01 de julho 2017

O acolhimento no universo corporativo

O acolhimento no universo coorporativo
01 julho 2017

O acolhimento no universo corporativo

A dominância do estilo de vida voltado para a produtividade impede que mulheres e homens conciliem de forma harmônica vida profissional e pessoal.
Texto por: Redação o Valor do Feminino

Quantas vezes você realmente sentiu que tinha tempo livre recentemente? Quantas vezes conseguiu almoçar com calma? Qual foi a última vez que a sua agenda não tinha mais compromissos que horas? Nos tempos atuais, não se pode negar: a dominância do estilo de vida voltado para a produtividade e para a labuta impede que mulheres e homens conciliem de forma harmônica a vida profissional e a vida pessoal.

Em um excelente artigo para o The Guardian, a filósofa norteamericana Nancy Fraser nos leva a possíveis caminhos para compreender o momento complexo que estamos vivenciando. Para ela, em nome de um determinado modelo econômico que sustenta a forma de vida extra-produtiva e demasiadamente atarefada que experienciamos, a busca pela libertação feminina teria mordido uma certa isca, causando uma reviravolta praticamente oposta às buscas iniciais. "Um movimento que uma vez priorizou solidariedade social agora celebra empresárias. A perspectiva que certa vez valorizou o “carinho” e a interdependência agora encoraja avanços individuais e meritocracia", ela diz.

Na prática isso se traduz em uma dinâmica que todo trabalhador já conhece: a dedicação ao fazer laboral se impõe sobre as delicadezas da vida pessoal. Assim, levar filhos na escola se torna mais uma atividade corrida do dia, em vez de prazerosa; o cuidado com as necessidades de casa vão sendo terceirizados e o desfrute desse espaço se restringe ao fim de semana. Uma volta para flanar pela cidade? Só se for para ciceronear amigos turistas — se é que acontece! E tirar uma folga, então, independentemente de qual seja o motivo, vira um drama.

É como se quase tudo o que se é fora do espaço de trabalho não pudesse ser carregado para o universo corporativo. Dessa maneira, responsabilidades hegemonicamente tratadas como femininas — como resolver quiprocós e organizações de casa, preparar refeições, cuidar da arrumação de filhos na ida à escola, levar ao médico quando adoentados — são vistas como fraquezas no universo do trabalho. Ou seja, a lógica empregatícia não acolhe as mulheres/mães, mas mais do que isso: não reconhece que estas atribuições e necessidades não são exclusivas de gênero, mas dimensões humanas, do indivíduo. Isso sem mencionar a predisposição cultural a se julgar um trabalho feminino como inferior.

Sabe-se da prática comum de evitar promover mulheres a cargos de grande responsabilidade apenas por serem “potenciais” mães e, pior!, de demitir as novas mães no retorno da licença maternidade. Só que se uma mulher se torna mãe, o seu filho tem um pai, certo? E se essa criança tem um pai, este homem deveria ser, no mínimo, igualmente responsável por levar à escola, alimentar, cuidar em caso de doença. Certo?

A vlogueira Hel Mother fala sobre as questões enfrentadas por mães no mercado de trabalho, especialmente logo após o nascimento de um filho.

Felizmente, é assim que alguns homens estão começando a pensar e a se posicionar. Afinal, por mais que as mulheres há muito tempo se empenhem na busca por uma mudança das lógicas de trabalho — e é de se comemorar que venham, de fato, encontrando possibilidades, como aponta este artigo —, pouco será viável enquanto homens não compreenderem que se trata de uma questão coletiva, sim.

No último dia dos pais foi publicado no site Nexo um artigo que expõe, com argumentos simples e inegáveis, o quanto é urgente uma mudança de paradigmas para que seja viável uma transformação efetiva. Em relação às licenças após o nascimento de um filho e seu peso prático e simbólico para a vida em sociedade, o autor afirma: “A única maneira de lidar com esse problema é ter licenças equivalentes para homens e mulheres, alternadas entre si ou em conjunto”. No Brasil, por lei, a licença maternidade é de quatro meses, podendo chegar a seis, e a licença paternidade é de cinco dias (!), podendo chegar a 20.

Tudo isso só nos leva a concordar com o antropólogo espanhol Rixtar Bacete, para quem o desafio deste século é a construção de um novo modelo social mais democrático, justo e igualitário. O caminho para isso passa, evidentemente, pela disposição dos homens a “questionar o modelo tradicional de masculinidade, a renunciar aos privilégios que recebem do sistema patriarcal, a se libertar do peso de uma masculinidade mal entendida e a se comprometer, junto com as mulheres, de maneira ativa, na realização de um mundo melhor para todas as pessoas”, afirma Bacete.

O modelo de trabalho atual foi pensado por homens e para homens, numa época em que eram eles os provedores financeiros de uma família enquanto as mulheres ficavam responsáveis pela educação e administração do lar. O resultado, agora, são gerações mais novas de mulheres que se veem obrigadas a optar por carreira ou família. Por isso, é fundamental que as condições internas das empresas (quantidade e flexibilidade de horas de trabalho, por exemplo) compreendam que seus funcionários não têm como separar “vida pessoal” e “vida profissional”, afinal estas são duas dimensões de cada pessoa. Acolher a totalidade dos indivíduos pode ser vantajoso para, inclusive, deixar de perder talentos.

Acreditar na igualdade gênero no que toca aos temas discutidos aqui significa crer que, conforme as mulheres ocupem espaço no mercado de trabalho, haverá uma divisão de tarefas familiares com os companheiros, por um lado, e flexibilidade das empresas para permitir que elas — e eles — cumpram sua metade das responsabilidades pessoais, por outro. Essa é uma mudança que só se faz junto.

Sobre a autora:
Nina Neves é jornalista freelancer, fotógrafa amadora por hereditariedade, baiana em SP porque assim é a vida e interessada pela cultura em todas as suas formas. Foi repórter de carreira na revista Você S/A e estuda temas relacionados a questões de gênero.