisional masculino. LGBT com muito orgulho, ele acredita na revolução por meio do conhecimento.

Tenho 26 anos e meu sonho é ser pai. Por ser homossexual, isso seria possível com adoção ou barriga de aluguel. Toda vez que faço essa afirmação, as pessoas me questionam sobre o fato de os meus filhos não terem uma presença feminina para chamar de mãe.

“Quem vai cuidar deles?”, “sua mãe vai ajudar a criá-los?”, “se for menina, como vai fazer com os assuntos íntimos?” e “isso não iria traumatizar a criança?” são algumas perguntas que já me fizeram quando mencionei meu desejo de criar um filho.

A sociedade sempre construiu a ideia de que as mulheres nasceram para tomar conta de seus filhos. Desde pequenas, as meninas são incentivadas a cuidar de suas bonecas, trocar a fralda, dar comida e fazer dormir enquanto os meninos brincam de ser super-heróis, bombeiros, médicos, empresários, atletas ou de outras profissões com que se identifiquem.

Nesse contexto, as meninas crescem acreditando que nasceram para ser mães e que o instinto materno está naturalmente presente nelas. De fato, por gerarem a criança dentro de seus corpos, as mulheres têm uma ligação íntima com seus filhos, mas isso não impede que homens desenvolvam o mesmo sentimento.

Foi o que descobriu uma pesquisa liderada por Ruth Feldman, psicóloga e neurocientista da Universidade Bar-Ilan, em Israel, feita em 2014. Após analisar famílias tradicionais, com pai e mãe, e famílias com dois pais homossexuais, a pesquisadora chegou à conclusão de que o ato de cuidar de crianças desperta não só um instinto especial de paternidade no cérebro como também seria capaz de desenvolver o famoso instinto materno nos homens. A descoberta revela que a experiência de instinto maternal pode se configurar no cérebro do cuidador da mesma forma que é processada pela gravidez e pelo parto.

A cultura machista construída pela sociedade incentiva as mães a assumir o controle do cuidado de seus filhos enquanto o foco dos homens é a preocupação com a parte financeira. É claro que essa regra tem suas exceções, mas a maior parte das famílias tradicionais segue essa estrutura.

Analisar os fraldários dos shoppings e locais públicos é importante para entender essa construção social. Via de regra, eles estão presentes apenas nos banheiros femininos, onde somente as mulheres podem entrar com seus filhos.

Além de gerar uma sobrecarga na mulher – que, na maioria dos casos, também trabalha e cuida da casa – , esse comportamento acaba afastando o homem do cuidado de seus filhos. Então, a pesquisa liderada por Ruth nos ajuda a compreender que o cuidado diário desenvolve o instinto materno de maneira mais expressiva do que a gravidez e o gênero do cuidador.

Eu sou homem e quero ter filhos, independe de me unir a uma outra pessoa para isso. Tenho o desejo de cuidar deles, trocar fraldas, dar de mamar, levar à escola, brincar, passar noites acordado tratando das dores de barriga, ficar dias sem dormir, levar ao médico, estar presente no primeiro dia de aula, na formatura, no casamento... E por ai vai. É esse cuidado, e não o meu gênero, que vai ser responsável por gerar em mim o sentimento de instinto materno, que as pessoas acreditam ser exclusividade das mulheres.

É muito simplista defender que as mulheres nasceram para executar essas tarefas e jogar nas costas delas uma responsabilidade que deveria ser dividida entre os pais. No processo de criação de um ser humano, o que prevalece é o amor e o carinho que os criadores estão dispostos a dar. Porque, para construir família, o essencial é ter amor – e a minha terá muito, mesmo sem uma mãe.